Pelo Mundo

Mario Vargas Llosa de liberal a fujimorista

 

09/05/2021 12:40

Vargas Llosa com García Marquez, em seus tempos de esquerdista. Tempos depois ele se tornaria um liberal furioso, e hoje apoia Keiko Fujimori (Reprodução/El Clarin/bit.ly/3uE1BPm)

Créditos da foto: Vargas Llosa com García Marquez, em seus tempos de esquerdista. Tempos depois ele se tornaria um liberal furioso, e hoje apoia Keiko Fujimori (Reprodução/El Clarin/bit.ly/3uE1BPm)

 
Não é reprovável mudar de ideologia política: assim como é comum que ultraesquerdistas fanáticos, como Enrique Correa, Óscar Guillermo Garretón, (Garretón foi ministro da Economia no governo de Salvador Allende e Correa o foi no de Patricio Aylwin), aos quais se somam tantos outros grandes homens, especialmente de Mapu, passem a ser lobistas neoliberais, pois o poder e a ambição abrem portas para o dinheiro e o mando, existem aqueles que fazem o caminho político inverso, da direita para a esquerda, como é o caso de Víctor Hugo e George Bernanos, na França.

O caso de Mario Vargas Llosa é emblemático, ao transitar do progressismo para a direita - o Prêmio Nobel, às vezes, ao invés de se converter numa distinção, torna-se um verdadeiro castigo, pois elege candidatos, no caso da Literatura, com muitos poucos méritos, (Jacinto Benavente),e outros brilhantes, (Jean Paul Sartre, único pensador excepcional que teve a grandeza de recusá-lo). Entre os candidatos ao Prêmio Nobel de Literatura, muitas vezes se elegem bons escritores, (Albert Camus, francês de origem argelina, e os chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda) e outros que escrevem livros sem transcendência no mundo das letras; um dos prêmios que talvez mais envergonhe é o da Paz, agraciado a personagens como Kissinger, Obama e outros, (para se ganhar esse prêmio tem de ser assassino e cometer os crimes mais abjetos e apoiar distintos golpes de Estado) assim como existem candidatos que sim o merecem.

O Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa escreve muito bem. Entretanto, moralmente, segundo minha opinião, sua personalidade moral é, francamente, miserável: ninguém o acusa de ter passado do esquerdismo ao neoliberalismo e, como todo converso desta laia, tem se dedicado a difundir e juntar adeptos para o liberalismo, que, na América Latina, é conservadorismo.

O escritor Mario Vargas Llosa, fazia nos anos 80 incursões na política de seu país, o Peru, e quase ganhou a presidência, mas o voto dos ignorantes – segundo esquerdistas – propiciou a vitória de Alberto Fujimori, um noviço político, reitor de uma universidade agrícola que, inesperadamente, obteve uma ampla votação.

Vargas Llosa se sente no direito de mostrar empáfia e recomendar aos eleitores peruanos que deem seu voto a quem ele gosta, apesar de o considerar um mal menor (o fez com o alcoólico Alejandro Toledo, depois com o nacionalista Ollanta Humala, mais tarde com Alán García e pelo PPK). Vargas Llosa odiava os Fujimori, especialmente porque Alberto Fujimori o havia derrotado naquelas eleições, e sua filha, Keiko, era o próprio demônio. Não sei qual a força dos correios eletrônicos deste escritor ao se dirigir a seus compatriotas, e penso que pouca, mas não faltam imbecis que o sigam, pois agora suas epístolas, publicadas pelo diário El Comercio, (como no El Mercurio do Chile), cujos donos são empresários e, ainda pior, seus jornalistas são seus lacaios, chegam às classes altas.

Se alguém acreditava que ao “escritor” peruano restava um pingo de moral, agora pode ter certeza de que não lhe sobrou nenhum: ao saber que o candidato rival de Keiko Fujimori era o professor Pedro Castillo, de esquerda, - era evidente que a direita canalha latino-americana ia usar Maduro, Ortega e o castrismo para lançar uma campanha de terror, buscando fazer com que os mais pobres, os inocentes e os imbecis prefiram votar na corrupta e ladra filha do ditador Alberto Fujimori por medo de que o Peru se converta numa nova Venezuela, Cuba ou Nicarágua caso o professor, (que vai votar montado em um cavalo e com um chapéu parecido com o da publicidade de cigarros) triunfe no segundo turno frente Keiko Fujimori e se torne o próximo presidente do Peru.

No geral, os presidentes que o precederam tendo sido ladrões e corruptos, Pedro Castillo se converterá no único mandatário decente em muitos anos.

Rafael Luis Gumucio Rivas (El Viejo) foi professor de História na Universidade Católica de Valparaíso, Chile, e na Universidade Bolivariana (enteléquia de Chávez), Venezuela. Tem sido diplomata. Colabora em diversas publicações com artigos sobre temas da atualidade. Artigo publicado no elclarin.cl

*Publicado originalmente em 'El Clarin' | Tradução de Rafael Luis Gumucio Rivas



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