Pelo Mundo

Megan Rapinoe: o novo fenômeno político nos Estados Unidos

A capitã da Seleção de futebol se transformou numa líder de massas após as críticas contra Donald Trump e sua campanha por igualdade no esporte

22/07/2019 16:32

 

 
Mais de 300 mil pessoas estiveram presentes no chamado Canyon of Heroes, importante pedaço da Avenida Broadway de Nova York, para homenagear as componentes da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos por seu triunfo na Copa do Mundo da categoria. Ao longo do percurso foi possível ver cartazes e faixas que diziam “Rapinoe para presidente”, que demonstraram a dimensão da popularidade da jogadora Megan Rapinoe, a grande protagonista do torneio, por seus méritos dentro dos gramados – foi eleita a melhores jogadora, além de ter sido também a artilheira da Copa – e também fora dele, com suas críticas à gestão do atual presidente estadunidense, Donald Trump.

Essa popularidade se tornou tão grande que há quem a veja com chances, caso decida se lançar como candidata presidencial no país, dentro do Partido Democrata. Uma pesquisa realizada pelo instituto Public Policy Polling dava a ela 42% de apoio, contra 41% do atual inquilino da Casa Branca. Uma opção que ela descartou: “estou ocupada, sinto muito”. Entretanto, se quiser aproveitar este momento no qual os focos estão sobre ela, poderia usar essa força para defender as causas a preocupam. “Levo muito a sério a plataforma que temos. Tenho o privilégio de ser uma pessoa famosa e de estar nesta equipe, ser quem sou, e se decidisse ficar calada acho que seria terrivelmente egoísta. Me sinto responsável por fazer isto”, afirmou ela, numa entrevista ao canal MSNBC.

No meio do campeonato, ela não teve problemas em assegurar que não iria a um encontro na Casa Branca, caso seu time fosse campeão, e afirmou que duvidava que elas fossem convidadas. Foi seu primeiro gesto chamativo, e uma vez confirmado o título, não perdeu tempo em acentuar sua faceta de ativista, verbalizando suas profundas discrepâncias com o governo de Trump, a quem dedicou estas palavras, em entrevista à CNN: “seu discurso exclui as pessoas, está excluindo a mim, excluindo gente como eu, excluindo as pessoas de cor, estadunidenses que poderiam apoiá-lo. Está recriando uma época que não era boa para todos. Talvez era boa para alguns poucos, e isso pode estar acontecendo de novo, agora, mas não é para uma grande parte dos estadunidenses. (Trump) Tem uma responsabilidade incrível, que é a de cuidar de todos, e tem que fazer o melhor para todos”.

Seu discurso em frente à Prefeitura de Nova York foi bastante diferente do que se costuma escutar nessas típicas celebrações esportivas. Por isso, muitos o qualificam de histórico. “Temos que ser melhores. Amar mais, odiar menos. Escutar mais, falar menos. Temos que saber que é responsabilidade de todos fazer deste mundo um lugar melhor, os que estão e os que não estão aqui presentes, e também todos os que não querem estar, os que estão de acordo e em desacordo. Sim, praticamos um esporte; sim, jugamos futebol; si, somos mulheres esportistas; mas somos muito mais que isso. Vocês também. São mais que torcedores. Chegou o momento de se unir após tanta disputa nos últimos anos. Este debate entrou no seguinte nível. Temos que colaborar. Precisamos de todo mundo. A todos vocês eu digo: façam o que for possível, sejam mais, sejam melhores, sejam maiores que nunca. Se esta equipe é a representação do que podem ser quando se luta para ser melhor, por favor, usam-nos como exemplo”.

Outra das referências do futebol feminino a nível mundial, a norueguesa Ada Hegelberg, ganhadora da Bola de Ouro de 2018, decidiu não disputar a Copa, em protesto pela desigualdade de prêmios entre o futebol feminino e o masculino. Rapinoe, porém, decidiu lutar pela mesma causa, mas em campo. Tinha diante de si uma chance única para se fazer conhecida a nível mundial e colocar no centro da discussão os assuntos sociais e trabalhistas que a preocupam, e que têm como característica a luta pela igualdade. Tanto no âmbito do esporte como fora dele. Seu ativismo vem de longe e está centrado, principalmente, em três frentes.

Ela é das defensoras mais ferrenhas do movimento Equal Pay (“igualdade salarial”) tão apoiado pelos torcedores nos estádios da Copa do Mundo, e também nas ruas de Nova York, durante o desfile da equipe. Também deve-se entender que a seleção de futebol, feminino dos Estados Unidos (quatro títulos mundiais e quatro ouros olímpicos) tem resultados muitíssimo melhores que o time masculino (zero títulos nessas competições), e registra maior audiência na televisão que eles (esta Copa feminina teve 22% mais de audiência no país que a última masculina). Ainda assim, suas condições econômicas e de trabalho são muito piores. No melhor dos casos, elas ganham em um ano somente 38% do que ganham eles. Em março, Rapinoe foi uma das 28 jogadoras que assinaram um abaixo-assinado contra a Federação de Futebol dos Estados Unidos por discriminação de gênero institucionalizada, baseado em duas razões: violação da Lei de Igualdade de Retribuição, e violação da Lei de Direitos Civis, no artigo que se refere a discriminação de gênero. Em 2016, Megan e outras quatro companheiras apresentaram uma denúncia na Comissão de Igualdade de Oportunidades no Trabalho, mas a mesma não produziu nenhum veredicto, depois de três anos.

