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Incapaz de encontrar soluções para o brexit, May se despede chorando e Corbyn pede eleições gerais

 

26/05/2019 12:32

 

 
A primeira-ministra britânica Theresa May, consciente de que não teria como dirigir seu governo, liderar seu partido e tampouco ratificar a saída da União Europeia, o projeto mais importante para o seu país desde a II Guerra Mundial, decidiu apresentar sua renúncia ao cargo, que será assumido, no dia 7 de junho, por outro dirigente do Partido Conservador.

May foi mais uma vítima do brexit, mais uma figura que queimou todo o seu capital político devido à impossibilidade de executar o acordo contraído junto à União Europeia em novembro passado. Sua saída deixa Bruxelas sem o interlocutor com o qual fechou um acordo de 600 páginas, o qual ninguém no organismo europeu deseja reabrir.

Uma das possibilidades mais fortes é a realização de novas eleições gerais, tendo em vista o frágil mandato que terá o novo primeiro-ministro, que será eleito exclusivamente dentro do Partido Conservador, em meio a uma das maiores crises das últimas décadas. Ninguém é capaz de prever o que acontecerá a respeito do brexit no dia 31 de outubro, data marcada para a oficialização da saída.

Após saber do anúncio de May, o líder da oposição britânica e presidente do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pediu que seu sucessor “permita que o povo decida sobre o futuro do país”, através da “imediata”, convocação de eleições gerais. Em sua conta de Twitter, Corbyn afirmou que May “finalmente aceitou aquilo que o país já sabe há meses: ninguém é capaz de governar nem liderar com um partido como o seu, dividido e desintegrado”.

No dia 17 de maio, Corbyn deu por encerradas as seis semanas de negociações com o governo conservador, nas que tentou aproximar as diferentes posturas e chegar a uma solução de consenso, para que se aprove o acordo do brexit: “não pudemos superar as importantes brechas políticas entre nós”, indicou o político centro-esquerdista.

A União Europeia espera a sucessão

Após saber da renúncia, Bruxelas advertiu que se nega a renegociar o acordo do brexit com seu sucessor. A data limite para o brexit é o dia 31 de outubro, quando cairá o atual Executivo comunitário. O curioso é que o Reino Unido participou nesta quinta-feira das eleições europeias, três anos após o referendo para sair do bloco continental.

O diplomata luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da União Europeia, “recebeu sem nenhuma alegria a notícia, e afirmou que sempre trabalhou muito bem com May, e reconhece a sua coragem. Expressou o grande respeito que tem para com a primeira-ministra, do mesmo modo em que professará igual respeito e pretende estabelecer uma relação de trabalho também profícua com o próximo primeiro-ministro britânico, seja qual for”, disse Mina Andreeva, sua porta-voz.

Na prática institucional britânica, May será mantida no posto até que o Partido Conservador possa eleger um novo líder, que se tornará automaticamente o seu sucessor, em um processo que pode tardar até seis semanas. Em sua breve mensagem para anunciar a decisão, May não conseguiu conter as lágrimas: “nos próximos dias, eu deixarei este trabalho, que foi a grande honra da minha vida. Fui a segunda mulher a exercer como primeira-ministra, mas certamente não serei a última. Não tenho rancores. Tenho enorme gratidão pela oportunidade de servir o país que amo tanto”, disse May.

O processo de sucessão não será fácil: há cerca de 16 candidatos na disputa, embora ainda sem formalização sobre o anúncio, todos estão dispostos a uma campanha dura, em uma sucessão que promete ser sangrenta.

Contudo, a questão do brexit não pode esperar o próximo primeiro-ministro, já a data definitiva é o dia 31 de outubro, e que foi escolhida após dois adiamentos: a primeira data escolhida foi o 29 de março, e depois o 12 de abril. Ainda que haja um rápido consenso entre os conservadores, o novo primeiro-ministro assumiria em julho, faltando três meses para a data final e com um processo que não mostra nenhuma evolução desde abril, o que torna muito difícil a missão de chegar a uma aprovação no parlamento.

