Pelo Mundo

Morre o escritor e filósofo italiano Norberto Bobbio

09/01/2004 00:00

Um dos mais importantes pensadores políticos contemporâneos, o filósofo, escritor e senador italiano Norberto Bobbio morreu nesta sexta-feira (9), aos 94 anos, em Turim, sua cidade natal. Bobbio, que estava internado desde o final do mês passado com problemas respiratórios, havia entrado em estado de coma irreversível no dia 2 de janeiro. O presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi, lamentou a morte de Bobbio e enviou uma mensagem à família do filósofo, dizendo que o país perdeu “um homem sábio, justo, de personalidade extraordinária, rigoroso e sensível, curioso e sagaz”, informou o jonal italiano Corriere della Sera.
Nomeado senador vitalício em 1984, Bobbio chegou a ter seu nome cogitado para ser candidato à Presidência italiana. Recebeu o título doutor honoris causa diversas vezes, na Itália e em outros países. Bobbio formou-se em direito e filosofia nos anos 30. Neste período, foi preso por sua oposição ao regime fascista. Professor universitário e ensaísta, escreveu centenas de livros, ensaios e artigos. Considerava sua atividade como professor a tarefa central de sua vida. “Durante a maior parte da minha vida desempenhei duas tarefas dificílimas: ensinar e escrever”, disse certa vez. Estudioso da obra do jurista Hans Kelsen, defendeu, inspirado no autor alemão, uma concepção de democracia entendida como sistema de regras que permitem a convivência livre e pacífica dos indivíduos. As idéias contratualistas do filósofo inglês Thomas Hobbes também influenciaram profundamente a obra de Bobbio, que só concebia a idéia de uma paz justa por meio da constituição de um poder comum. De Hobbes, herdou também, conforme admitiu, “um certo pessimismo quanto à natureza humana e quanto à história”.
Rejeição do fim da história
A maior parte das obras de Bobbio foi traduzida para o português. Sua abrangência é vasta, percorrendo a filosofia do direito, filosofia política, ética e os principais temas do debate político contemporâneo. Em sua autobiografia “Diário de um Século” (cuja edição brasileira é prefaciada por Raimundo Faoro), Bobbio disse que o século 20 “talvez venha a ser lembrado como o mais cruel da história”, com duas grandes guerras mundiais e com dezenas de outros conflitos alimentados pela lógica da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. Mesclando elementos da tradição socialista e liberal, o autor foi um defensor incansável da democracia, da liberdade e da justiça social.
Em 1989, em um período marcado pelo fim da União Soviética e pela queda do muro de Berlim, Bobbio criticou a tese do “fim da história”, formulada pelo historiador norte-americano Francis Fukuyama, defendendo que não se poderia pensar que a “esperança da revolução” tivesse morrido “só porque a utopia comunista faliu”. Alertando para os riscos do crescimento das desigualdades sociais no mundo, formulou, em um artigo publicado em 1990 no jornal La Stampa, uma questão recorrente em suas obras: “estarão as democracias que governam os países mais ricos do mundo em condições de resolver os problemas que o comunismo não conseguiu resolver? A democracia venceu o desafio do comunismo histórico, admitamo-lo. Mas, com que meios e com que idéias dispõe-se a enfrentar os mesmos problemas que deram origem ao desafio comunista?”
Esquerda e direita
Adversário implacável das simplificações históricas e das tentações totalizantes, Bobbio costumava dizer que não há soluções definitivas na história, descrevendo essa disciplina como “uma imensa floresta na qual não há uma única estrada previamente traçada, e na qual não sabemos nem mesmo se há uma saída”. Não havendo ninguém do lado de fora que possa indicar a saída desse labirinto, dizia que só restava aos homens procurar a saída por si mesmos. “O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum.”
No momento em que uma corrente de pensamento dizia que a história havia chegado ao fim e o capitalismo havia triunfado definitivamente, Bobbio defendeu a sobrevivência da distinção entre esquerda e direita, a partir da “diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal da igualdade” (na obra “Direita e Esquerda. Razões e Significados de uma distinção política”, publicada no Brasil pela Editora da Unesp, em 1995). Em uma entrevista concedida em 1987 ao Jornal do Brasil, Bobbio resumiu do seguinte modo sua crença na pertinência e na legitimidade dessa distinção:
“No nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação, as populações esfomeadas do terceiro mundo, são a esquerda. Aqueles que falando do alto do seu interesse dizem que não vêem por que distribuir um dinheiro que suaram para ganhar, são e serão a direita. Quem acredita que as desigualdade são um fatalismo, que é preciso aceitá-las, desde que o mundo é mundo sempre foi assim, não há nada a fazer – sempre esteve e está à direita. Assim como a esquerda nunca deixará de ser identificada nos que dizem que os homens são iguais, que é preciso levantar o que está no chão, lá embaixo. Acredito que esta distinção existe, continua fundamental, ainda hoje serve para distinguir as duas grandes partes da política.”
Uma última lição
Bobbio deixa uma obra vasta e rica para todos aqueles que querem pensar os desafios da democracia, da liberdade e da igualdade em um mundo cada vez mais dominado por um pensamento econômico que transforma o lucro em divindade e a vida em mercadoria. Mas deixa, acima de tudo, um exemplo de vida e de trabalho. Em sua aula de despedida, proferida no dia 16 de maio de 1979, Bobbio citou Max Weber para deixar uma lição final a seus alunos: “A cátedra universitária não é nem para os demagogos, nem para os profetas”. Entre os tantos demagogos e profetas que habitam a cena intelectual contemporânea, Bobbio foi um oásis de serenidade, lucidez e honestidade intelectual.


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