Pelo Mundo

Immanuel Wallerstein: O impasse sírio

28/02/2012 00:00

Immanuel Wallerstein - Esquerda.net

Bashar al-Assad carrega o peso de ser um dos homens menos populares do mundo. Quase todos o denunciam como tirano, um muito sangrento tirano. Mesmos os governos que se recusam a denunciá-lo parecem estar a aconselhá-lo a moderar os métodos repressivos e fazer algum tipo de concessões políticas aos seus opositores internos.

Mas então como ignora ele todos estes conselhos e continua a aplicar a máxima força para manter o controle político da Síria? Por que não há intervenção externa para provocar a sua derrubada? Para responder a estas questões, comecemos por avaliar as suas forças. Para começar, ele tem um exército razoavelmente poderoso e, até agora, com poucas exceções, o exército e outras estruturas repressivas do país permaneceram leais ao regime. Em segundo lugar, ainda parece contar com o apoio de pelo menos metade da população, naquilo que está cada vez mais a ser descrito como uma guerra civil.

Os postos-chave do governo e o corpo de oficiais das forças aramadas estão nas mãos dos alauítas, uma ala do Islã xiita. Os alauítas são uma minoria da população e temem evidentemente o que lhes poderia suceder se as forças de oposição, maioritariamente sunitas, tomassem o poder. Além disso, as outras forças minoritárias significativas – cristãos, drusos e curdos – também parecem temer um governo sunita. Por fim, a ampla burguesia mercantil ainda não se voltou contra Assad e o regime do Baath.

Mas isso é suficiente? Se os apoios fossem só esses, duvido que Assad pudesse manter-se por muito tempo. O regime está sendo sufocado economicamente. O Exército Sírio Livre, de oposição, está sendo abastecido de armas pelos sunitas iraquianos e provavelmente pelo Qatar. E o coro de denúncias na imprensa mundial, e de políticos de múltiplas tendências, aumenta de volume a cada dia.

Ainda assim, não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. O motivo é que aqueles que mais o denunciam não desejam de fato que ele caia. Vamos analisá-los um a um.

Arábia Saudita: o ministro dos Negócios Estrangeiros disse ao New York Times que “a violência tem de parar e o governo sírio não merece que lhe deem mais hipóteses”. Soa de fato muito duro, até que se descobre que o mesmo ministro acrescentou: “a intervenção internacional deve ser descartada”. O fato é que a Arábia Saudita quer ter o crédito de se opor a Assad, mas tem muito medo do governo que possa suceder-lhe. Sabe que numa Síria pós-Assad (provavelmente, bastante anárquica), a Al Qaeda encontraria uma base. E os sauditas sabem que o objetivo número um da Al Qaeda é derrubar o regime saudita. Logo, “nada de intervenção internacional”.

Israel: sim, os israelenses continuam obcecados pelo Irã. E sim, a Síria baathista continua a ser uma potência favorável ao Irã. Mas na hora de fazer as contas, a Síria tem sido um vizinho árabe relativamente tranquilo, uma ilha de estabilidade para os israelenses. Sim, os sírios ajudam o Hezbollah, mas o Hezbollah também se tem mantido calmo. Por que iriam os israelenses querer correr o risco de uma turbulenta Síria pós-baathista? Quem assumiria o poder? Não iria querer reforçar as suas credenciais ampliando a jihad contra Israel? E a queda de Assad não abalaria a estabilidade relativa que o Líbano parece agora desfrutar? O resultado não acabaria por ser uma renovação do radicalismo do Hezbollah? Israel tem muito a perder, e não muito a ganhar, se Assad cair.

Estados Unidos: a Casa Branca fala em tom elevado. Mas o leitor reparou como é cautelosa, na prática? O Washington Post deu, a um artigo de 11/2, o título: “Perante a carnificina, os EUA não veem ‘boas opções’ na Síria”. O texto sublinha que o governo dos EUA “não tem apetite para uma intervenção militar”. Nenhum apetite, apesar da pressão de intelectuais neoconservadores como Charles Krauthammer, que é suficientemente honesto para admitir que “não se trata apenas de liberdade”. Trata-se, diz ele, de desfazer o regime iraniano.

Mas não é exatamente por isso que Obama e os seus conselheiros não veem boas alternativas? Eles foram pressionados a entrar na operação da Líbia. Os EUA não perderam muitas vidas, mas será que obtiveram alguma vantagem geopolítica? O novo regime líbio – se é que se pode falar em novo regime líbio – é melhor que o anterior? Ou é o começo de uma longa instabilidade interna, como a que abalou o Iraque?

Assim, posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. A pressão para iniciar uma intervenção de estilo líbio foi suspensa. Obama foi protegido contra o assédio republicano pelo veto russo. E Susan Rice, a embaixatriz dos EUA na ONU, pôde atirar toda a culpa para Moscou. Eles foram “repugnantes”, disse ela, oh, tão diplomaticamente.

França: Sempre nostálgica do papel outrora dominante do seu país na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, grita e denuncia. Mas tropas? Deve estar a brincar. Há uma eleição à vista, e enviar soldados não seria nada popular, até porque, ao contrário da Líbia, a ação militar não seria um passeio.

Turquia: na última década, o país ampliou de forma incrível as suas relações com o mundo árabe. Ankara está de fato descontente com uma guerra civil nas suas fronteiras. Adoraria algum tipo de compromisso político. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ahmet Davutoglu, teria garantido que “a Turquia não está a fornecer armas ou a apoiar desertores do exército”. A Turquia deseja essencialmente ter boas relações com todas as partes. Além disso, a Turquia tem a sua própria questão curda e a Síria poderia oferecer apoio ativo a esta minoria – o que, até agora, se absteve de fazer.

Portanto, quem quer intervir na Síria? Talvez o Qatar. Mas o Qatar, por mais rico que seja, está longe de ser uma importante potência militar. A conclusão é que, por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Por isso, com todas as probabilidades, ele vai ficar.

15 de fevereiro de 2012

Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net


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