Pelo Mundo

Mas livrai-nos do medo!

Diante do coronavírus, estamos todos nus, sem vacina ou tratamento. Palavras que acreditávamos banidas do vocabulário médico e político, como ''quarentena'', estão de volta, e com elas medos ainda mais antigos

22/03/2020 16:08

Nas ruas de Paris, segunda-feira (Cyril Zannettacci/VU)

Créditos da foto: Nas ruas de Paris, segunda-feira (Cyril Zannettacci/VU)

 
Sábado, 14 de março. Estou com medo, estou com medo – repete desesperadamente Said, comerciante de objetos usados em um mercado parisiense. Do que exatamente ele tem medo? Do vírus coroado que ameaça o planeta, diz ele. No entanto, o mercado está mais para vazio, há poucos vendedores e ainda menos clientes. Ele terá que pagar o aluguel do mercado em atraso, mas essa não é sua principal preocupação.

Por que esse medo visceral? A inscrição de um medo pré-histórico estaria abrigada na cavidade de seu hipocampo – estrutura profunda no cérebro que compartilhamos com muitas espécies e onde os neurologistas identificam um centro de emoções vitais, dos homens das cavernas como do cidadão de hoje? A mídia repete há um mês as informações mais completas possíveis sobre esse pequeno vírus e sua composição genética. Sabemos que ele usa uma coroa, espículas que se eriçam na superfície e permitem que se fixe nas células pulmonares. Sabemos quase tudo sobre ele, mas não há certeza sobre quando ele partirá e quando – o que é possível – ele voltará a nos visitar, tendo tomado gosto pela carne humana. O desespero nos consome por não termos todas as informações que gostaríamos em 2020, e por estarmos nus, sem vacinas ou tratamentos prontos para uso.

Os militantes antivacina, mesmo os mais irredutíveis, se calaram, aparentemente prontos a encarar seus medos, pois desta vez não se trata de crianças expostas ao risco de autismo, mas de adultos que deveriam ser , como se costuma dizer, maiores e vacinados. Por que esse medo? Sem dúvida, a ideia de proteção à saúde já fazia parte de nossas ferramentas mentais: um sistema de assistência e cuidado que mal ou bem funciona, com vacinas para quem acredita, tratamentos para a maioria das doenças etc. Chegamos ao ponto de flertar com a ideia de repousar em uma imunidade natural que protegeria nossos filhos mimados e bem nutridos, pelo menos na Europa. Como Adão e Eva, fomos expulsos do paraíso terrestre da segurança sanitária. O vírus, com sua longa cauda de RNA (ácido ribonucleico), lembra a serpente do Apocalipse, que cuspia fogo e fumaça para sufocar os povos. E eis-nos aqui, em vez de assistindo de nosso camarote europeu aos tormentos da África e da Ásia, projetados ao centro do palco. Mas de onde vem o mal? É preciso achar um culpado.

O coronavírus ou a ira de Deus

Em 1630, a peste é declarada em Milão. Os habitantes prendem um oficial de justiça, que vai de casa em casa, e o acusam de contaminar as paredes. Ele nega obstinadamente, mas, sob tortura, acaba denunciando um barbeiro. Na loja deste último, encontram-se vários frascos e também um pouco de mofo no fundo de uma panela. Ele também acaba admitindo, exausto e sem forças para resistir: a ordem de envenenamento vem de cima, de uma grande figura que, convenientemente, se refugiou com o Papa – ele sobreviverá enquanto seus supostos cúmplices acabam executados. O cronista da epidemia entendeu bem o erro evidente, mas limita-se a relatar os fatos e invocar a sabedoria das autoridades.