Rapinou é capitão da sua seleção (revezando com as também veteranas Alex Morgan e Carli Lloyd) e é consciente dessa responsabilidade. “Sempre acredite em você mesma. Luta pelo que você vale, e nunca aceite menos. Nunca!”. E se refere tanto a nível interno quanto ao nível mundial. Não deu maior importância à promessa do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de que os prêmios na próxima Copa feminina serão duas vezes maiores que os desta edição, já que também haverá um aumento, ainda maior, nas premiações da Copa masculina, que se disputará em Qatar (em 2022). Portanto a brecha não só não diminuirá, como será maior. “Não digo que tenhamos que ter o mesmo valor que eles. Compreendo que, por muitas razões, o futebol masculino é mais rentável que o feminino, mas se realmente interessa que a brecha deixe de crescer, não se pode programar, por exemplo, as finais da Copa América e da Copa Ouro (torneio continental masculino da Concacaf) para o mesmo dia da final da Copa feminina. Coisas como essas são as que nos fazem sentir menos respeitadas”. Dias antes, o CEO da empresa Nike reconheceu que a camiseta da seleção feminina estadunidense é a mais vendida da história da marca através da página web, mesmo em comparação com times masculinos.

Rapinoe também é uma referência para o movimento LGTBI. Colabora com associações como a GLSEN, que busca acabar com a discriminação, o acosso e a intimidação baseada na orientação sexual e na identidade de gênero nas escolas, e a Athlete Ally, que se enfoca em fazer com que as comunidades atléticas sejam mais inclusivas e menos discriminatórias e ajudam os atletas a advogar em favor da igualdade. Em 2012, ela tornou pública sua condição de homossexual. Naquele momento, mantinha uma relação com a futebolista australiana Sara Walsh. Depois esteve a ponto de se casar com a cantora Sera Cahoone, mas desde 2016 está unida à jogadora de basquete Sue Bird, sendo o primeiro casal gay que posou para o suplemento Body Issue, da ESPN. Durante a Copa, ela afirmou que “não pode ganhar um campeonato sem homossexuais em sua equipe. Nunca aconteceu. É um dado científico!”. Em um texto de sua época de colégio, ela conta que se sentiu perdida, e que várias vezes teve que escutar como a chamavam tomboy (termo para “garota pouco feminina”). Naquele tempo, o esporte ajudou a encontrar sua identidade. Significativa é a frase que tem tatuada em seu braço esquerdo: “a natureza seguiu seu curso”.

Muitos a chamaram de antipatriota a Megan por apoiar a causa iniciada por Colin Kaepernick, um jogador de futebol americano, ativista pelos direitos humanos e contra a segregação racial. No final de 2016, ele decidiu se ajoelhar quando tocava o hino antes das partidas, em protesto pelo abuso policial contra a comunidade afro-americana. Ela imitou esse gesto, mas a federação de futebol impôs uma norma que obrigava as jogadoras a permanecer de pé enquanto tocava o hino. Desde então, ela passou a somente não cantar o hino, e não colocar a mão sobre o peito. Em uma entrevista, comentou sobre esse assunto: “jamais sofri a brutalidade policial, nem o racismo, nem nada parecido a ver o corpo de um familiar morto na rua. Mas não posso ser indiferente ao fato de que há pessoas neste país que têm que lidar com este tipo de coisa. Não há forma perfeita de protestar. Sei que nada do que eu faça aliviará a dor dessas famílias, mas sinto que ajoelhar-me durante o hino nacional é a forma correta de proceder, e o farei, para que este gesto possa ser parte da solução”.

Nascida há 34 anos, na cidade de Redding, no norte da Califórnia, Rapinoe tem quatro irmãos, entre eles uma gêmea chamada Rachel, que também foi jogadora, e com a que é muito unida. Desde pequena, ela gostou de praticar esportes, como hóquei, atletismo, basquete e futebol. Seu pai a treinou em diversos times, até que chegou ao ensino médio. Em 1999, quando ela tinha 14 anos, acompanhou a Copa do Mundo feminina nos Estados Unidos, uma experiência que a marcou. Ela viu a semifinal contra o Brasil, e saiu do estádio dizendo “é isso o que eu quero fazer”. Desde 2013, ela joga pelo Reign FC, equipe de Tacoma, cidade do estado de Washington, a 50 quilômetros de Seattle.

Megan teve que lidar com momentos difíceis tanto dentro quanto fora do campo. Com 21 anos, sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior em uma das pernas, que a manteve um ano parada. Pouco depois do retorno, a mesma contusão apareceu na outra perna, o que significou mais um ano sem jogar.

Talvez, a atitude e comportamento de Megan Rapinoe chame tanto a atenção porque não estamos acostumados a ver a esportistas famosos saindo do protocolo politicamente correto e enfrentando o poder de uma forma tão contundente. Estamos diante de uma mulher que é líder nos gramados e referência nas ruas. Isso sim é algo histórico.

Ricardo Uribarri é jornalista espanhol especializado em esportes, colaborador da revista XL Semanal e da rádio Onda Madrid.

*Publicado originalmente na Revista Contexto | Tradução de Victor Farinelli




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