Pelo Mundo

Macri começou sua despedida

O candidato iniciou sua campanha em território favorável: o bairro de Belgrano, da classe média alta de Buenos Aires, diante de milhares de entusiastas que erguiam bandeiras e cartazes

29/09/2019 16:32

(Pepe Mateos)

Créditos da foto: (Pepe Mateos)

 
Sol, céu azul sem nuvens, bandeiras ao vento. Mas, afortunadamente, “não se inunda mais”. Gritaram todos, imitando a frase do presidente no último dia de campanha antes das primárias – que ele perdeu de goleada –, embora controlando um pouco mais a euforia. “Não se inunda mais, não se inunda mais”, faz referência ao suposto sucesso das obras públicas do atual governo – o que não é tão verdade, pois o país e a cidade de Buenos Aires sofreram sim com inundações nos últimos anos, apesar dessas obras.

Mas, ao menos em Belgrano, esse coro pegou entre a multidão. Talvez por isso foi o local escolhido por Mauricio Macri para o lançamento da sua turnê “30 cidades”, uma iniciativa que, além do “não se inunda mais”, também promove um outro slogan: “sim, é possível”, em referência à uma possível virada histórica na corrida eleitoral.

Depois de comprar bandeiras cujo preço variava entre 50 e 100 pesos argentinos (entre 10 e 20 reais), a multidão, com grande presença de pessoas da terceira idade, se reuniu neste sábado (28/9) para ver o comício de Mauricio Macri, máximo líder e candidato à reeleição pela coalizão Juntos pela Mudança.

O “juntos” faz referência ao peronista Miguel Pichetto, o político que provocou o meme mais engraçado dos últimos dias: “se você acha que seu erro foi o mais absurdo que alguém já cometeu na vida, pensa que não pode ser maior que o de Pichetto”. A frase faz referência ao fato de que ele é o único peronista que não apoiou a inédita chapa que reúne todos os diferentes setores do peronismo, conformada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, e que é a favorita para vencer as eleições.

Roupa elegante, mas que não combina. Como uma camisa esportiva sem moletom, e com sapatos mocassins. Assim é a aliança macrista. No ato deste sábado não estavam presentes algumas torcidas organizadas de clubes de futebol, que vêm aparecendo estranhamente para engordar os comícios de candidatos macristas, desesperados pela falta de apoio legítimo da população. Sem essas torcidas, o ato Belgrano perdeu a chance de ter gente mostrando facas e provocando tumulto em meio à multidão. Com fervor medido, todos os presentes exclamavam: “sim é possível”, cada vez que os oradores davam a deixa.

Muitas e muitos mostravam bandeiras, cartazes, ou até seus cartões do transporte público municipal – conhecido na cidade como SUBE, que funciona mais ou menos como o bilhete único em São Paulo. Um repórter do diário portenho Página/12 perguntou porque o cartão seria um símbolo: “para mostrar que viemos sozinhos, por iniciativa própria, não somos um público contratado”, foi uma das respostas.

Tinham razão. Até porque não havia forma de chegar ao comício de carro, porque a avenida Juramento estava bloqueada até a esquina com Cabildo, e porque conseguir estacionamento em Belgrano em um sábado à tarde é um milagre tão grande como reverter a diferença que Alberto Fernández impôs a Macri nas primárias de agosto. Na falta dos ônibus laranja, que costumam ser usados pelos movimentos sociais e sindicatos para transportar seus apoiadores – e que a ministra da Segurança (Patricia Bullrich) promete reprimir com mais força se Macri se reelege –, se agradece a eficácia das linhas municipais 59 e 68, que passam pela região. Com relação ao cartão SUBE, os presentes talvez não tenham percebido que ele hoje é um signo de distinção: com o preço de 20 pesos por passagem, a simples possibilidade só pode ser exercida por aqueles que têm trabalho, e um salário que não seja de fome.

Macri foi direto em seu discurso, e deixou claro a identificação que busca: “obrigado a vocês, da classe média, que foi a que fez o maior esforço”, foi uma das frases que marcaram seus 20 minutos de locução. Contrariando as especulações que se faziam antes do ato, o presidente não fez nenhum anúncio sobre medidas de alívio à situação econômica. Nem para os setores vulneráveis, nem para a classe média empobrecida. Tampouco para os donos de pequenas empresas, que estão com a água até o pescoço pela falta de créditos, ou os jovens de 20 e poucos anos, que pensam em sair do país. “Agora vem o alívio no bolso para chegar ao fim do mês”, prometeu o candidato Macri, o mesmo que, como presidente, aumento a gasolina em 4%, 33 dias depois de impor um congelamento que assegurou que duraria de três meses.

Na varanda de um edifício próximo, na rua Echeverría, alguém colocou um enorme cartaz dizendo “os princípios não se negociam”. Uma pena que não havia ninguém na janela ao lado. Impossível saber se era uma declaração de princípios ou de impotência.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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