Pelo Mundo

Líderes de protestos contra Ortega são acusados de ''financiadores do terrorismo''

 

31/07/2018 10:42

 

 
A crise na Nicarágua, que começou no dia 18 de abril, já deixou ao menos 448 mortos, a maioria civis opositores, e mais de 2,8 mil feridos, segundo organismos de direitos humanos independentes.

Em Manágua, alguns dos principais líderes dos protestos civis contra o presidente Daniel Ortega estão sendo investigados pelo governo nicaraguense, acusados de “financiadores do terrorismo” e possivelmente seriam capturados nos próximos dias, segundo o denunciado pela organização Comissão Permanente de Direitos Humanos (CPDH).

O advogado da CPDH, Julio Montenegro, disse que a informação se desprende de uma acusação contra dois manifestantes de Masaya (sudeste do país) presos ilegalmente, e que estão sendo julgados por terrorismo e outros crimes. Eles estão sendo defendidos por juristas dessa organização independente.

A lista de investigados inclui os líderes estudantis universitários Léster Alemán e Víctor Cuadras, segundo reportou o sítio de notícias Artículo 66.

Montenegro, um ex-promotor especial do Ministério Público, indicou que também serão interrogadas as dirigentes do Movimento Renovador Sandinista (MRS), Ana Margarita Vigil e Dora María Téllez, além do general da reserva do Exército, Hugo Torres – estes dois últimos são ex-guerrilheiros e ex-companheiros de armas de Ortega durante a revolta que levou à queda da ditadura de Anastasio Somoza (1967-1979). O MRS é uma dissidência da Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN).

“O MRS esteve e estará ao lado do povo nicaraguense, na luta por justiça e liberdade. Nada nem ninguém nos impedirá de seguir esse compromisso. Nenhuma ameaça nem represália nos calará, nem nos intimidará”, respondeu o movimento, através de um comunicado. “O regime de Ortega já pertence ao passado da Nicarágua. A imensa maioria do povo decidiu isso. Não adianta nada Ortega usar toda a repressão homicida. Está em seus últimos dias”, completou a missiva.

Uma dezena de membros de partidos opositores, empresários, estudantes e comerciantes que lideraram os protestos ou participaram em manifestações ou barricadas estão entre os investigados. Embora, até o momento, não se conheça casos de cidadãos formalmente acusados pelo delito de “terrorismo”, o fato é que a promotoria os vincula a um “suposto financiamento de atividades ilícitas”, e alude a que essas atividades poderiam configurar crimes terroristas, razão pela qual podem ser processados e presos, explicou Montenegro.

Na sexta-feira passada (27/7), a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), através do secretário-executivo Paulo Abrão, denunciou em Washington que a Nicarágua entrou em uma fase de “repressão burocrática utilizando o sistema penal para prender pessoas e mantê-los dentro de um ambiente de acusações se terrorismo”.

Enquanto isso, neste fim de semana, o Ministério da Saúde (MINSA) da Nicarágua continuou despedindo pessoal hospitalar, por apoiar e atender os manifestantes feridos durante os recentes protestos contra o governo. Cerca de 40 médicos, enfermeiras e administrativos foram demitidos “por motivos políticos” no Hospital Regional Santiago, de Jinotepe (sul do país), cujas autoridades informaram aos afetados que não receberiam o salário de julho, e que seriam dispensados por apoiar os protestos contra o governo, informou o diário La Prensa.

A demissão massiva no principal hospital da província de Carazo (sul do país) ocorreu pouco depois de o MINSA demitir, pelos mesmos motivos, um grupo de especialistas e enfermeiras do hospital-escola Oscar Danilo Rosales de León (oeste do país), onde milhares de pessoas marcharam neste sábado (28/7) em apoio aos profissionais dispensados. A especialista em Saúde Pública Ana Quirós disse ao diário La Prensa que a demissão injustificada dos médicos agravará “o sério déficit de profissionais da saúde” que o país já enfrentava, pois se trata de pessoal de alto nível de especialização e alta qualificação.

Após a missa dominical na Catedral de Manágua, o cardeal Leopoldo Brenes disse que é “triste” que os médicos sejam punidos dessa forma por atender manifestantes, pois “eles têm um juramento e uma grande responsabilidade de assistir a todos”, assim como o fizeram em 1979, ano em que uma insurreição armada derrotou Somoza. No entanto, hoje, a imprensa da Costa Rica informou que milhares de nicaraguenses estão emigrando a esse país devido à crise política, e que se aproveitam de pontos fronteiriços com pouco controle migratório.

Segundo dados do Departamento de Migração da Costa Rica, ao menos 3 mil nicaraguenses chegam a esse país por semana, atualmente, e desde que se iniciou a crise o país (que faz fronteira com o sul da Nicarágua) já recebeu mais de 11 mil solicitações de refúgio.

Calcula-se que residem na Costa Rica ao menos 600 mil nicaraguenses. A crise na Nicarágua, que começou em 18 de abril, já deixou ao menos 448 mortos, a maioria civis opositores, e mais de 2,8 mil feridos, segundo organismos de direitos humanos independentes. O governo reporta 56 falecidos.



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