Pelo Mundo

Je ne suis pas Charlie (Eu não sou Charlie)

Não me identifico com a representação degradante e 'caricatural' que Charlie Hebdo faz do mundo islâmico com toda a carga racista e colonialista.

11/01/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Começo esclarecendo, antes de mais nada, que considero uma atrocidade o ataque às redações da revista satírica Charlie Hebdo em Paris e que não acredito, em qualquer circunstância, ser justificável transformar um jornalista, por mais duvidosa que seja sua qualidade profissional, em um objetivo militar. O mesmo é válido na França, assim como na Colômbia ou na Palestina. Tampouco me identifico com qualquer fundamentalismo, nem cristão, nem judeu, nem muçulmano, nem tampouco com o bobo-secularismo afrancesado, que considera a sagrada “République” uma deusa.

 

Faço esses esclarecimentos necessários porque, por mais que insistam os gurus da alta política que na Europa vivemos em uma “democracia exemplar” com “grandes liberdades”, sabemos que o Grande Irmão nos vigia e que qualquer discurso que fuja à cartilha é castigado duramente. Mas não acredito que censurar o ataque contra a Charlie Hebdo seja sinônimo de celebrar uma revista que é, fundamentalmente, um monumento à intolerância, ao racismo e à arrogância colonial.

 

Milhares de pessoas, compreensivelmente afetadas por esse atentado, fizeram circular mensagens em francês dizendo “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), como se esta mensagem fosse o último grito em defesa da liberdade. Pois então, eu não sou Charlie. Não me identifico com a representação degradante e “caricatural” faz do mundo islâmico em plena época da chamada “guerra contra o terror”, com toda a carga racista e colonialista que isso traz. Não posso ver com bons olhos essa constante agressão simbólica que tem como contrapartida uma agressão física e real, mediante os bombardeios e ocupações militares a países pertencentes a esse horizonte cultural.

 

Tampouco posso ver com bons olhos essas caricaturas e seus textos ofensivos quando os árabes são um dos setores mais marginalizados, empobrecidos e explorados da sociedade francesa, tendo recebido historicamente um trato brutal: não me esqueço de que no metrô de Paris, no começo dos anos 60, a polícia massacrou a pauladas 200 argelinos por demandar o fim da ocupação francesa em seu país, algo que já havia deixado um saldo estimado de um milhão de “incivilizados” árabes mortos.

 

Não se trata de inocentes caricaturas feitas por livres pensadores, mas sim de mensagens produzidas pelos meios de comunicação de massas (sim, ainda que se coloque como alternativa, Charlie Hebdo pertence aos meios de massas) carregadas de estereótipos e ódios, que reforçam um discurso que entende os árabes como bárbaros aos quais é preciso conter, desaraigar, controlar, reprimir, oprimir e exterminar.

 

Mensagens cujo propósito implícito é justificar as invasões a países do Oriente Médio assim como as múltiplas intervenções e bombardeios que, pelo o Ocidente, são orquestradas em defesa da nova partilha imperial. O ator espanhol Willy Toledo disse, em uma declaração polémica – por apenas evidenciar o óbvio –, que “O Ocidente mata todos os dias. Sem fazer barulho”. E isso é o que Charlie e seu humor negro ocultam sob a forma de sátira.

 

Não me esqueço do número 1099 da Charlie Hebdo, na qual se banalizava o massacre de mais de mil egípcios por uma brutal ditadura militar, que tem o consentimento da França e dos EUA, mediante uma uma capa que diz algo como: “Matança no Egito. O Corão é uma merda: não detém as balas”. A caricatura era a de um homem muçulmano todo furado, enquanto se protegia com o Corão. Haverá quem ache isso engraçado. Também, na sua época, os colonos ingleses na Terra do Fogo acreditavam que era engraçado tirar fotografias junto com indígenas que eles haviam “caçado”, com amplos sorrisos, espingarda na mão, e com o pé sobre o cadáver sangrento ainda quente.

 

Em vez de engraçada, essa caricatura me parece violenta e colonial, um abuso da tão fictícia como manipulada liberdade de imprensa ocidental. O que aconteceria se eu fizesse agora uma revista cuja capa dissesse o seguinte: “Matança em Paris. Charlie Hebdo é uma merda: não detém as balas” e fizesse uma caricatura do falecido Jean Cabut perfurado com uma cópia da revista em suas mãos? É claro que seria um escândalo: a vida de um francês é sagrada. A de um egípcio (ou a de um palestino, iraquiano, sírio etc.) é material “humorístico”. Por isso, não sou Charlie, pois para mim a vida de cada um dos egípcios perfurados é tão sagrada como a de qualquer desses caricaturistas hoje assassinados.

 

Já sabemos o que vem de agora em diante: haverá discursos para defender a liberdade de imprensa por parte dos mesmos países que em 1999 deram a bênção ao bombardeio da OTAN, em Belgrado, da estação de TV Pública sérvia por chamá-la de “o ministério de mentiras”; que se calaram quando israel bombardeou em Beirute a estação de TV AL-Manar em 2006; que se calam diante dos assassinatos de jornalistas críticos colombianos e palestinos. Logo, da bela retórica pró-liberdade virá a ação liberticida: mais macartismo dito “antiterrorismo”, mais intervenções coloniais, mais restrições a essas “garantias democráticas” em vias de extinção, e, é claro, mais racismo.

 

A Europa se consome em uma espiral de ódio xenófobo, de islamofobia, de antissemitismo (os palestinos são semitas, de fato) e este ambiente se faz cada vez mais irrespirável. Os muçulmanos já são os judeus do século XXI na Europa, e os partidos neonazistas estão se fazendo novamente respeitáveis 80 anos depois graças a este repugnante sentimento. Por tudo isso, em que pese a repulsa que me causam os ataques de Paris, Je ne suis pas Charlie.

 

Tradução de Daniella Cambauva



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