Pelo Mundo

Macri tenta aterrorizar os argentinos com extorsão eleitoral após derrota

O governo pretende enfrentar o resultado plebiscitário das eleições primárias deste domingo ameaçando soltar as maldições que supõe que o mundo despejará sobre a nova administração argentina

13/08/2019 10:20

Horacio Rodríguez Larreta, Mauricio Macri e María Eugenia Vidal (Bernardino Avila)

Créditos da foto: Horacio Rodríguez Larreta, Mauricio Macri e María Eugenia Vidal (Bernardino Avila)

 
Mauricio Macri perdeu o plebiscito sobre seu governo. Como estas eleições primárias careciam de disputas internas dentro das quatro principais coalizões – Juntos Pela Mudança (macrismo), Frente de Todos (peronismo/kirchnerismo), Consenso Federal (centro-direita liberal) e Frente de Esquerda (trotskismo) –, a votação se transformou nisso: um grande plebiscito. No dia 27 de outubro, haverá um contexto diferente, pois será o primeiro turno. Macri enfrenta a situação de poder perder já nesta instância, e o faz tentando extorquir os eleitores, pressionar Alberto Fernández e mudar sua imagem.

A extorsão ficou clara nas aparições públicas do próprio Macri e da governadora de Buenos Aires, María Eugenia Vidal – também derrotada por ampla margem na primária regional. Os dois disseram que “o mundo” votou contra o que chamaram de “kirchnerismo”, embora, na verdade, seja uma coalizão ineditamente ampla, chamada Frente de Todos, e que reúne setores diversos do peronismo, incluindo alguns mais moderados. O aludido mundo, até onde se sabe, não passa de um pequeno grupo de especuladores.

Já a pressão consiste em atirar sobre o candidato opositor toda a culpa pelos males que virão nos próximos dias, como se um suposto paraíso econômico na Argentina tivesse se tornado um inferno do dia para a noite.

A reformulação de sua figura, comunicacionalmente falando, começou pela reafirmação do poder interno dentro do macrismo, com um Macri que já tem nome escalado para fazer uma possível ponte com a oposição. Se trata do ministro do Interior, Rogelio Frigerio. Precisamente, ele foi o único que o ligou para dar os parabéns depois do resultado, segundo o próprio Fernández. Não é por acaso. Reportagem do Página/12 mostra que o ministro foi um dos que mais insistiu em que a difusão dos votos fosse mais rápida e transparente. Com tanta diferença, era inútil continuar segurando os resultados. Quem viu o discurso de domingo recordará um Mauricio Macri muito frustrado, por isso falou pouco e mandando seus seguidores irem dormir mais cedo. Pela primeira vez, sua indignação com algo pareceu genuína. Quando Macri apareceu no silencioso bunker de campanha, sem balões nem bailes, as telas gigantes do palco estavam em branco. O candidato à reeleição já tinha a informação oficial e os da contagem paralela dos fiscais do seu partido, ambos desmentindo as pesquisas de boca de urna que haviam contratado. Os telões da sede governista só passaram a mostrar os dados depois que o presidente se esfumou. Não poucos, porque na maioria dos distritos a apuração já superava os 60%. Uma tendência favorável à oposição, e que se revelaria irreversível. Chegaria finalmente aos 47,66%, contra 32,08% do macrismo.

Não é que Frigerio tenha abandonado o macrismo, mas sim é quem vem se encarregando das relações com governadores e senadores, que incluía divisão de recursos especiais para províncias e municípios – ao menos até a recente unificação peronista –, e que é mais capaz de perceber a realidade tal qual é. O mesmo acontece com o presidente da Câmara dos Deputados, Emilio Monzó, de conversa fluída com muitos legisladores da oposição.

A governadora parece disposta a ir até o final junto com Macri. Ao menos publicamente. Ontem, repetiu o discurso de querer demonstrar sua lealdade “com Mauricio e com os bonaerenses”, que ela acredita que sejam compatíveis. Vidal também enfrentou seu próprio plebiscitos regional – ela perdeu no âmbito nacional, e também na disputa interna da sua província, na qual ficou em segundo lugar, com 17% que desvantagem para com o kirchnerista Axel Kicillof, no que também foi um plebiscito sobre sua gestão bonaerense. Se o resultado das primárias se repetir no dia 27 de outubro, sua derrota será estrondosa. E se isso acontecer, ela seguirá na política? Na semana passada, confessou que gostaria de trabalhar numa empresa privada ou numa ONG. Se decidir pela segunda opção, essa organização certamente não será o Centro de Estudos para a Promoção da Igualdade e a Solidariedade, conduzido por Mariano Lovelli, quem sustenta que Vidal aplicou aumentos de tarifas dos serviços básicos (água, luz, gás e transportes públicos) acima dos aumentos nacionais estipulados por Macri. O subsídio às empresas de energia aparece de forma explícita em todas as contas dos bonaerenses, todos os meses, e o resultado do plebiscito das primárias incluiu esse efeito das tarifas.

Das figuras da cúpula, quem tem o futuro mais aberto parece ser Horacio Rodríguez Larreta, o prefeito da cidade de Buenos Aires. No entanto, ele terá que vencer o peronista Matías Lammens, se possível, sem segundo turno. Quem sabe o que aconteceria se ele tivesse que enfrentar um segundo turno já com a eleição nacional e da província com um resultado definitivo de derrota do macrismo, repetindo o que aconteceu nas primárias deste fim de semana.

Macri rangeu os dentes, mostrando que pretende comandar a debandada. O fez de forma tal que tentou aterrorizar a população. Um ponto a saber sobre o futuro diz respeito aos Estados Unidos: se Donald Trump seguirá financiando sua campanha através do FMI depois do resultado de ontem, que já deve ter sido analisado detalhadamente na embaixada desse país, e através de mensagens do Departamento de Estado. O outro ponto se refere às vítimas da debandada: os pisoteados são sempre os de baixo, aqueles que, apesar do plebiscito, ou talvez pelo resultado, o presidente insiste em castigar.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado