Pelo Mundo

Milionários atrás das máscaras

 

20/04/2020 14:43

 

 
Juro pelo que há de mais sagrado que estou comovido pelo gesto do Grupo Luksic, um dos mais poderosos grupos empresariais do Chile, ao doar um milhão de máscaras para proteger os profissionais de saúde do coronavírus. Um exemplo de solidariedade e sensibilidade social que, esperamos, será imitado pelos outros milionários chilenos.

Quanto essa doação, que enaltece seus sentimentos humanitários, significa para Luksic?

Talvez dois, três ou quatro milhões de dólares? E não foi apenas o custo das máscaras chinesas. Também pagou o fretamento do avião da Latam que voou 57 horas até Xangai, com 15 tripulantes. Provavelmente, isso foi mais caro que as máscaras. A modéstia e discrição que caracterizam a filantropia de Luksic o impedem de reparar nas cifras. Além disso – abençoada seja sua generosidade –, ele também doará um milhão de luvas. Fornecedores chineses – eu até já os vejo – esfregam as mãos.

Essa generosidade de Luksic também é uma bandeira pregada nas costas dos ricos do Chile. Se Luksic pode, por que os outros não?

Os desconfiados, que abundam no Chile, levarão em consideração as questões da filantropia na classe rica após a “revolta social” de outubro de 2019, e a pandemia de coronavírus que colocaram o modelo econômico à beira do precipício.

É verdade que Luksic tem a maior fortuna do país: nada menos que 15,4 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes. O dinheiro ganho com o suor da testa – como manda o Evangelho –, arranhando as minas, cultivando florestas nas terras mapuche e exercitando as artes de Schylock na banca. Tudo isso permitiu a ele apoiar as jovens promessas do setor imobiliário, apoiadas pelo Palácio de La Moneda, e também se comprometer a pagar aos seus trabalhadores um salário mínimo de 500 mil pesos, em um país onde 70% dos trabalhadores ganham menos que isso.

Por que, então, repudiar o fato de que Luksic e seu Banco de Chile abocanharam os bancos Edwards e Citibank? Ou que a banca privada, comandada por ele, faturou ganhou 2,7 bilhões de dólares em 2019? Será que não entendemos que a chave do sucesso na economia de mercado é a capacidade do tubarão de comer as sardinhas?

A ciência da economia de mercado consiste no triunfo dos fortes sobre os fracos. A lei da selva. O sucesso nos negócios depende da derrota de outros. Isso abre caminho para a exploração de consumidores e usuários. Luksic detém a coroa de louros na guerra da economia de livre mercado que está sendo travada no Chile.

No entanto, o importante agora é promover o exemplo de Luksic para iniciar o show de caridade dos milionários para enfrentar a pandemia.

Depois de Luksic, de acordo com a Forbes, está Julio Ponce Lerou, patrono dos partidos políticos, com uma fortuna de 3,8 bilhões de dólares. Em seguida, Horst Paulmann, dono de uma rede de shoppings e supermercados, com 3 bilhões de dólares. Álvaro Saieh Bendeck, dono de meios de imprensa, bancos e outros negócios, também tem 3 bilhões. Sebastián Piñera, presidente e especulador do mercado de ações, aparece com 2,8 bilhões. Roberto e Patricia Angelini, com 2,1 e 1,7 bilhões, por serem proprietários da rede de postos Copec e de uma ampla gama de investimentos. Jean Salata, que controla os negócios com a Ásia, tem lá seus 1,9 bilhão. Luis Enrique Yarur, dono do banco BCI, também tem seus 1,5 bilhão. Bernardo e Eliodoro Matte, reis da floresta, celulose, papel, papelão e florestas em terras estrangeiras, têm 1 bilhão de dólares cada um… E a lista continua: 119 famílias têm uma fortuna de mais de 100 bilhões.

Por favor, deixe de lado – ao menos por enquanto – todas as suspeitas sobre a origem de tais fortunas. Ainda não é hora de desenterrar feridas ainda abertas.

O que vocês diriam se o presidente Piñera pudesse se desprender de um bilhão de dólares, um terço de sua fortuna amanhã, e o doasse à saúde pública? Ele ainda ficaria com 1,8 bilhão para garantir uma velhice tranquila. Que gesto bonito e patriótico isso seria! O país o aplaudiria. Piñera entraria para a história como o presidente mais bondoso e o eu mais soube entender as preocupações e angústias do povo chileno.

Os cidadãos chilenos esperam que exemplos como o de Luksic sejam imitados por nossos ricos, sejam eles políticos ou não. É hora de lavar suas fortunas. Se não for feito rápidos, poderá ser tarde demais.

Se esse chamado sincero e fraterno for ouvido, milhões de máscaras e luvas – e talvez alguns respiradores mecânicos – choverá sobre esta longa e estreita pandemia, que não vai parar de clamar aos céus por justiça e igualdade.

*Publicado originalmente em 'Punto Final' | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado