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Macri desenterra a ALCA

Em outra jogada eleitoral, o governo argento propõe um novo acordo livre comércio, desta vez com os Estados Unidos, e também para desfazer o desagrado estadunidense com a suposta prioridade ao acordo com a União Europeia. Na tentativa de se equilibrar entre os dois lados, o governo argentino considera que tirou um coelho da cartola com esse novo rumor

05/07/2019 17:33

Donald Trump e Mauricio Macri.

Créditos da foto: Donald Trump e Mauricio Macri.

 

Ficará gravado na história que, justo no dia 4 de julho de 2019, um presidente argentino propôs assinar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. A oferta aconteceu exatamente quando o país norte-americano comemorou os 243 anos da sua independência, declarada em 1776, e estranhamente depois de o país ter anunciado a intenção de assinar um acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que não agradou a Washington. Os historiadores recordarão, que quando Mauricio Macri fez o anúncio, estava em plena campanha por sua reeleição, e com um assessor equatoriano recomendava tirar da cartola um coelho por dia, para compensar as notícias como a queda da produção automotora, ou os cinco indigentes mortos de frio em Buenos Aires.

O governo propôs a formação de algo parecido a uma nova ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), mas dessa vez sem que os Estados Unidos pedisse por ela. É um sim à ALCA voluntário e não arrancado por nenhum poder estrangeiro, independente dos laços ideológicos e pessoais entre Macri e sua equipe econômica com as finanças internacionais. No próximo dia 18, ele poderá calibrar o impacto do seu anúncio, quando Mike Pompeo, secretário do Departamento de Estado e ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), estará na capita argentina.

O anúncio do presidente buscou surpreender os empresários argentinos presentes da reunião da Câmara Argentina da Média Empresa (CAME).

Assim foi a sua apresentação completa da notícia: “acabamos de abrir uma oportunidade histórica com a União Europeia, que nos abre um mercado de 500 milhões de consumidores, e é mentira que esse acordo vai prejudicar o mercado argentino”. Além disso, acrescentou que “dentro de alguns meses, estaremos reunidos com a EFTA (sigla em inglês da Associação Europeia de Livre Comércio), e antes do fim deste ano esperamos um outro acordo, com o Canadá, e em 2020 com Coreia. Além disso, nosso chanceler disse que estamos falando com o Brasil sobre um acordo de livre comércio com os Estados Unidos”.

Trump não gostou

O Página/12 estabeleceu, através de fontes diplomáticas confiáveis, que a diplomacia norte-americana recebeu mal o aviso argentino de que havia assinado um suposto acordo com a União Europeia. A explicação de Washington não é ideológica, mas sim surgida dos próprios interesses e da atual relação entre os países. Para a administração de Donald Trump, a América Latina deve ser conquistada pelas empresas norte-americanas antes que pelas europeias. Além disso, a própria Europa está em questionamento. A Casa Branca quer recuperar em parte o chamado Plano Marshall, programa de recuperação do Velho Continente lançado em 1948, que começou com um financiamento de 12 bilhões dólares estadunidenses, visando também uma contenção ao avanço da influência comunista, e criar um mercado para os produtos norte-americanos.

Em meio à campanha eleitoral, o governo argentino priorizou um gesto a favor da Europa, e não aos Estados Unidos. A prova disso é que, no dia do anúncio de Macri (quarta-feira, 3 de julho), o chanceler argentino Jorge Faurie disse ao programa televisivo “Terapia de notícias” que um acordo com os Estados Unidos “complementaria enormemente o que acabamos de fazer com a União Europeia”.

Na verdade, o que fizemos realmente ainda é um mistério. Não só falta conhecer a letra miúda da carta de intenções com a Europa, mas também a letra grande. O Página/12 ouviu empresários, industriais e líderes de diferentes setores do comércio, de diferentes tamanhos, e todos afirmam não terem sido consultados ou informados durante as negociações sobre os termos que foram assinados – e reclamam que os países europeus sim consultaram os líderes dos seus setores produtivos para ver como negociar o acordo. Os entrevistados afirmam que tampouco foram consultados sobre um eventual acordo com os Estados Unidos.

ALCA não

Em 2005, Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai, os quatro países que eram membros do Mercosul naquele então, somaram a Venezuela ao grupo, e os cinco estiveram juntos na Cúpula das Américas de Mar del Plata, o histórico evento onde se concretizou o veto à formação da ALCA. O sistema das cúpulas é que só pode haver acordos por consenso e não por votos. Por isso a negação ao acordo foi tão potente, inclusive por causa da presença física do presidente dos Estados Unidos nas negociações, o mesmíssimo George W. Bush.

