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Interferência russa nas eleições: Trump quer calar a comunidade de inteligência

 

12/08/2020 12:37

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O artigo da New York Times Magazine que descreve as batalhas do presidente Donald Trump com a comunidade de inteligência dos EUA revelou que a Rússia continua a travar sua própria guerra cibernética contra o mundo. De acordo com o colunista conservador do Washington Post, Max Boot, a reportagem devastadora explicou até que ponto o presidente está ignorando as ameaças à eleição de 2020.

“As opções enfrentadas pela comunidade de inteligência durante a presidência de Trump foram duras: evitar enfurecer o presidente, mas comprometer a independência ostensiva das agências, ou reafirmar essa independência e ser substituído por uma alternativa mais bajuladora”, escreveu Robert Draper em sua longa investigação sobre os esforços de Trump para politizar a inteligência internacional. De acordo com Boot, a parte mais chocante da investigação foi que os especialistas da comunidade de inteligência foram proibidos de falar honestamente sobre os ataques russos.

O mundo da inteligência está tentando desesperadamente proteger os Estados Unidos sem o apoio da Casa Branca e do Senado liderado pelo Partido Republicano, afirma Boot. Ele cita a declaração embaraçosa do servidor de carreira, encarregado, por Trump, do Centro Nacional de Contra-espionagem e Segurança.

William Evanina emitiu uma declaração semanas atrás admitindo: “A Rússia continua a espalhar desinformação nos Estados Unidos com o objetivo de minar a confiança em nosso processo democrático e desmerecer o que entende ser um 'establishment' anti-Rússia nos EUA”. Apesar de sua personalidade dura, Trump se tornou o fantoche de Vladimir Putin que ele afirmava que seu oponente seria.

Quando o Congresso foi informado sobre as ameaças eleitorais, eles imploraram à Casa Branca que fosse transparente ao público sobre as ameaças que o país enfrenta.

“Evanina foi - mas apenas até certo ponto”, escreveu Boot.

Em uma declaração na sexta-feira, ele reconheceu: "A Rússia está usando uma série de medidas para aviltar o ex-vice-presidente Biden" e "alguns atores ligados ao Kremlin também estão tentando impulsionar a candidatura do presidente Trump nas redes sociais e na televisão russa ... O parlamentar ucraniano pró-Rússia, Andriy Derkach, está espalhando denúncias sobre corrupção - inclusive por meio da divulgação de ligações que vazaram - para minar a candidatura do ex-vice-presidente Joe Biden e o Partido Democrata”.

Derkach era o homem que se encontrava frequentemente com Rudy Giuliani na tentativa de criar uma conspiração internacional sobre Biden. O esforço levou ao impeachment de Trump pelo Congresso. Há agora outro esforço de última hora por meio do senador Ron Johnson (R-WI) para usar a falsa propaganda russa para investigar Biden. É semelhante à maneira como os republicanos levaram Clinton ao Congresso como parte das seis investigações de Benghazi que nunca revelaram qualquer evidência de delito.

“Mesmo admitindo que a Rússia está mais uma vez montando uma campanha secreta para ajudar Trump, Evanina se sentiu compelido a equilibrar essa realidade inconveniente dizendo também o que Trump quer ouvir: que a China e o Irã são favoráveis à eleição de Biden”, escreveu Boot. “Essa equivalência moral disfarça a diferença entre a oposição iraniana e chinesa a Trump - expressa principalmente por meio de declarações e ações públicas - e a campanha de desinformação secreta travada pela Rússia com a ajuda ansiosa dos assessores e facilitadores de Trump”.

Embora tenha sido relatado na semana passada que a Rússia e a China têm preferência no próximo presidente, a Rússia é a única que está realizando ativamente uma campanha por Trump e contra Biden.

O simples fato de obter-se tanta informação foi uma surpresa, já que a pressão da Casa Branca forçou uma mudança em uma Avaliação de Inteligência Nacional (National Intelligence Estimate - NIE) removendo o que foi descoberto a propósito das tentativas russas de reeleger Trump.

"Os líderes russos provavelmente avaliam que as chances de melhorar as relações com os EUA diminuirão sob um presidente diferente dos EUA", reescreveu o relatório do NIE. Se isso for acurado, disse o ex-diretor interino da CIA Michael Morell: "é o primeiro exemplo que o público toma conhecimento da ‘adaptação’ de uma avaliação, pela Comunidade de Inteligência, para evitar irritar a presidência. Isso seria a Comunidade de Inteligência politizando seu próprio trabalho."

O ex-diretor de inteligência nacional, Dan Coats, teria sido demitido por se recusar a fazer tais mudanças a pedido de Trump. O vice-almirante Joseph Maguire fez isso, mas sua equipe contou o fato ao Comitê de Inteligência da Câmara em fevereiro. Então, Trump foi em frente com o representante republicano do Texas, John Ratcliffe.

"Estamos todos sofrendo de fadiga do escândalo, mas este escândalo não pode ser ignorado", disse Boot. “Trump não quer que a comunidade de inteligência exponha os ataques russos porque ele é seu beneficiário. Este é mais um exemplo de como Trump mina nossa democracia e subordina nossa segurança nacional aos seus interesses pessoais. É difícil imaginar um abandono do dever maior ou mais perigoso. Se Trump não for responsabilizado em novembro, os danos às nossas instituições podem se tornar irreversíveis."

*Publicado originalmente em 'Raw Story' | Tradução de César Locatelli



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