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Irã: proliferação nuclear e soberania

Independentemente do que acontece nos bastidores do poder em Teerã, é pertinente recordar que o Estado islâmico realiza o enriquecimento de urânio através de um programa de desenvolvimento atômico destinado à produção de energia para fins pacíficos. Entretanto, Washington e Tel Aviv acusam o país de pretender fabricar armas nucleares

08/09/2018 16:56

 

 
Através da declaração do vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, o governo desse país difundiu sua postura de disposição a negociar os métodos, a quantidade e o nível de sua produção de urânio enriquecido, mas também afirmou que não enviará esse material ao exterior, como demandam Estados Unidos, China, França, Rússia e Alemanha. Dessa forma, delimitou o propósito expressado há alguns dias pelo chanceler Mohamed Javad Zarif, que deseja alcançar resultados positivos nas negociações relacionadas com o programa nuclear iraniano em um prazo breve.

Na política interna, a precisão formulada por Araghchi poderia ser entendida como um sinal de controle do líder máximo da República Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, sobre o governo do presidente Hassan Rohani, que é visto como moderado e mais disposto a alcançar entendimentos com o Ocidente em comparação ao seu antecessor no cargo, Mahmoud Ahmadinejad.

Independentemente do que acontece nos bastidores do poder em Teerã, é pertinente recordar que o Estado islâmico realiza o enriquecimento de urânio através de um programa de desenvolvimento atômico destinado à produção de energia para fins pacíficos.

Entretanto, Washington e Tel Aviv acusam o país de pretender fabricar armas nucleares. Por sua parte, Paris, Londres, Moscou e Pequim questionam o programa atômico iraniano com o argumento de que é necessário impedir a proliferação dessas armas.

Não há razão para questionar a decisão soberana do Irã de construir centrais nucleares de geração de energia elétrica, que seriam do tipo que utiliza urânio enriquecido como combustível. Em última instância, tampouco haveria razão para impedi-lo de usar seu urânio com propósitos militares, por mais condenável que resulte tal emprego.

Em abstrato, o propósito de evitar o surgimento de novos arsenais nucleares no mundo parece ser uma ideia inquestionável. Contudo, as grandes potências, particularmente as que integram de forma permanente o Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), são possuidoras de armas de destruição massiva, produzidas de forma discricional, e atualmente outros quatro países já produzem e detêm bombas atômicas: Israel, Índia e Paquistão, além da Coreia do Norte.

Neste contexto, o empenho de aplicar o princípio de não proliferação a um só país se configura um exercício de simulação e de dupla moral.

Qualquer empenho por dissuadir o Estado islâmico de renunciar ao seu urânio enriquecido teria que agregar, para ser minimamente convincente, uma exigência semelhante a Israel, que não só possui esse material como já o utiliza na fabricação de um arsenal nuclear que atualmente se encontra em estado operativo.

Em termos mais gerais, é claro que as assimetrias sobre o poderio militar no mundo têm jogado a favor das grandes potências nucleares, particularmente os Estados Unidos, e que após a invasão e destruição do Iraque por parte de Washington essa circunstância vem impulsando nações que sofrem a constante ameaça estadunidense, como é o caso da Coreia do Norte, a buscar uma dotação de armas de destruição massiva, como única forma de assegurar que essa ameaça não se transformará numa incursão militar.

Finalmente, o desarmamento atômico e a redução dos arsenais convencionais constituem, sem dúvida, imperativos éticos cruciais, mas é pouco provável haja avanços nesses objetivos enquanto os países ricos e industrializados – os Estados Unidos em primeiro lugar – não renunciem ao seu constante intervencionismo em assuntos internos de outras nações, e não diminuam de forma significativa seus respectivos poderios bélicos.

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli



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