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Mauricio Claver-Carone: ''já tenho os votos necessários'' para ser presidente do BID

O advogado e analista político, candidato dos Estados Unidos para presidir o Banco Interamericano de Desenvolvimento, mostrou nesta quarta-feira que tem "muita confiança" em que conseguirá ser aceito no cargo e argumentou que "escolher uma figura conhecida" como ele ajudará a região a superar a crise econômica

22/06/2020 11:49

(EFE/Paolo Aguilar/Archivo)

Créditos da foto: (EFE/Paolo Aguilar/Archivo)

 
Mauricio Claver-Carone é o principal conselheiro para as Américas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e disse em uma entrevista à Agência EFE que já conquistou o apoio de 15 países da região, o que deveria ser suficiente para garantir sua vitória nas eleições para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que acontecerão em setembro. Tal situação reforça o favoritismo natural já que Washington controla 30% do poder de voto na instituição.

O advogado de origem cubana – mas nascido em Miami, há 44 anos, e conhecido por sua linha dura com Cuba e Venezuela – não está preocupado em quebrar a tradição que mantém os latino-americanos no comando do BID há 60 anos: “os Estado Unidos também fazem parte desta região”.

Pergunta: Brasil, Colômbia, Equador, Uruguai, Paraguai, Honduras e Haiti já anunciaram publicamente que votarão por você. Tem mais apoios além desses?

Mauricio Claver-Carone: Já são 15 os países que nos disseram, de forma pública ou reservada, que apoiam a nossa candidatura, e certamente isso me deixa muito orgulhoso.

Pergunta: Por que você decidiu concorrer à Presidência do BID?

Claver-Carone: Decidimos fazer isso porque, no meio dessa crise de saúde – que, consequentemente, teve reflexos na economia –, entendemos que para a recuperação possa ser rápida e impactante, temos que mobilizar capital, precisamos usar ferramentas em coordenação com algumas das instituições norte-americanas e outras multilaterais. Fazer isso foi muito difícil e houve preocupação na região porque, francamente, não havia candidatos que todos conhecessem. E com as atuais restrições que temos, é muito difícil apresentar um candidato a todos. Isso não permitiria mobiliza o capital necessário para ajudar a região.

Este é um momento excepcional, com circunstâncias excepcionais, e a nossa é uma candidatura que a região conhece, porque trabalhamos juntos. Sinto-me muito humilde (e honrado) por ter ganho a confiança dos líderes. Conheço quase todos os ministros de Relações Exteriores, quase todos os ministros de Economia.

Devido à emergência da crise e às circunstâncias atuais, também pensamos que é uma oportunidade de mostrar que queremos ajudar com nossa liderança. Uma das maiores queixas que o BID teve historicamente é que os Estados Unidos não se importam o suficiente e não estão envolvidos o suficiente com o BID. Agora, temos uma oportunidade, com o compromisso de um mandato de cinco anos, para mostrar em primeira mão, com nossa liderança na região, que estamos interessados %u20B%u20Bno BID como instituição.

Pergunta: É verdade que o Brasil incentivou você a se candidatar?

Claver-Carone: Em uma ligação casual, duas semanas atrás, (o presidente brasileiro, Jair) Bolsonaro havia dito ao presidente Trump que ele estava pensando em um candidato (para o BID), mas que eles apoiariam um candidato estadunidense se ele se apresentasse. E por isso começamos a pensar nas circunstâncias, e se era possível fazê-lo neste momento excepcional. Chamamos muitos de nossos parceiros da região para perguntar. Antes disso, dois presidentes em particular já haviam me ligado, porque, como havia sido anunciado meses atrás, eu estava sendo especulado para ser o “número dois” do BID, e eles me perguntaram: por que você não se candidata à presidência? E a verdade é que tudo estava apontado para isso, então decidimos concretizar essa ideia. A confiança que a região nos deu me deixou orgulhoso. Os votos estão garantidos e sentimos muito confiantes, mas o que eu quero é poder unir a região, porque agora não é hora de ter divisões. Se Deus quiser, vamos vencer em setembro, e queremos começar a trabalhar a partir de primeiro de outubro. Queremos formar uma equipe regional, já falei com alguns ministros de Economia e de outras pastas, que foram muito amigáveis. Existem alguns jovens dinâmicos que serão a próxima geração e queremos usar sua energia e habilidades. Penso, por exemplo, em Richard Martínez, no Equador; María Antonieta Alva, no Peru, e Nigel Clarke na Jamaica.

Pergunta: Se você já tem os votos suficientes para vencer as eleições, acha que isso significa que alguns nomes que apareciam na disputa para a sucessão de Luis Alberto Moreno (Colômbia, como Laura Chinchilla (Costa Rica) ou Gustavo Béliz (Argentina) não serão mais candidatos?

Claver-Carone: Vamos ver. Essa é uma decisão de cada país, e alguns países que ainda não falaram publicamente (sobre me apoiar) podem ter candidatos e os estão preparando com antecedência.

Pelo menos publicamente, 3 países antes tinham seus candidatos já mudaram sua postura a nosso favor: Equador, Paraguai e Brasil. Vamos ver o que a Costa Rica e a Argentina querem fazer, mas matematicamente será muito difícil.

