Pelo Mundo

Imagens de Gaza à espera de Obama

05/01/2009 00:00

Argemiro Ferreira

São imagens iguais a outras. Uma delas parece mera repetição de foto velha. Mas antiga é a cena, não a foto. Durante o novo ataque da máquina de guerra israelense contra a população civil palestina, voltou a cena do adolescente (Davi?), de pedra na mão, a desafiar o tanque israelense (Golias?). Entre 1948 e 2008 ela já apareceu tantas vezes que já não sensibiliza editores de jornais.


























A “banalização do mal”, sobre a qual escreveu Hanna Arendt no estudo sugerido pela presença dela em 1961 ao julgamento do carrasco nazista Adolf Eichman (Eichman in Jerusalem), talvez ajude a explicar a redução do interesse daquela mesma mídia que se emocionara em junho de 1989 com o jovem chinês diante dos tanques no protesto de Tiananmen, a praça da Paz Celestial em Pequim.

A do palestino à frente do tanque mal foi vista desta vez. Mas há outras - em fotos e filmes, sempre dramáticos. Pais, mães, filhos, avós. Como Samera Baalusha, mãe de 34 anos: antes do assalto israelense, tinha sete filhos. Agora traz no colo Mohamad, 15 meses, e leva pela mão Eman, 15 anos - os que restam depois da invasão de Gaza. Na foto, ela espera na fila o corpo de Jawaher, de 4 anos.

Israel festeja tudo isso como “golpe imposto ao terrorismo do Hamas”. Confia na força de suas armas - e do arsenal nuclear, acobertado pelos EUA, padrinho-protetor obcecado antes pelas armas atômicas inexistentes do Iraque e agora pelas do Irã e Coréia do Norte. A máquina da propaganda busca esconder isso: espalha sua própria informação falsa e impede a mídia estrangeira de entrar em Gaza.

Foi assim que, imitando o exemplo do governo Bush, Israel “plantou” sua própria versão de “ataques cirúrgicos”. Mostrou imagens feitas por um dos jatos atacantes do que seria um grupo de milicianos do Hamas carregando um veículo com foguetes a serem usados contra israelenses. O caça, segundo o relato, disparou um míssel, destruiu foguetes e matou milicianos.

A BBC de Londres investigou e virou pelo avesso a história do “ataque cirúrgico”, cujas imagens já corriam o mundo pela internet, via YouTube. Em Gaza, Ahmed Sanur contou: o carro destruído era dele. O míssil israelense na verdade atacara no momento em que parentes e amigos colocavam cilindros de oxigênio no veículo, depois de ser sua loja atingida por estilhaços de bomba.

De acordo com o relato da rede britânica de televisão - baseada em informações do B’Tselem, grupo israelense de direitos humanos - o próprio Sanur revelou ainda que oito pessoas, inclusive um filho dele, tinham morrido no tal “ataque cirúrgico”. Ao mesmo tempo, exibiu também fotos dos cilindros chamuscados - conseqüência do ataque aéreo.

Como explicou dia 4 a organização de direitos humanos Human Rights Watch, desde o início de novembro, ao começar a deterioração do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, o governo israelense passou a restringir drasticamente o acesso a Gaza de jornalistas estrangeiros e monitores de direitos humanos. E a partir de 27 de dezembro, devido à atual campanha militar, nenhum pode mais entrar em Gaza.

A HRW conclamou o governo israelense a cumprir decisão de alto tribunal do país a 31 de dezembro para ser permitida a entrada em Gaza de representantes da mídia internacional - o que geralmente contribui, em áreas de conflito, para desencorajar abusos de direitos humanos e violações das leis de guerra. A entrada de jornalistas israelenses em Gaza já estava proibida há mais de dois anos.

A ausência de jornalistas e monitores de direitos humanos sempre encoraja os excessos. Paralelamente, no plano diplomático - e em especial na ONU e no seu Conselho de Segurança - o papel dos EUA, ao bloquear em princípio qualquer possibilidade de trégua, deu luz verde a Israel para fazer o que bem entende, exatamente como na invasão do Líbano em 2006.

Esse quadro favoreceu os números escandalosos do balanço na manhã de segunda-feira, em seguida à sabotagem americana da paz na ONU: mais de 500 palestinos mortos, cerca de quatro mil feridos. O que é chocantemente desproporcional ao pretexto israelense para o banho de sangue: só é atribuído a diabólicos foguetes lançados de Gaza três ou quatro mortes do outro lado.

No passado, nem o governo conservador de Ronald Reagan adotou posição tão a reboque de Israel como faz a atual administração Bush-Cheney. Richard Murphy, ex-embaixador que serviu seis anos sob Reagan como secretário de Estado assistente para assuntos do Oriente Médio, ridicularizou em entrevista à CNN a desculpa dos EUA para bloquear a trégua no Conselho de Segurança.

Na ONU, o chefe efetivo da missão americana, Zalmay Khalilzad, deixou para o adjunto Alejandro Wolff o encargo de expor à mídia internacional as razões de Washington para, sob ameaça de veto, sequer discutir uma trégua. Os EUA optaram, ao contrário, por dar todo o apoio à alegação israelense de que só é aceitável “um cessar-fogo efetivo e sustentável”.

Murphy espantou-se: “Cessar fogo efetivo e sustentável é fantasia. Para chegar a algo assim teria de haver mudança fundamental dos dois lados da disputa”. Como qualquer diplomata com um mínimo de bom senso, Murphy sabe bem que o governo Bush apenas reedita o que fez em julho-agosto de 2006: dar mais tempo a Israel para fazer o que quer, quando e como quiser.

Apesar das previsões de que o espetáculo de morte e destruição não trará vitória estratégica para Israel sobre o Hamas, como não trouxe sobre o Hizbollah em 2006 no Líbano, um sacerdote do neoconservadorismo nos EUA, William Kristol, prometeu em sua coluna do New York Times que desta vez será diferente. Para ele, Israel vai acabar com o Hamas - "fará um favor aos EUA".

Em que, exatamente, estarão apostando Israel e Kristol? Os dois parecem certos de que com o fato consumado - no momento delicado que antecede a posse do novo presidente dos EUA - Barack Obama vai cair numa armadilha, tornar-se refém da mesma política ditada pelos neocons a Bush. Resta saber até que ponto o governo Obama estará comprometido com a mudança que o candidato pregou na campanha.

(*) Como jornalista, desde a década de 1980, Argemiro Ferreira escreve para o diário Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. É autor dos livros "Informação e Dominação" (edição do Sindicato de Jornalistas do Rio de Janeiro, 1982 - esgotado), "Caça às Bruxas - Macartismo: Uma Tragédia Americana" (L&PM, Porto Alegre, 1989), "O Império Contra-Ataca - As guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de setembro" (Paz e Terra, São Paulo, 2004). Foi colaborador de Rede Imaginária - TV e Democracia (org. por Adauto Novaes, Companhia das Letras, São Paulo, 1991), Mídia & Violência Urbana (Faperj, Rio de Janeiro, 1994).

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