Pelo Mundo

Manifestações na Colômbia suspensas temporariamente

Representantes das centrais sindicais afirmaram que tomaram a decisão para evitar mais assassinatos de jovens pela polícia e evitar aglomerações que agravem a pandemia

18/06/2021 11:00

Manifestação contra o governo colombiano em Cali, no dia 13 de junho (Luis Robayo/AFP)

Créditos da foto: Manifestação contra o governo colombiano em Cali, no dia 13 de junho (Luis Robayo/AFP)

 

Após 49 dias de manifestações na Colômbia, o comitê nacional de greve – que representa as centrais sindicais – anunciou uma mudança de estratégia nos protestos contra o governo de Iván Duque. Os líderes sindicais decidiram suspender temporariamente os protestos que eram convocados para todas as quartas-feiras no país desde o dia 28 de abril. “Isso não significa que a mobilização social foi interrompida, ela vai continuar, porque as causas que a provocou se mantêm”, disse Francisco Maltés, presidente da Central Unitaria dos Trabajadores (CUT) em uma coletiva de imprensa muito esperada após vários dias de deliberações.

A crítica crescente devido ao impacto das manifestações em relação à economia do país, as aglomerações durante o período mais grave da pandemia e a falta de entendimento com o governo, levaram à interrupção das manifestações, que já demonstravam enfraquecimento. “Trata-se de uma decisão para salvar vidas em dois sentidos”, disse Percy Oyola, presidente da Confederación General del Trabajo. O líder sindical assegurou que, de um lado, não existem garantias legais para o exercício das manifestações e isso tem resultado em assassinatos por parte da polícia; por outro lado, também se espera que a interrupção dos protestos evite o avanço da pandemia, que está batendo um recorde de mortes nas últimas semanas.

A violência policial somada à morte de jovens está no centro do descontentamento social. “Não queremos que sigam matando jovens nos protestos”, afirmou Oyola, e lembrou a morte de Junior Jein, um reconhecido músico e líder social assassinado em Cali no fim de semana por milícias armadas pró-governo. De acordo com o Human Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos) foram registradas 34 mortes durante as manifestações, das quais ao menos 20 foram causadas pela polícia. Número semelhante ao admitido pela Vice-Presidenta e Ministra das Relações Exteriores, Marta Lucía Ramírez, que falou em 21 investigações de homicídios, ao se reunir com a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachellet, em Genebra. No total, existem 170 processos disciplinares em andamento contra agentes policias por abuso de autoridade.

A decisão do comitê de greve, ao menos formalmente, encerra as manifestações, mesmo que protestos locais possam continuar a ocorrer em cidades como Cali, Medellín ou Bogotá. Chamados de “resistência”, milhares de jovens que não se sentem representados pelos líderes sindicais, seguem se manifestando em oposição ao governo e se organizando em assembleias populares, em várias partes do país, porém, boa parte das barricadas e os bloqueios em ruas e estradas foram desfeitos.

Estes bloqueios foram justamente os mais criticados no país. A obstrução das vias acabou interrompendo, em alguns casos, o tráfico de ambulâncias, causando a morte de 2 bebês e o prejuízo econômico calculado em 3.3 bilhões de dólares, debilitaram o apoio aos protestos. O Ministro da Defesa assegura que 1.119 vias foram desobstruídas e 15 ainda continuam bloqueadas no Valle del Cauca, Norte de Santander e algumas áreas de Bogotá.

O comitê de greve manteve reuniões com representantes do governo para a discussão de seis reivindicações, entre elas, a de renda básica no valor de um salário mínimo para 6 milhões de pessoas durante 7 meses e a extinção da taxa de matrícula para estudantes durante cinco anos. No entanto, o governo exigiu o desbloqueio das vias públicas como condição indispensável, enquanto os líderes sindicais pediam garantias de liberdade nas manifestações, além da condenação da violência policial pelo poder executivo. “A resposta ao dossiê emergencial foi a repressão e a brutalidade policial que fizeram com que muitos países do mundo condenassem o excesso da força repressiva contra os manifestantes”, disse Maltés, que enfatizou como vitória, o cancelamento da reforma tributária e as demissões do Ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla e da Chanceler Claudia Blum.

Após as conversações fracassarem, o comitê de greve anunciou que apresentará suas exigências por meio de projetos de lei no congresso, para isso, será organizado um debate com diversos setores da sociedade e com o apoio de membros da academia. Também, foi convocada uma nova mobilização para o dia 20 de julho, quando começa a nova legislatura no país. “Aspiramos a um país em que os membros do congresso não falhem com os colombianos como falhou o presidente Duque”, acrescentou o líder da Central Unitaria de Trabajadores.

*Publicado Originalmente em EL PAÍS | Traduzido por Caio Cursini

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