Pelo Mundo

Macri já perdeu

 

07/03/2019 17:59

 

 
Foi no exato momento em que o trabalhador da construção, de roupa marca Grafa e capacete azul (não amarelo, como os operários “oficiais”, preparados para a foto protocolar) deu um passo à frente e, certamente, após algumas palavras preliminares, disse “por favor, não podemos aguentar mais esse ajuste que nos é imposto”.

Finalmente, a cena é uma das tantas nas que todos podemos ver que o projeto político de Macri para a Argentina fracassou, e as extensão o do seu partido político, o PRO (Proposta Republicana). Como argumentamos em outras ocasiões, o macrismo busca “reescrever a história do país em clave refundacional”, e, como diria um texto clássico da Ciência Política desses que são essenciais para compreender o país, colocar fim a “uma dinâmica particular das hierarquias sociais, algo que a última ditadura militar buscou fazer mediante o terror repressivo modificar, mas que não foi totalmente destruída”. Para explicar rapidamente: o macrismo tentou refundar o país de tal forma que não seja mais possível que um trabalhador sinta que tem o direito ou a possibilidade de “dizer algumas coisas ao presidente”.

Por isso, o trabalhador, sua presença, seu corpo – porque a política se faz com o corpo – expressa o fracasso de Macri. Mas também o revela. E o provoca.

Falando de outra forma, o sucesso do projeto político do Macri seria que nenhum operário diga na cara dele, que é o presidente (mas que também é um playboy, um multimilionário): “sabe o que mais, desculpa, mas eu tenho que dizer com respeito, com respeito. Você está tirando com a nossa cara. As pessoas estão sofrendo. Não importa o governo passado, faça algo você agora. Agora, por favor eu peço”.

Não se trata só de que fale e expresse uma queixa. Se trata de que essa queixa é política, ou seja, coletiva. Ele não diz “eu estou mal” ou “quero um aumento”. Sequer um “me ajuda”. Ele faz uma reclamação política, comunitária, na primeira pessoa do plural.

– Por favor, não podemos aguentar mais esse ajuste que nos é imposto.

– Eu sei.

– Bom, então se mexa.

Com poucas palavras, o operário realiza uma crítica política. Não rejeita o privado. Não há uma abordagem econômica. Não pergunta onde está a do receptor da mensagem. Expressa o choque entre o comunitário e o individual. Não delega a política, não pede que o deixem tranquilo. Toma a palavra (política). Toma uma palavra que deveria ter sido delegada em algum representante. E então fala ao presidente-playboy sobre o que acontece “conosco”, de igual a igual, com tranquilidade e firmeza. Porque só há um presidente, mas na Argentina plebeia, este é um igual. Ele pode falar ao presidente-playboy cujo projeto político consiste em modificar para sempre as hierarquias sociais na Argentina, pondo fim a esta desordem de 70 anos, para que ninguém faça como este trabalhador e diga “bom, então se mexa”.

A política se trata, definitivamente, de fazer com que aqueles que não contam, contem. De que “a parte que não tem parte” reclame a sua parte, como diz o filósofo francês Jacques Rancière. Porque ela é a única que pode produzir esse efeito. Não é o mercado, não são a ordem e o poder hierárquico. É aquela que produz algo que não deveria ocorrer. Que faz contar a aqueles que não deveriam contar.

Onde há política, “o técnico”, o “tecnocrático” não tem lugar. Quando o presidente tenta explicar que “o ano passado…”, o diálogo mostra.

– Eu o entendo – diz o trabalhador.

– Estamos tentando nos recuperar.

– Tentaremos fazer as coisas rápido.

Nem é preciso dizer que onde há política tampouco entra a anti política. Tampouco entram o “bolsonarismo”, a falta de diálogo, a falta de respeito, a violência, o ódio e o medo do outro, do diferente.

E o macrismo, uma vez mais, ficou sem resposta. Fora dos diálogos ensaiados, o presidente e seus acompanhantes só balbuciavam palavras soltas, mas não conseguiram convencer o operário; havia ali um registro que pareciam não compreender. Justamente, a dificuldade em se conectar com demandas expressadas em termos políticos e muito por fora de suas zonas de conforto.

Insistimos, o importante não está no fato de que o operário reclama pela situação econômica. Não é essa a derrota de Macri. Se trata de um fracasso essencialmente político, no qual o que deveria acontecer acontece de uma forma que recupera uma tradição democrática que, na Argentina, está muito arraigada.

Nesta perpétua e irresolúvel luta pela hegemonia, este sucesso nos deixa um exemplo claro: a tradição democrática, plebeia, solidária, comunitária e profundamente política de dizer ao governante, olhando nos seus olhos, “estamos sofrendo, estamos pior, se mexa, puta que o pariu”, está muito viva.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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