Pelo Mundo

Levantes não-violentos no Oriente Médio precisam de mais tempo

11/04/2011 00:00

A primavera árabe parece ter chegado a um ponto complicado. Mas não há motivos para desencorajamento.

As coisas não estão tão boas quanto poderiam estar. Em Barhein, os manifestantes estão sendo amassados por tropas lideradas pelos invasores sauditas. Na Líbia, os protestos se transformaram em uma rebelião armada, que estava enfrentando problemas – e, como resultado, os EUA e a Otan interviram. Na Síria e no Iêmen repressão severa está mantendo os regimes em pé – pelo menos até o momento. E mesmo no Egito – um dos dois países que tiveram uma mudança de regime – os resultados são confusos, na melhor das hipóteses.

“Essa vitória ainda não atingiu seus objetivos”, disse ao The New York Times o professor Hassan Naffam, da Universidade do Cairo. “Há uma certa depressão, e nesses estágios não há uma noção clara sobre o que deve ser feito. Há divisão, expectativas e espera”.

Mas não há sentido em desistir tão rápido. Afinal de contas são apenas uns poucos meses desde que os levantes começaram.

É bom lembrar, por exemplo, que foram apenas 32 anos depois que Gandhi voltou da África do Sul que a Índia conquistou a independência. No caminho, foram muitos os problemas – o mais significante em 1922, na cidade de Chauri Chaura, quando um grupo incendiou uma delegacia de polícia, matando 23 policiais e levando Gandhi a temporariamente cancelar a luta não-violenta.

Levou quase uma década para que Martin Luther King enviasse a segregação para a lata de lixo da História. Pelo caminho foram muitos desapontamentos, como em Chicago em 1966, quando uma de suas campanhas para atacar a segregação obteve resultados pífios.

Mas “mesmo quando os tempos eram ruins – e era difícil lembrar quando os eventos foram mais frustantes e desanimadores do que ao curso dos últimos três meses – aquela voz [interior] sustentava Luther King”, escreveu David Garrow em Bearing the Cross, biografia do ativista norte-americano.

Mais próximo ao nosso tempo, o movimento Solidariedade, na Polônia, parecia morto no inicio dos anos 1980. Mas suportou bravamente a repressão para emergir triunfante em eleições democráticas no final da década.

Não que nos próximos meses ou anos as coisas serão fáceis. A revolta líbia deu uma guinada inexorável rumo à violência, e não irá retomar. O país é um estranho – uma exceção aos levantes não-violentos que tomam conta da região; assim como a insurreição violenta na Romênia de Nicolae Ceauşescu foi para as mudanças não-violentas da Europa do Leste. Até agora em todos os outros países africanos e do Oriente Médio – do Marrocos no canto ocidental até o Irã na fronteira com o Paquistão – os protestos têm sido não-violentos, apesar de toda a violência que está sendo dirigida a eles.

A não-violencia não é uma panaceia. Nem pode garantir resultados imediatos. Mas funciona duas vezes melhor que a resistência violenta, como estudos já demonstraram (1). E é a coisa certa a fazer.
Os manifestantes no Oriente Médio precisam ser perseverantes. A não-violência é o método. E a não-violência é o fim – assim como a libertação.

(1) "Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict"

(*) Amitabh Pal é editor de The Progressive

Tradução: Wilson Sobrinho

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