Pelo Mundo

Militares recuam mas mantêm a indefinição no Egito

24/11/2011 00:00

 Foto Maggie Osama/Flickr

Créditos da foto: Foto Maggie Osama/Flickr
Apesar dos sinais de recuo dos militares em torno do calendário político para por fim ao processo de transição a situação mantinha-se confusa na noite de terça-feira no Cairo, continuando por definir alguns aspectos determinantes da agenda política.

Enfrentando a repressão cometida pela polícia e pelos militares – que já provocou quase 40 mortos desde 19 de novembro - dezenas de milhares de pessoas de todas as tendências políticas continuam concentradas na Praça Tahrir exigindo agora, sobretudo, a demissão do Marechal Tantaui, presidente do Conselho Supremo das Forças Armadas, antigo ministro da Defesa e colaborador íntimo de Hosni Mubarak.

“O Exército está plenamente preparado para entregar imediatamente o poder, se a nação assim o desejar, através de um referendo, se necessário”, declarou Tantaui numa mensagem televisiva vaiada pelos manifestantes.

As mensagens políticas dos militares continuam a não ser claras, caracterizadas pela ambiguidade relacionada com a profunda e interessada ligação das forças armadas ao poder. A própria alusão a um referendo sem mais explicações aumentou as dúvidas e ambiguidades para a definição de um calendário político com prazos realistas.

A demissão do governo abre caminho à formação de um governo de unidade nacional reclamado em abaixo-assinado por algumas figuras políticas de peso e também, aparentemente, pela Irmandade Muçulmana, a organização que é favorita nas próximas eleições parlamentares.

O discurso de Tantaui admite a possibilidade de se realizarem eleições presidenciais – último passo para o fim do período de transição – antes de julho do próximo ano quando o Conselho Militar estava a tentar afastá-las para o ano de 2013, uma das razões que levou os manifestantes de novo para as ruas. Esse é, até agora, o recuo mais evidente da junta militar.

Permanecem em aberto as possibilidades de os militares pretenderem requerer um tratamento especial nas futuras instituições, entre elas a designação de uma quota de deputados pelas forças armadas e a gestão dos recursos e do orçamento pela própria instituição militar.

O peso das forças armadas no Egito não é apenas estratégico e militar – através sobretudo da sua dependência operacional e econômica dos Estados Unidos – mas também econômico, num país a mergulhar cada vez mais aceleradamente na crise através do esgotamento da reserva de divisas. O El País revelou que cerca de 25 por cento do PIB do Egito está nas mãos dos grupos de empresas pertencentes ou geridas pelas forças armadas.

Outro dos elementos que mantêm incertezas no Egito é o da própria solidez das forças armadas enquanto corpo. Embora não tenham surgido sinais evidentes de divisões nos comandos superiores, continua a ser possível verificar que quadros intermédios se recusam a participar na repressão, dando-se o caso de alguns oficiais serem transportados com júbilo pelos manifestantes quando isso acontece.

Por outro lado, apesar de os centros de decisão estarem na capital, o Egito é muito mais do que o Cairo e os comportamentos dos poderes militares regionais poderão ainda ser determinantes.

Além das perseguições religiosas com todo o aspeto de serem orquestradas, continuam a existir sinais de provocações para agravar a instabilidade do poder e proporcionar situações caóticas que levem a exigir uma presença permanente do exército. O Egito, estando tecnicamente em paz com Israel, é um país fundamental, mas também muito vulnerável, perante o eixo israelo-norte-americano, o que suscita instabilidades internas e externas acrescidas ao ritmo das próprias contingências da situação no Médio Oriente. A Administração norte-americana pode sentir-se pressionada pelo fato de os seus aliados militares estarem comprometidos numa repressão sangrenta, mas em última análise terá que contar com eles nem que para isso tenha de promover recomposições na estrutura e cadeia de comando, deixando cair o marechal Tantaui, o favorito do Pentágono.

“A revolução continua mas há tentativas para a fazer descarrilar”, comentou terça-feira o candidato presidencial Amr Mussa, ex-secretário geral da Liga Árabe. “E há também quem promova o caos”, advertiu.

A maioria da população tem a noção de que esse “caos” será sempre um trunfo para o poder militar.

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