Pelo Mundo

Macri sonha com Maduro

Seja ou não seja Cristina Kirchner a candidata da oposição, seja Felipe Solá ou Agustín Rossi, o macrismo tentará confrontar com o monstro venezuelano

11/03/2019 10:01

 

 

Mauricio Macri já escolheu seu adversário eleitoral: Nicolás Maduro. Seja ou não seja Cristina Kirchner a candidata da oposição, seja Felipe Solá ou Agustín Rossi, o macrismo tentará confrontar com o monstro venezuelano. Assim como na Guerra Fria. Para Moscou, todos os males se chamavam Washington, e vice-versa. Na guerra travada por Macri, o diabo se chama Venezuela.

O último movimento aconteceu em Avellaneda. O prefeito da cidade, o peronista Jorge Ferraresi, decidiu inaugurar uma praça com o nome de “República Bolivariana da Venezuela”. Assim, com o nome completo do país, como “República Federativa do Brasil” ou “República Democrática Popular do Vietnã”, duas das nações visitadas nos últimos tempos pelo presidente. Para os desprevenidos, o adjetivo “bolivariana” não é sinônimo de populista ou comunista. É uma alusão Simón Bolívar (1783-1830), um dos libertadores da América do Sul, e autor, entre outros textos, da Carta da Jamaica, de 1815. Um parágrafo diz: “pretender que um país tão felizmente constituído, extenso, rico e populoso seja meramente passivo, não é um ultraje e uma violação dos direitos da humanidade?”.

O macrismo buscou apresentar a inauguração da praça, localizada entre as ruas Emile Zola e Nicarágua, como se fosse a transformação de Avellaneda num estado livre associado à Venezuela. Uma série de dirigentes políticos e intelectuais proclamaram que a decisão de Ferraresi “representa uma ofensa aos milhões de venezuelanos que sofrem a opressão da feroz ditadura encabeçada por Nicolás Maduro”. Também afirmam que “a utilização do espaço público e os recursos de todos os moradores de Avellaneda para respaldar um regime opressor e autoritário, representa uma mensagem perigosa e intimidante, que os argentinos repudiam categoricamente”. Também reivindicaram a Juan Guaidó, o líder opositor quem chamam de “presidente encarregado da Venezuela”.

Entre outros, assinaram os escritores Marcos Aguinis e Santiago Kovadloff. Porém, o mais interessante é quem encabeça a lista de assinaturas entre os políticos: Gladys González. Passou a ser conhecida na Argentina em 2017 quando concorreu ao Senado como candidata macrista, junto com Esteban Bullrich, pela Província de Buenos Aires. A falta de uma eleição interna entre Cristina e Florencio Randazzo fez com que o voto peronista se dividisse e a ex-presidenta fosse derrotada. Por isso Gladys González conseguiu uma das vagas. Entretanto, sua vocação é territorial: quer disputar a Prefeitura de Avellaneda, a qual vai disputar contra o peronismo no dia 10 de dezembro deste ano. Ou seja, além de respaldar Guaidó como herói da liberdade, ela tem um interesse mais próximo e prosaico.

Ao contrário da resposta que se ensaiou em outras ocasiones, o peronismo não se enredou na briga planejada pelo macrismo. Por exemplo Marcelo Brignoni (ex-legislador da Província de Santa Fé, e integrante do movimento Mundo Sul, um grupo de política exterior pilotado por Jorge Taiana e Oscar Laborde) declarou que “se os governos da Província de Buenos Aires e da Nação cumprissem seu rol, os prefeitos como Jorge Ferraresi não teriam porque se preocupar com a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura e o cuidado dos espaços públicos como a Plaza República Bolivariana de Venezuela”. Segundo Brignoni, os prefeitos suprem “as funções que nas quais os governos do presidente Macri e da governadora da Província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, vem se omitindo”. Para o legislador peronista, “talvez os assinantes desta inquietante nota deveriam se preocupar mais com as cidadãs e cidadãos abandonados à sua sorte pelos governos aliados, em vez de falar do que acontece a milhares de quilômetros daqui, e para cúmulo, fazê-lo com total desconhecimento e desprezo”. Brignoni assegura que “nem sabem o que acontece com os moradores”.    

O episódio talvez sirva como exemplo do que ocorrerá no futuro. O governismo pretende fazer com que a economia fique escondida durante a campanha presidencial, e criará fantasmas como o da Venezuela. Mauricio Macri sonha com Nicolás Maduro. A oposição não quer ficar presa na armadilha da polémica sobre Maduro, enquanto tentará colocar a economia no centro do debate eleitoral.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

Conteúdo Relacionado