Pelo Mundo

Kadafi, Assad e a esquerda

29/08/2011 00:00

Luis Leiria - Esquerda.net

Uma importante parcela da esquerda mundial continua a sustentar as virtudes anti-imperialistas do coronel Kadafi, o líder da revolução líbia (como ele oficialmente se intitula), e a só ver nos acontecimentos naquele país a mão da agressão da OTAN. O povo está com Kadafi, asseguram, e a oposição é toda comprada pela CIA.

A argumentação não é nova. Foi usada, sem procurar ser exaustivo, na Checoslováquia em 1968, e em geral em todas as revoluções que derrubaram os regimes do chamado “socialismo real” a partir da queda do Muro de Berlim.

Kadafi é diferente? Vejamos:

– O regime de Kadafi era uma ditadura. Isto é incontestável. Não havia a mais mínima liberdade de expressão, de organização, de manifestação, de formar sindicatos. Nada. Na “Jamayria” não havia partidos. Ao simular um sistema político que seria uma espécie de “assembleia permanente”, o que o coronel impunha de fato, com mão de ferro, era uma ditadura policial onde quem mandava era ele e os filhos. Um bom teste que proponho aos defensores de Kadafi: seria ou não possível formar na Líbia um partido que defendesse as vossas ideias? Já sabem a resposta: em poucas horas estariam todos presos se o tentassem, por mais que se desfizessem em elogios ao “Grande Líder”.

– Há muito que Kadafi tinha deixado de ser independente do imperialismo. A revolução de Kadafi fez parte das revoluções nacionalistas árabes dos anos 50 e 60, que se inspiraram na de Gamal Abdel Nasser do Egipto. Durante alguns anos, apesar das suas excentricidades e megalomania, o “líder da revolução” aplicou uma política que em nada agradava aos Estados Unidos. Mas depois mudou.

Nos últimos dez anos, Kadafi abriu a exploração de petróleo às grandes empresas petrolíferas estrangeiras como Repsol, Total, Eni, Occidental, PetroCanada. Depois disso, os governantes europeus pareciam fazer fila para visitar o “grande líder”: Schröder, Berlusconi, Blair, mais recentemente Sarkozy, Sócrates... Colaborou ativamente com a política “anti-terrorista” de Bush depois do 11 de Setembro. Em 2008, a Líbia assinou com os EUA um acordo de cooperação que abriu o mercado líbio às grandes empresas norte-americanas, para além das companhias de petróleo. Então, o mito de um Kadafi anti-imperialista não passa disso mesmo: um mito.

– Aliás, na argumentação desta esquerda que apoia Kadafi parece que há uma espécie de buraco negro que isola os regimes de Kadafi e de Bashar al-Assad da Primavera árabe. Não se ouviu esta esquerda dizer que os manifestantes anti-Ben Ali ou anti-Mubarak eram pagos pela CIA. Na Tunísia e no Egipto, viva a oposição, vivam as revoluções, bem como no Iêmen ou no Bahrein. Na Líbia e na Síria, não.

Mas, então, por que a OTAN decidiu intervir militarmente? Porque não pode dar-se ao luxo de deixar uma revolução seguir o seu curso sem influenciar os seus líderes e garantir o controlo do futuro governo. Ainda assim, são conhecidas as reservas de Obama e a resistência a que as tropas americanas encabeçassem a força. E as tentativas de negociação que foram promovidas e, ao que tudo indica, só fracassaram porque Kadafi não aceitava qualquer solução que passasse pela sua saída do poder.

Não tenho dúvidas é preciso condenar a intervenção da OTAN e que deve haver líderes de forças do CNT (Conselho Nacional de Transição) pagos pela CIA. Mas isso invalida o caráter da mobilização anti-Kadafi? Claro que não. Também o fato de o CNT ter sido felicitado e reconhecido pela Autoridade Palestina e pelo Hamas não o transforma em progressista e defensor da causa palestina. O que será o próximo regime da Líbia ainda está para se ver e depende sobretudo do curso da revolução.

Mas Kadafi, ao que tudo indica, já é passado. O pior ainda vem pela frente: Bashar al-Assad, o homem que usa tanques e navios de guerra para massacrar a sua própria população. A oposição da Síria continua a usar as mobilizações de massa, e não a luta armada, para o denunciar. E não desiste, apesar dos massacres - pelo menos 2.200 mortos.

Assad já foi denunciado por crimes contra a Humanidade por um dos principais líderes da OLP. Será que a esquerda que o defende não vai abrir os olhos?

(*) Jornalista e dirigente do Bloco de Esquerda, de Portugal

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