No entanto, aqui o que queremos, francamente, não é alimentar um conflito. Recentemente, eu me comuniquei com o governo argentino. O que queremos é poder trabalhar para o bem da Argentina. Tenho um histórico de ter ajudado a Argentina (durante) meu período no FMI (Fundo Monetário Internacional), com boas intenções, com as que anunciamos um programa histórico para a Argentina. Queremos beneficiar todos os países democráticos da região. (Nota da tradução: o entrevistado se refere ao empréstimo de 46 bilhões de dólares que o FMI entregou à Argentina em 2018, durante o governo de Mauricio Macri, e cujas datas e valores estão sendo renegociados pelo governo de Alberto Fernández).

Pergunta: Durante seu tempo como assessor do governo de Donald Trump, você exibiu uma ideologia que alguns consideram linha-dura em questões relativas à Venezuela e a Cuba. Isso significa levar essa ideologia ao BID ou você se compromete a não ser influenciado por considerações políticas?

Claver-Carone: Favorecer a democracia e proteger os direitos humanos não é uma ideologia. É um valor comum na região. Felizmente, 32 dos 35 países do hemisfério ocidental valorizam a democracia, os direitos humanos e o livre mercado. Isso por si só não é uma questão de ideologia, esquerda ou direita. Existem países da esquerda que são democráticos e há países da direita que são democráticos. Se opor às ditaduras da Venezuela e de Cuba não é uma questão de ideologia, é uma questão de princípios democráticos, e eu sempre protegerei esses princípios democráticos.

Felizmente, no hemisfério ocidental, temos apenas uma Venezuela e uma Cuba. O que queremos são democracias prósperas, e eu me comprometo com os 32 países democráticos da região a fazer todo o possível para se recuperar dessa crise, crescer e ter estabilidade democrática.

Pergunta: Sua indicação quebra a tradição dos últimos 60 anos. Você seria o primeiro presidente norte-americano do BID. Como você planeja acalmar as dúvidas daqueles cidadãos da região que podem estar preocupados com o fato de os Estados Unidos assumirem um papel tão grande no banco, e que talvez possam perder a confiança na instituição, porque esperavam que ela fosse liderada por um latino-americano?

Claver-Carone: Durante 60 anos, houve apenas quatro presidentes no BID, com mandatos de 15 a 20 anos. Esse também não é um modelo que queremos seguir. Eu me comprometi com um mandato de cinco anos, para ajudar a recuperar a região economicamente, juntamente com os Estados Unidos, e com o objetivo de mobilizar o capital. Queremos institucionalizar um máximo de um ou dois mandatos para cada presidente depois de mim, o que também é positivo.

Com todos os líderes com quem falei na região, não houve questionamentos sobre isso. Pelo contrário, acredito que exista confiança e alívio, porque sou uma pessoa muito direta, uma pessoa muito honesta, uma pessoa com credibilidade. Eles sabem que eu trabalho para o bem dos países e de suas populações. Também fazemos parte desta região, somos o maior acionista e queremos colocar todas as nossas ferramentas a serviço da região, para ajudar a recuperar a região economicamente, fazê-la sair desta crise.

Pergunta: Há quem diga que sua indicação permitirá aos Estados Unidos conter a influência da China na América Latina. Essa é uma das suas prioridades?

Claver-Carone: Estamos em um momento em que queremos realinhar as cadeias de suprimentos que vimos há décadas, e que foram de leste a oeste. Realinhá-las no eixo norte a sul. Isso também fazia parte dos pilares de segurança da região, e da fundação do BID, em 1959. Procuraremos ajudar a criar os incentivos necessários para fortalecer as relações interamericanas. Esses 32 países da região compartilham valores, compartilham cultura, compartilham princípios democráticos… e isso não é uma ameaça para ninguém, só é bom para o hemisfério ocidental.

Pergunta: Você considerará a sustentabilidade e o meio ambiente em seu plano de recuperação econômica para a região?

Claver-Carone: Levamos em consideração todos os aspectos da inclusão social, o meio ambiente, todas essas questões. Eles estão bem representados no BID. Avaliaremos e acompanharemos o bom trabalho que foi feito em muitas dessas questões. O que vamos reforçar, com toda a energia possível, é o foco no que, para mim, pessoalmente, é o mais importante: o crescimento econômico dos países, o aumento da renda média das pessoas, para que elas possam sentir o crescimento e a criação de emprego, que eles sejam mudanças palpáveis. E, junto com isso, obviamente existem fatores macroeconômicos, como a inclusão social, como o meio ambiente, em que o BID sempre trabalhou, e continuaremos com o bom trabalho realizado nesses setores.

Pergunta: E isso inclui apoiar projetos que contribuem para a preservação da Amazônia, mesmo que isso possa contradizer a posição do presidente brasileiro Jair Bolsonaro?

Claver-Carone: Vamos trabalhar com o presidente Bolsonaro e com o governo do Brasil, é um grande aliado. Todo esse projeto que realizamos estamos fazendo juntos, e, obviamente, iremos consultá-los para trabalhar juntos em todas essas questões importantes.

*Publicado originalmente em 'Agencia EFE' | Tradução de Victor Farinelli



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