Pelo Mundo

Ministério SA: como CEOs de multinacionais argentinas aparelharam a fome

O ministério encarregado de ajudar os mais necessitados está conformado por ex-diretores de empresas multinacionais sem experiência na área social

16/09/2019 14:39

 

 
No dia 12 de setembro, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou o projeto de lei de Emergência Alimentar, que obriga o governo a aumentar em ao menos 50% os gastos destinados a políticas públicas nacionais de alimentação e nutrição. Se espera que, desta forma, seja possível atender de melhor forma a grave situação na qual se encontram hoje milhões de pessoas que não podem satisfazer suas necessidades mais elementares.

A profunda deterioração de todos os indicadores socioeconômicos, como consequência das políticas implementadas pelo governo macrista, nos levaram a esta crítica situação. Aqui, não valem as metáforas presidenciais, que aludem a “tormentas”, “rios a serem cruzados”, “ventos de frente” ou “navios que precisam chegar a um bom porto”. Cada vez há mais pessoas que não podem levar um prato de comida à sua mesa, e isso não é difícil de imaginar quando se observa a evolução nos preços dos produtos, a deterioração e precarização do mercado de trabalho e a perda sistemática de poder aquisitivo dos salários, aposentadorias e pensões durante os últimos três anos e meio.

Segundo os dados oficiais, a pobreza na Argentina passou de 25,7% no segundo semestre de 2017 a 35,1% no primeiro semestre de 2019. Se estima que até o fim deste ano, a porcentagem da população que vive abaixo da linha da pobreza se elevará ao 40%. Cabe recordar, que na hora de avaliar os impactos da pobreza, se observam marcadas diferenças por idade e gênero: ela afeta mais os menores de idade, os idosos e as mulheres. Quase a metade das crianças e adolescentes do país vivem em lares cuja renda não cobre a cesta básica. E isso não é o resultado de nenhum fenômeno natural ou externo, mas sim de um plano econômico que privilegiou poucos setores e deteriorou as condições de vida de quase todos.

Diante desse lamentável panorama, o que sabemos sobre o perfil dos funcionários encarregados de formular e implementar as políticas de desenvolvimento social, no departamento conduzida pela ministra Carolina Stanley? Realmente se trata de uma equipe em condições de enfrentar com rapidez e eficiência a situação crítica na qual se encontram milhões de pessoas hoje em nosso país?

Tomando em contra os dados que produzimos junto com o Observatório das Elites, organizado pelo CITRA (Centro de Investigação para os Trabalhadores), sabemos que a Ministra conformou uma time relativamente jovem, com paridade de gênero e formação universitária diversa, e em muitos casos os funcionários não tem estudos relativos aos cargos que exercem.

Nesta equipe convivem dois tipos de perfis. Por um lado, um conjunto de colaboradores experimentados em gestão pública que acompanhou a ministra Stanley durante sua passagem pela Secretaria de Desenvolvimento Social da Cidade de Buenos Aires (2011-2015, quando Macri era prefeito). Por outro lado, um grupo de ex-gerentes e diretores de importantes empresas privadas, entre as que se destacam Loma Negra, Farmacity, Telecom, entre outras.

Também chama a atenção a presença de muitos nomes ligados a bancos, como o ICBC, Banco Francês, Santande, Bank of América, HSBC, BNL, Banco Sol e Bankers Trust. Talvez, essa preferência por recrutar ex-gerentes de bancos se vincule com o fato de que a ministra em questão é filha de Guillermo Stanley, ex-diretor do Citibank e do Banco Macro durante os Anos 90, mas não se pode assegurar isso.

Porém, é sim inquestionável o fato de que trabalham hoje no ministério 21 altos funcionários que integraram (ou ainda integram) a diretoria de diversas sociedades comerciais.

Alguns casos são bastante chamativos: o secretário de coordenação, Tomás Félix Elizalde, registra 20 cargos de autoridade em empresas locais e 4 como representante de firmas constituídas no exterior. Na área de gestão territorial, há 3 funcionários que são sócios de uma empresa dedicada ao serviço de distribuição de comidas e bebidas, a LCDTH SRL. São eles: Diego Martínez, diretor nacional de dispositivos territoriais; Fernando Reggio, subsecretário de abordagem territorial; e Mariano Gallegos, coordenador de planificação de abordagem integral. Também é curioso o caso de Patricia Manusovich, que é a coordenadora de integração infológica para programas de economia social, e que registra participações em 7 firmas radicadas no exterior. Também está o caso de Gabriel Castelli, secretário nacional de infância, adolescência e família, e é parte da diretoria dos bancos ICBC e do HSBC, e também de Farmacity.

Difícil explicar a inclusão de tantos funcionários com participação em empresas privadas num ministério dedicado a promover o desenvolvimento social. Que especialidade um empresário pode agregar na hora de desenhar ou implementar políticas sociais? A única relação com a área social que pudemos encontrar em alguns desses funcionários é a de ter patrocinado ou dirigido fundações, associações e organizações diversas (algumas delas vinculadas à Igreja Católica) destinadas à ação solidária, como Cáritas Argentina, ACDE (Empresários Cristãos), Fundação Andares, Fundapaz e Observatório Social. Mas não parecem ser antecedentes suficientes para abordar de uma forma integral e efetiva a complexidade da situação social imperante.

A implementação da emergência alimentar fica, assim, nas mãos de uma espécie de “Ministério SA”, que dificilmente se mostrará à altura das circunstâncias. Mais um motivo para refletir sobre o tipo de pessoas que o Estado precisa, se pretenda estar a serviço da sociedade e com capacidade, autonomia e racionalidade estratégica.

*Publicado originalmente em El Destape | Tradução de Victor Farinelli



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