Um mito em voga, sempre lembrado entre os que eram contra ou até mesmo os favoráveis à ALCA, conta que a negativa foi fruto, finalmente, da pressão popular a partir do ato realizado no estádio de futebol de Mar del Plata, no qual estiveram presentes o então presidente venezuelano Hugo Chávez, o craque argentino Diego Maradona e um Evo Morales que ainda era somente candidato presidencial na Bolívia.

Em rigor, Néstor Kirchner, Hugo Chávez, Lula da Silva, o paraguaio Nicanor Duarte e o uruguaio Tabaré Vázquez já haviam a decisão de impedir a formação de uma ALCA. Kirchner deu instruções ao vice-chanceler econômico, Alfredo Chiaradía, um diplomata de carreira de grande experiência e prestigio, e Lula havia contado com a ajuda de outro diplomata experimentado, Ademar Bajadian. O negociador brasileiro usou frase que hoje seria impugnada pela perspectiva de gênero, mas que descrevia a posição do seu país: “a ALCA é como uma bailarina de cabaré que deslumbra a meia luz, e que pela manhã, com a luz do sol, você perceber que ela não é tão linda, e talvez nem seja uma bailarina”.

Kirchner trabalhou com aquele que era o seu vice-chanceler, Jorge Taiana, que também foi o coordenador daquela Cúpula das Américas, e parte das negociações com os presidentes ficaram por conta de seu chefe de Gabinete, Alberto Fernández, hoje candidato presidencial.

O ato no estádio foi a exteriorização popular da rejeição ao ALCA, mas a discussão seguiu até os dias 4 e 5 de novembro a portas fechadas e a partir do conceito de Bajadian. Os presidentes Lula, Kirchner, Chávez, Vázquez e Duarte disseram a Bush que não eram contra um acordo em termos genéricos, mas sim a um acordo que poderia significar a invasão do mercado sul-americano não só por parte dos produtos estadunidenses como também pelas indústrias de serviços, as grandes empreiteiras e os proprietários das patentes de invenções. Argentina e Brasil, também eram e ainda são concorrência dos Estados Unidos nos negócios agrícolas. Os três são os maiores produtores de soja do mundo.

George W. Bush

Em um momento da reunião Bush, fez cara assombro, e perguntou: “não percebem que se não assinamos este acordo seremos superados pela China e pela Índia?”.

Para os cinco presidentes que lideraram a oposição ao ALCA, aquilo foi a confirmação de que um eventual acordo seria uma jogada geopolítica e estratégico-militar e não somente um ensaio comercial. Sem romper relações com os Estados Unidos – tanto que, depois de deixar Mar del Plata, Bush viajou a Brasília, em visita oficial – a aposta do Mercosul era a diversificação das relações e dos mercados, conservando a relação com Washington, mas colocando a China e a Índia com maior prioridade em seu radar comercial.

Brasil e Argentina começaram sua integração em 1985, durante os governos dos presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney, e impulsaram a formação do Mercosul em 1991, em épocas dos governos ultraliberais de Carlos Menem e Fernando Collor de Mello. Ainda em etapas distintas, o Mercosul avançaria no estabelecimento de uma taxa externa comum, e avançaria na ampliação do grupo, para contar com Bolívia, Chile e Venezuela. Com Lula e Kirchner, o bloco funcionaria como um núcleo de política exterior que foi capaz de ser uma voz escutada num mundo em que ambos os presidentes queriam que fosse multipolar.

À margem da busca pela diversificação das relações exteriores, as chancelarias de Brasil e Argentina se encarregaram de fazer estudos da dinâmica alternativa. Assim é como os economistas chamam, em seu jargão particular, as simulações sobre o que aconteceria com os diferentes setores a partir da abertura dos mercados. Um dos efeitos prejudiciais seria a virtual dissolução do Mercosul, que se tornaria um ente abstrato em meio a uma associação de livre comércio a nível continental. Para a Argentina, significaria a perda do Brasil como principal comprador mundial dos seus produtos industriais.

Um estudo da chancelaria argentina, elaborado em 2002 sob a presidência de Eduardo Duhalde, quando o país ainda analisava e não havia estabelecido uma posição negativa, indicava que as “ameaças” de um ALCA seriam o alto nível de dano sobre as exportações ao Brasil, pela futura concorrência com os produtos norte-americanos. A Argentina poderia perder 31% das suas vendas ao Brasil em setores como o automotor e o de autopeças, o de maquinária em geral e suas partes e manufaturas de fundição, ferro e aço. As assinaturas daquele estudo do CEI (Centro de Economia Internacional) não pertencem a dois populistas: o vice-chanceler econômico Martín Redrado e o próprio diretor do CEI, Hernán Lacunza, que hoje é secretário Economia da governadora macrista da Província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal.

O governo de Mauricio Macri não divulgou nenhum estudo com o mesmo nível de detalhe, para esclarecer mais profundamente quais são as vantagens e as desvantagens de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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