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Impotência da UE contra sanções dos EUA ao Irã fazem bloco parecer ''um tolo desajeitado e antiquado'' na política internacional

Talvez o maior fracasso das mentiras da UE é o evidente colapso de sua ideologia. Desde sua concepção inicial nos anos 1950, a construção europeia tem sido baseada na ideia de que é possível superar as políticas de poder e ascender a uma forma superior de relações internacionais

16/08/2018 08:50

Yves Herman / Reuters

Créditos da foto: Yves Herman / Reuters

 

A cena do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker tropeçando na reunião da OTAN em Bruxelas no mês passado, quando teve que ser segurado por outros, é um símbolo poderoso do status da UE no cenário mundial.

A decisão de Donald Trump de implementar sanções contra empresas europeias que fazem comércio com o Irã, e a resposta da UE a isso, demonstram que o bloco de 28 nações nada mais é do que um tolo desajeitado e antiquado quando se trata de política internacional.

Não há dúvidas de que os líderes da UE estão furiosos com Trump por este destruir seu querido acordo com o Irã. Sua fúria fica ainda maior por saberem que não há nada que possam fazer a respeito. Líderes franceses como Emmanuel Macron e seu ministro de finanças, Bruno Le Maire, podem lamentar o fato de que a Europa não é “soberana”, usando a impotência da UE em face do unilateralismo dos EUA como um argumento para uma maior integração europeia. Entretanto, é exatamente esta a política que eles têm buscado já por um quarto de século, e o que os trouxe ao impasse no qual se encontram.

Em resposta às sanções contra o Irã, a UE anunciou que estava ativando um “Estatuto de Bloqueio”, uma medida legislativa que quase nunca foi usada anteriormente porque não funciona. Até os mandachuvas de Bruxelas admitem que ela é inútil: um deles foi citado dizendo o seguinte: “É um sinal político dado pela UE. Não é uma cura milagrosa.” Em outras palavras, este estatuto não protegerá as empresas europeias contra as sanções dos EUA. Centenas delas já estão saindo do Irã, se é que ainda não o fizeram. Entre elas estão algumas das maiores indústrias do mundo, a gigante francesa de petróleo Total, e a Airbus, cujos contratos no valor de bilhões acabaram de desaparecer graças ao presidente dos EUA.

Enquanto que as instituições da UE têm propagado o discurso do Partido Democrata de que a Rússia é a causa de todas as “dúvidas” e “divisões” dentro do bloco, o fato é que Donald Trump destruiu sozinho o sonho europeu. Este sonho era de fato somente isso — uma fantasia não baseada na realidade. A ilusão consistia em acreditar que a unidade europeia tornaria os Estados que a compõe coletivamente mais fortes. A realidade é que a integração europeia foi, desde o começo, um projeto apoiado pelos EUA pensado para ajudar o Ocidente na disputa da Guerra Fria. A integração da UE era, e é, ideológica e institucionalmente inseparável da OTAN, que é dominada pelos EUA. Em outras palavras, a integração da UE é impossível sem o patrocínio dos EUA e, como resultado, se este for retirado, como foi sob o governo Trump, os líderes da UE ficam como garotinhos pegos de calças na mão.

Nenhum dos benefícios de uma união monetária, que foram anunciados em Maastricht em 1991 e durante a preparação para ela, ocorreram. Foi dito que o euro favoreceria o crescimento, mas na verdade os EUA superaram em muito a zona do euro desde que a moeda única foi introduzida em 1999. Foi dito que protegeria a Europa de choques externos, mas o colapso em termos de produtividade foi tão intenso na Europa como resultado da crise financeira de 2008 quanto foi em outros lugares. Mais do que tudo, foi dito que o euro começaria a substituir o dólar como um instrumento de comércio internacional. Cerca de 20 anos depois, o dólar continua a ser a moeda quase inevitável para o comércio, especialmente de petróleo.

Foi precisamente porque o BNP Paribas, assim como todos os bancos, usava o dólar em seus contratos com o Irã e outros Estados da “lista negra” que ele recebeu uma multa gigantesca de $9 bilhões dos EUA em 2015. A Europa não fez nada a respeito dessa grosseira ultrapassagem dos limites de jurisdição dos EUA no governo do simpático Sr. Obama em vigor na época, apesar de ter sido exatamente o mesmo tipo de medida que a anunciada por Trump agora: a multa do BNP Paribas foi implementada no rescaldo imediato da crise da Ucrânia, quando a UE, como sempre, tinha corrido para junto de sua babá estadunidense para se esconder em suas saias. A mesma UE está agora colhendo sua pena, desta vez no governo do terrível Sr. Trump.

