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Importa quem os democratas escolherão como candidato à presidência?

Em termos da política atual, provavelmente, não muito

04/02/2020 10:49

(Ivan Alvarado/Reuters)

Créditos da foto: (Ivan Alvarado/Reuters)

 
No ponto em que nos encontramos, a indicação presidencial democrata está no ar. Não apenas é incerto quem será o candidato, mas também não está claro se o candidato será um centrista como Joe Biden ou Amy Klobuchar, ou um representante da esquerda do partido como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren. Quem quer que vença a indicação, haverá motivo para muita lamentação e ranger de dentes do outro lado.

Por isso, gostaria de oferecer uma opinião que provavelmente irritará a todos: em termos de política real, provavelmente não importará muito quem os democratas venham a nomear - desde que ele ou ela vença e que os democratas façam maioria no Senado.

Se você é um centrista preocupado com os gigantescos aumentos de gastos propostos por Sanders, acalme-se, porque eles não acontecerão. Se você é um progressista preocupado que Biden possa governar como um republicano, você também deve se acalmar, porque ele não o fará.

Na prática, qualquer democrata provavelmente aprovará um aumento significativo de impostos sobre os ricos e uma expansão significativa, mas não enorme, da rede de segurança social. Dada uma vitória democrata, uma versão muito aprimorada do Obamacare [o sistema de saúde aprovado por Obama] certamente será promulgada. Um sistema universal de saúde (Medicare for All), nem tanto. Dada uma vitória democrata, o Seguro Social e o Sistema de Saúde serão protegidos e ampliados. Cortes do tipo Paul Ryan não estarão em discussão.

Por que eu digo isso? Considere primeiro as lições dos três anos de Donald Trump.

Em 2016, Trump concorreu como um tipo diferente de republicano, prometendo que, diferentemente de outros candidatos, ele não cortaria programas sociais e reduziria impostos sobre os ricos. Mas era tudo mentira. Além de sua guerra comercial, as políticas econômicas de Trump têm se caracterizado como pura ortodoxia de direita: enormes reduções de impostos para as empresas e os ricos, tentativas de excluir dezenas de milhões de americanos do programa de saúde. Ultimamente, ele tem falado sobre possíveis cortes no Seguro Social e no Sistema de Saúde.

O ponto é que, embora Trump comande uma subserviência pessoal humilhante de seu partido, ele não provocou nenhuma mudança significativa nas prioridades políticas do Partido Republicano.

Ora, o Partido Democrata é muito diferente do Partido Republicano - é uma coalizão frouxa de grupos de interesse, não uma entidade monolítica que responde a um punhado de bilionários aliados a nacionalistas brancos. Mas isso, se for o caso, torna ainda mais difícil para um presidente democrata levar seu partido muito longe de seu centro de gravidade político, que atualmente é de progressismo moderado.

Ainda está longe de estar claro quem sairá vencedor nas primárias, mas basta pensar no que acontecerá se qualquer um dos dois candidatos atuais, Bernie Sanders ou Joe Biden, se tornar presidente - e também tiver força suficiente para produzir um Senado Democrata, porque, caso contrário, nada acontecerá.

Sanders tem uma agenda extremamente ambiciosa. O programa de saúde universal (Medicare for All) é apenas parte disso. Pagar por essa agenda será difícil - não, a Teoria Monetária Moderna não acabará com a restrição fiscal. Portanto, transformar a visão de Sanders em realidade exigirá grandes aumentos de impostos, não apenas para os ricos, mas para a classe média; sem esses aumentos de impostos, os gastos serão altamente inflacionário.

Mas não se preocupe: isso não vai acontecer. Mesmo se ele chegar à Casa Branca, Sanders terá que lidar com um Congresso (e um público) consideravelmente menos radical do que ele e será obrigado a se contentar com uma agenda progressista mais modesta.

É verdade que os entusiastas de Sanders acreditam que podem reunir a maioria oculta dos americanos em torno de uma agenda agressivamente populista e, ao fazê-lo, também pressionará o Congresso a seguir adiante. Mas tivemos um teste nas eleições de meio de mandato: os progressistas concorreram com vários candidatos nos distritos de Trump, e se apenas um deles tivesse vencido, eles teriam reivindicado a justificativa de sua fé no populismo transformador. Mas nenhum o fez, a grande vitória democrata veio inteiramente de moderados que realizaram campanhas convencionais.

A opinião usual sobre esse revés progressista é que ele levanta questões sobre a elegibilidade de Sanders. Mas isso também tem uma implicação muito diferente: os moderados preocupados com uma presidência radical devem se acalmar. Um presidente Sanders não será especialmente radical na prática.

E quanto a Joe Biden? A campanha de Sanders afirmou que Biden endossou os planos de Paul Ryan de cortes bruscos no Seguro Social e no Sistema de Saúde. Essa afirmação é falsa. O que é verdade é que, no passado, Biden costumava ser uma Pessoa Muito Séria (Very Serious Person), concordando com o consenso do mundo político e social de Washington (Beltway consensus) de que precisamos de "ajustes" - um eufemismo para cortes modestos pelo menos - na Seguridade Social. (Na verdade, se você voltar um pouco, Sanders também disse coisas semelhantes.)

Mas o Partido Democrata como um todo mudou-se para a esquerda nessas questões, e Biden mudou-se com ele. Mesmo que ele tenha um desejo persistente de fazer um Grande Acordo com os republicanos - o que eu duvido - ele enfrentará uma reação intrapartidária tão grande que seria forçado a recuar.

Portanto, em termos de política, eis o que acho que acontecerá se Sanders vencer: teremos uma expansão significativa, mas não gigantesca, da rede de segurança social, paga por novos e significativos impostos sobre os ricos.

Por outro lado, se Biden vencer, teremos uma expansão significativa, mas não gigantesca, da rede de segurança social, paga por novos e significativos impostos sobre os ricos.

Uma implicação, se eu estiver certo, é que a elegibilidade deve desempenhar um papel muito importante em suas preferências atuais. Importa enormemente que um democrata vença, importa muito menos qual democrata vença.

Mas meu ponto principal é que os democratas devem se unir, entusiasticamente, por trás de quem receber a indicação. Qualquer moderado tentado a se tornar um tipo Bernie Não (Never Bernie) deve perceber que, mesmo que você ache Sanders radical demais, suas políticas reais serão bem mais temperadas. Qualquer entusiasta de Sanders tentado a se tornar um tipo de Bernie ou Nada deve perceber que atualmente até os centristas do partido são bastante progressistas e que há uma enorme lacuna entre eles e o Partido Republicano de Trump.

Ah, e todos os democratas acreditam na democracia e no estado de direito, o que é meio importante hoje em dia.

Paul Krugman é colunista de opinião desde 2000 e também é professor ilustre no Centro de Pós-Graduação da City University de Nova York. Ele ganhou o Prêmio Nobel de 2008 em Ciências Econômicas por seu trabalho em comércio internacional e geografia econômica.

*Publicado originalmente no 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli

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