O fracasso do Plano 4, apresentado por May nesta terça-feira (24/5), pretendia ceder um pouco aos diferentes setores em pugna, mas terminou produzindo o efeito contrário, deixando descontentes a governistas e opositores, pró e anti europeus, o que foi o estopim da sua queda. Não houve apoio sequer da própria bancada conservadora. Desde o referendo de 2016, com resultado favorável à saída do bloco europeu, já renunciaram dois primeiros-ministros (David Cameron e Theresa May), e mais de 11 ministros, entre eles dois dos encarregados das negociações com a União Europeia.

Na quarta-feira (22/5), a líder conservadora na Câmara dos Comuns, Andrea Leadsom, encarregada da agenda parlamentar do governo, entregou sua renúncia, ao se mostrar contra a forma com que a primeira-ministra tem lidado com o brexit, especialmente por sua intenção de apresentar o projeto sobre o acordo que foi negociado com Bruxelas, que incluía a possibilidade de que os deputados possam votar sobre a celebração de um segundo referendo, para confirmar ou rejeitar o acordo do brexit.

Este empate técnico não parece ter mudado de forma decisiva desde o referendo de 2016. Em seus quase três anos de mandato, May não soube resolver a polarização entre os dois lados. Quando tentou fechar novos compromissos, nas últimas semanas, já era tarde demais: as diferentes partes endureceram publicamente suas posições, não havia margem para a negociação e o consenso. Mas nenhum dos candidatos com chances de sucedê-la parecem ter mais habilidade política e diplomática.

O buraco negro

O brexit é como um buraco negro, capaz de roubar a energia de qualquer outro tema. O país deixou de falar sobre pobreza infantil, dos problemas no sistema de saúde e de uma crise de moradia que afeta milhões de pessoas, enquanto toda a sociedade parece estar presa a um único assunto, cada vez mais monótono, debatendo sobre uniões alfandegarias e comércio sem tensões”, segundo definiu o jornalista Owen Jones, do diário britânico The Guardian.

Jones sustenta que mesmo após todo este período de agitação, a grande maioria dos que votaram no referendo não mudaram opinião. Pior, radicalizaram-se as posturas. Para os que votaram pela saída, o certo seria realizar um “brexit sem acordo”, por mais que essa proposta radical nunca tenha sido considerada no referendo.

Vale recordar que a vitória de três anos foi por uma pequena margem de votos (51,8% contra 48,2%) a favor da campanha que defendia o brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia. Também é importante lembrar que tal plebiscito foi convocado como forma de aliviar as divisões internas do Partido Conservador – então comandado por Cameron.

Se supunha que a Grã-Bretanha não iria a tomar parte nas eleições europeias deste ano, mas as promessas impossíveis de cumprir por parte dos conservadores continuam chocando com a realidade, e nesse panorama, as eleições europeias só servirão para que as duas partes deixem registrado seu nível de indignação, através dos seus votos.

O “partido do brexit – como descreve Jones – liderado por Nigel Farage termina colhendo um grande triunfo: ele se apresenta como um soldado contra o establishment, apesar de ter estudado em escolas privadas, ter o apoio de milionários e defender a redução de impostos aos ricos e sobre as privatizações. Os centristas que votaram para seguir na União Europeia parecem estar fragmentados, sem liderança nem direção estratégica, e o mais importante, sem resposta para enfrentar as crises sociais.

Os trabalhistas de Jeremy Corbyn, segundo Jones, tentam superar estas divisões de forma desesperada e valente (mas não sempre com sucesso): defendem a necessidade de encontrar um ponto de equilíbrio que satisfaça as duas partes do brexit, argumentando que a verdadeira divisão da sociedade é a que existe entre uma maioria obrigada a pagar pela crise econômica (da que não é responsável) e uma elite que não deixa de se beneficiar desde então. Dentro do trabalhismo, também tem sido triste o abandono de uma defesa mais contundente dos imigrantes,

Owen Jones indica que estas eleições europeias não são mais que um novo capítulo da nova normalidade da crise britânica. O país é um desastre e se encontra sem rumo. Não é que falte ação por parte do governo, o que falta é exatamente um governo. Se não forem abordadas as questões das crises social e econômica que provocam o mal-estar da população, o país continuará se afundando, enquanto os conservadores continuam tentando se segurar no poder, mortos de medo do que virá depois, o final de suas quatro décadas de consenso neoliberal.

Mirko C. Trudeau é economista-chefe do Observatório de Estudos Macroeconômicos (Nova York) e analista de temas sobre Estados Unidos e Europa, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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