 Em 1630, a peste é declarada em Milão. Os habitantes prendem um oficial de justiça, que vai de casa em casa, e o acusam de contaminar as paredes. Ele nega obstinadamente, mas, sob tortura, acaba denunciando um barbeiro. Na oficina deste último, encontram-se vários frascos e também um pouco de mofo no fundo de uma panela. Ele também acaba admitindo, por cansaço: a ordem de envenenamento vem de cima, de uma grande figura que, convenientemente, se refugiou com o Papa – ele sobreviverá enquanto seus supostos cúmplices acabam executados. O cronista da epidemia se faz de desentendido quando o erro é descoberto, e limita-se a relatar os fatos e invocar a sabedoria das autoridades.

Onde procurar os culpados? Em 2020, a identificação ou a "caça ao paciente zero" confundiu, por vezes, a investigação sobre a transmissão com a extirpação do foco inicial. De fato, faz uns bons vinte anos que os coronavírus são uma família bem conhecida pelos veterinários, atingindo principalmente jovens em fazendas de criação de animais, mas permanecem imprecisas as circunstâncias de sua transmissão para os seres humanos, que talvez tenha se dado, na China, através de morcegos e pangolins.

Existem poucos relatos das epidemias do passado que não evoquem a ira de Deus, farto dos pecados dos homens. Nossa geração bem que merecia uma vingança – mas da Natureza, tão maltratada por seus ocupantes.

Como enfrentar o medo

Domingo de manhã, a França sai das meias medidas: a quarentena é anunciada. Na tempestade, dois poderes tutelares: o Estado que promete ajudar todo cidadão na crise econômica agravada pela quarentena, e os médicos que cumprirão seu dever.

A palavra quarentena havia sido mais ou menos banida do vocabulário médico e político. O termo é recuperado para designar menos o confinamento temporário dos pacientes e seus contatos do que um congelamento no local de uma parte da população. O plano da gripe, revisado várias vezes após 2009, que era até agora a referência implícita para a mobilização do país em caso de invasão viral, previa a identificação e a proteção dos órgãos vitais da nação, o Presidente em primeiro lugar, apesar do aviso do poeta Malherbe: "E o guarda que vigia as barreiras do Louvre / não o defende dos Reis".

O corona terá, assim, marcado um renovado reconhecimento do Estado de bem-estar social, atento à precariedade dos cidadãos, que promete quase uma ajuda caso a caso para as dificuldades financeiras. Os médicos também são convocados para a linha de frente como atores da maior importância, e seus conselhos são aguardados pelo chefe de estado. Reconhecemos neles todas as virtudes, quando pensávamos que estavam desmotivados e prontos a vender suas almas ao setor privado. Depois da AIDS, daremos as boas-vindas à reforma do corona, e como será a sociedade arrependida do pós-corona? Não teria chegado o momento, como se suspeita, de experimentar uma sociedade futura de teletrabalho e robôs, ou seja, de sujeitos obedientes às instruções, ao fim de um progresso técnico do qual já vimos outros exemplos ao longo da história?

Antes mesmo de o estágio 3 da epidemia ser oficializado, o diretor de saúde, Jérome Salomon, havia elaborado um plano em que todos tinham seu papel, em particular os cidadãos instados a agir com responsabilidade, limitando seus contatos. Estávamos perto da utopia, mas também de algo que lembrava uma democracia sanitária.

A quarentena foi declarada em nome da União sagrada, com o risco de se multiplicarem as resistências e transgressões, e também as denúncias. Seria uma fatalidade? Estávamos prestes a embarcar em um país mais virtuoso e solidário, mas prevaleceu o dogma de proteção absoluta por coerção dentro das fronteiras. Cada nação se enclausurou, Trump dá seu show em um país onde metade da população não tem assistência médica. Todos esquecem o aviso dado pelo inglês John Donne, poeta contemporâneo de Shakespeare, em suas Meditações em tempos de crise (viral!), retomado por Hemingway: "Nenhum homem é uma ilha, por isso não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por você”.

Anne-Marie Moulin é médica e filósofa, especializada em medicina tropical. É diretora de pesquisa emérita do CNRS e professora associada da Universidade Senghor de Alexandria, no Departamento de Saúde.

*Publicado originalmente em 'Libération' | Tradução de Clarisse Meireles



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