Desde 2015, todos os bancos europeus saem correndo se você disser que quer fazer negócios com um Estado pária como a Rússia, ou mais ainda o Irã, e, portanto, as empresas simplesmente não têm a capacidade de fazer comércio com esses países. É simples assim. Como Volker Treier, chefe adjunto da Câmara de Comércio alemã disse: “Até as empresas que não são afetadas pelas sanções dos EUA, por exemplo as da área médica ou aquelas que não fazem comércio com os EUA, não conseguem encontrar um banco que processe as transações com o Irã”.

Os EUA, portanto, tomaram o controle da economia mundial ao ameaçar sufocar o sistema bancário. A existência do euro não fez nada para impedir isso. Enquanto persistir a ligação entre o dólar e o petróleo, conexão que é mantida pelo domínio militar massivo que os EUA têm sob o mundo, isso não mudará. Militarmente, os Estados europeus terceirizam sua defesa para os EUA — a chamada “defesa europeia” é, na verdade, garantida pela OTAN, dominada pelos EUA. Como resultado, os antigos grandes poderes da história mundial como o Reino Unido, a França e a Alemanha agora foram lamentavelmente reduzidos em sua estatura militar. Quando uma potência nuclear como a França começa a se vangloriar do fato de que pode conduzir uma operação militar bem-sucedida nas terras abandonadas de um Estado falido como Mali, sabemos que a Europa não conta mais.

A agressão de Trump contra o Irã vem em um momento no qual a Europa tem estado, novamente, completamente ausente como uma força influente na política mundial em relação ao Oriente Médio. Em 2011, a França e o Reino Unido lideraram a mudança de regime na Síria, tornando-se os primeiros países a romper relações diplomáticas com Damasco. A UE preparou um dos maiores pacotes de sanções da história contra este país. Sua política agora está em frangalhos com a retomada do controle por parte de Damasco, com apoio russo e iraniano, de todo o território sírio. É difícil imaginar um exemplo mais flagrante de um fracasso de política externa que este. Até uma das figuras israelenses mais linha-dura, o ministro de relações exteriores Avigdor Liberman, agora aceita que Bashar al-Assad ganhou a guerra da Síria, e que agora ele é um possível interlocutor com Israel. O espetacular fracasso diplomático da Europa significa também o espetacular sucesso diplomático (e militar) da Rússia, porque a Rússia é agora a peça chave da paz entre Israel e Irã.

Talvez o maior fracasso das mentiras da UE é o evidente colapso de sua ideologia. Desde sua concepção inicial nos anos 1950, a construção europeia tem sido baseada na ideia de que é possível superar as políticas de poder e ascender a uma forma superior de relações internacionais. Isso é em grande parte a mesma ideia que foi difundida por ideólogos soviéticos que afirmavam que o bloco socialista tinha avançado a uma nova forma de relações internacionais.

A Rússia de Putin parecia, para os líderes europeus, representar um retorno bruto às políticas de poder: eles a desaprovavam, mas estavam felizes de serem capazes de se mobilizar e conseguir uma coesão fictícia a partir da luta em comum contra o novo problema.

Diferentemente, a decisão de Trump de abandonar o multilateralismo tão espetacularmente compromete a própria base na qual eles têm operado por décadas, porque repentinamente os EUA não são mais o grande protetor, mas, em vez disso, o inimigo. O políticos europeus foram lobotomizados intelectualmente por sua própria ideologia infantil pós-moderna e esqueceram-se há muito tempo de como se faz política de verdade. Atraídos para um falso senso de segurança por pensarem que nunca mais precisariam pensar, os líderes chatos e medíocres da UE não são nada mais do que gerentes (muito ruins); eles estão agora totalmente à deriva em um mundo repentinamente incerto. Eles fizeram por merecer.

John Laughland, que possui um doutorado pela Universidade de Oxford e lecionou em universidades de Paris e Roma, é historiador e especialista em assuntos internacionais.

*Publicado originalmente no RT News | Tradução de Nicolas Chernavsky


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