Pelo Mundo

Indignados da América Latina e do mundo perderam a um de seus guias

Eduardo Galeano é a lembrança dessas coisas que o poder, tanto político quanto econômico, quer que se esqueça.

16/04/2015 00:00

Victor Farinelli

Os indignados da América Latina e do mundo perderam a um de seus guias. Eduardo Galeano se foi. O escritor, jornalista e ensaísta uruguaio, colaborador do diário mexicano La Jornada e do argentino Página/12, entre outros, faleceu nesta segunda-feira (13/4) em Montevidéu, devido a um câncer de pulmão, segundo confirmou a assessoria de imprensa de sua editora.

Mas sua biografia não termina com sua morte. Se iniciou, sim, no dia 3 de setembro de 1940, na mesma Montevidéu, mas entre seu nascimento e sua morte há milhares de palavras, escritas em numerosos livros, ditas em diversos discursos, retomadas por centenas de milhares de jovens e adultos, homens e mulheres inconformados com os governos em todos os cantos do planeta, em todas as entrevistas concedidas, em todas essas frases que rondam a Internet, em todos os artigos que publicou em La Jornada, sua casa, e em todos os sonhos que compartilhou para fazer deste um mundo menos pior.

Entre seu nascimento e sua morte estão seu primeiro livro, Los Días Siguientes (1963) (sem título em português) e Mulheres (1997), uma antologia publicada há pouco tempo na Espanha. Entre essas duas obras, está o clássico As Veias Abertas da América Latina (1971), livro que o então presidente venezuelano Hugo Chávez deu de presente ao seu colega estadunidense Barack Obama durante a V Cúpula das Américas, em abril de 2009.

Também estão entre suas obras a trilogia Memória do Fogo (Os Nascimentos, 1982, As Caras e As Máscaras, 1984 e O Século do Vento, 1986), El Descubrimiento de América que Todavía No Fue y Otros Escritos (1986) (sem título em português) Nós Dizemos Não (1989), Palabras: Antologia Personal (1990) (sem título em português) e Espelhos – Uma História Quase Universal (2008).

Em 2012, visitou o México pela última vez. Acabava de publicar Os Filhos dos Dias (2012). Em novembro daquele ano, se apresentou na Sala Nezahualcóyotl, diante de milhares de jovens que ansiavam por vê-lo, escutá-lo, conhecê-lo pessoalmente. Também participou do encerramento da assembleia, no Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. Em ambos os eventos, dezenas de pessoas tiveram que se conformar com escutá-lo fora da sala ou do auditório. Isso ocorria sempre.

Em dua vida, teve a oportunidade de exercer vários ofícios: operário, desenhista, administrativo, pintor, mensageiro, caixa de banco e editor do semanário Marcha e do diário Época. E entre um batente e outro, desfrutava sua paixão pelo futebol.

Ademais de um grande ouvinte, como ele se definia, também foi um exilado político. Deixou o Uruguai depois de ser preso pela ditadura. Cruzou o Rio da Prata para viver na Argentina, mas teve novamente que abandonar esse país, diante de outro golpe de Estado, e porque seu nome constava na lista de condenados pelo regime de Videla. Dessa vez, com a Espanha como destino, mais precisamente na Catalunha, onde passou a escrever para periódicos locais e publicou a Trilogia do Fogo (1982-1986).

As veias abertas da América Latina, publicado anos antes, em 1971, foi proibido pelos regimes ditatoriais do Uruguai, Chile e Argentina.

Em 1985, regressou ao seu país, onde fundou o semanário Brecha, publicação que criou, em 2010, o Prêmio Memoria del Fuego, em referência a sua obra, e o primeiro a recebê-lo foi o cantor e compositor espanhol Joan Manuel Serrat. Também em 2010, Eduardo Galeano ganhou o Prêmio Stig Dagerman, e ao longo de sua vida recebeu vários doutorados honoris causa, por parte de universidades em Cuba, El Salvador, México e Argentina, além do Prêmio Medalla 1808, entregue em fevereiro de 2011, no antigo Palacio del Ayuntamiento, no México. Outro galardão recebido em 2010 foi o Prêmio Manuel Vázquez Montalbán, na categoria de Jornalismo Esportivo.

Sempre falou de e para os jovens, de e para os indígenas, contra os narcoestados e o neoliberalismo, em favor da ecologia e da legalização das drogas. Falou contra o esquecimento.

Dias atrás, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mostrou que havia recebido uma assinatura de Galeano contra o decreto pelo qual Obama qualificou o país sul-americano como uma ameaça. No México, um de seus últimos textos, publicado pelo La Jornada foi Leio e Compartilho, dedicado aos 43 estudantes desaparecidos.

“Os órfão da tragédia de Ayotzinapa não estão sós, na teimosa busca de seus queridos perdidos em meio ao caos de lixões incendiados e as fossas nasais carregadas de restos humanos”.

“São acompanhados pelas vozes solidárias e sua cálida presença em todo o mapa do México e muito além, incluindo os campos de futebol, onde há jogadores que festejam seus gols desenhando com os dedos, no ar, o número 43, em homenagem aos desaparecidos”.

Sempre ao lado dos pobres, dos indignados, seu ativismo social e compromisso com os desprotegidos o levou a Chiapas, para conhecer de perto o Exército Zapatista de Liberação Nacional, experiência que comentou durante vários anos, em diversos artigos, por exemplo, em Uma Marcha Universal, publicado em 10 de março de 2001.

“Ano 1914, ano 2001: Emiliano Zapata estava no Distrito Federal mexicano pela segunda vez. Nesta segunda vez vem desde uma pequena cidade, La Realidad, para mudar a realidade: desde a selva Lacandona chega para aprofundas a mudança da realidade de todo o México. Desde que emergiram e se tornaram conhecidos publicamente, os zapatistas de Chiapas estão mudando a realidade do país inteiro. Graças a eles, e à energia criadora que têm desencadeado, nem o que era já é mais com o era”.

“Os que falam do problema indígena terão que começar a reconhecer a solução indígena. No fim das contas, a resposta zapatista pelos cinco séculos de mascarar o tema, o desafio dessas máscaras que desmascaram, está revelando um esplêndido arco-íris que o México contém, e está devolvendo a esperança aos condenados à espera perpétua. Os indígenas, como se vê, só são um problema para aqueles que lhes negam o direito de ser o que são, e assim, também negam a pluralidade nacional e negam o direito dos mexicanos a serem plenamente mexicanos, sem as mutilações impostas pela tradição racista, que apequena a alma e corta as pernas”.

Eduardo Galeano é a lembrança dessas coisas que o poder, tanto político quanto econômico, quer que se esqueça.

Galeano, você é memória.



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