Pelo Mundo

Lucros abusivos com a pandemia

 

16/08/2020 12:33

Protesto pede taxão de grandes fortunas em Nova Iorque, em julho de 2020 (Erik McGregor/LightRocket via Getty Images)

Créditos da foto: Protesto pede taxão de grandes fortunas em Nova Iorque, em julho de 2020 (Erik McGregor/LightRocket via Getty Images)

 
Desde o início da pandemia, os bilionários norte-americanos estão fazendo uma limpa. Enquanto 50 milhões de norte-americanos entraram com o pedido de seguro-desemprego, os bilionários ficaram US$ 637 bilhões mais ricos. A riqueza de Mark Zuckerberg, do Facebook, cresceu 59%. Jeff Bezos, da Amazon, 39 por cento. A família Walton, do Walmart, adicionou US$ 25 bilhões.

Os CEOs das grandes empresas farmacêuticas e seus principais investidores também estão indo muito bem. Desde o início da pandemia, a Big Pharma [grupo das grandes empresas farmacêuticas] aumentou os preços de mais de 250 medicamentos prescritos, 61 dos quais estão sendo usados para tratar a Covid-19.

Os apologistas dizem que este é o “mercado livre” respondendo à oferta e à demanda - os barões da Big Tech, do varejo online e da Big Pharma apenas fornecendo o que os consumidores precisam desesperadamente durante a pandemia.

Mas o mercado também opera sob leis que proíbem a lucratividade abusiva, a manipulação de preços e o monopólio, e que tributam os lucros excessivos em tempo de guerra. Onde foram parar essas leis?

A administração Trump não as aplicou.

Trump também está ignorando as leis que proíbem negociações com base em informações privilegiadas. A Casa Branca está distribuindo bilhões em subsídios e empréstimos para empresas selecionadas - permitindo que CEOs e conselhos se encham de ações e opções de ações pouco antes de os negócios serem anunciados e, em seguida, obtenham grandes lucros após a subida dos preços das ações.

Insiders de pelo menos 11 empresas venderam ações no valor de mais de US$ 1 bilhão após esses anúncios, de acordo com uma análise do New York Times.

No final de junho, uma empresa de São Francisco chamada Vaxart anunciou que a administração Trump a havia selecionado para desenvolver uma vacina contra o coronavírus. Presto! O valor das opções de ações distribuídas entre aqueles "bem informados" da empresa, apenas algumas semanas antes, teve seu preço multiplicado por seis. As opções de ações detidas pelo CEO da Vaxart passaram de US$ 4,3 milhões para mais de US$ 28 milhões.

A Moderna, empresa com sede em Cambridge, Massachusetts, nunca trouxe uma vacina ao mercado, mas os membros da empresa venderam cerca de US$ 248 milhões em ações - a maioria delas depois que a empresa foi selecionada em abril para receber o financiamento Trump. (A Moderna planeja vender sua vacina com fins lucrativos, embora os contribuintes tenham financiado sua pesquisa e desenvolvimento.)

A mais flagrante envolve a venerável velha fabricante de câmeras e filmes Kodak. Em 28 de julho, Trump anunciou um acordo de US$ 765 milhões com a empresa para trazer de volta a produção de medicamentos aos Estados Unidos. Ele chamou o acordo de “um dos negócios mais importantes da história das indústrias farmacêuticas dos EUA”, embora a Kodak nem seja uma empresa farmacêutica.

Antes do anúncio, a Kodak entregou ao conselho de administração 240.000 opções de ações e, no dia anterior, deu ao CEO 1,75 milhão de opções de ações. Após o anúncio de Trump, as ações da Kodak subiram mais de 2.757 por cento. De repente, as opções de ações do conselho valiam cerca de US$ 4 milhões, e as do CEO, cerca de US$ 50 milhões.

Esse tipo de negociação com informações privilegiadas é contra a lei? Pode apostar que sim. A Securities and Exchange Commission [órgão equivalente à CVM] está examinando o negócio, agora temporariamente suspenso.

Mas o codiretor de fiscalização da SEC, Steven Peikin, que vinha investigando vários dos negócios envolvendo a Casa Branca e pessoas de dentro da empresa - incluindo a Kodak - renunciou, sem explicação. Outro na extensa lista de reguladores independentes e inspetores gerais forçados a deixar o cargo por Trump?

Isto, entretanto, está evidente: Trump e seus facilitadores republicanos não fornecerão US$ 600 por semana para dezenas de milhões de norte-americanos que precisam do dinheiro para sobreviver à pandemia, porque Trump e o Partido Republicano acreditam que o dinheiro mina os incentivos ao trabalho.

No entanto, Trump não tem problemas em permitir que bilionários lucrem ilegalmente com a pandemia. Ele acha que, enquanto eles impulsionarem o mercado de ações, estarão ajudando a economia norte-americana.

Isso é pura asneira. O mercado de ações não é os EUA. O 1% mais rico dos norte-americanos possui metade do valor de todas as ações detidas por famílias norte-americanas. Os 10% mais ricos possuem 92%. Durante anos, os preços das ações subiram em grande parte porque os lucros foram desviados dos salários dos trabalhadores comuns.

Na pior crise econômica desde a Grande Depressão, os preços das ações estão quase de volta ao que estavam antes do início da pandemia. Grandes corporações e grandes investidores estão indo muito bem. Os bilionários estão melhor do que nunca. Mas a maioria dos norte-americanos está afundando rapidamente.

Isso não é apenas injusto. Muito disso é ilegal.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli



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