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Movimento massivo contra aumentos no transporte leva governo chileno a acionar militares por primeira vez desde Pinochet

O presidente do país é o mega empresário e político ultraneoliberal Sebastían Piñera, que decidiu nomear o comandante militar Javier Iturriaga como chefe da defesa nacional, após uma crise pelo aumento nas tarifas do transporte público. É a primeira vez desde o fim da ditadura que os militares são acionados para tarefas de segurança interna do país

20/10/2019 14:30

 

 
O presidente chileno Sebastián Piñera assinou neste sábado (19/10) um decreto que determina Estado de emergência nas províncias de Santiago e Chacabuco, e em comunas como Puente Alto e San Bernardo, na Região Metropolitana da capital.
 
A medida é uma reação, após o dia de maior participação popular nas manifestações contra o aumento de preços do transporte público, que levou centenas de milhares de jovens e estudantes a organizar atos de evasão massiva, com os manifestantes agindo em grupo e saltando as catracas dos ônibus e das estações de trens e do metrô.
 
Além disso, o mandatário nomeou o comandante militar Javier Iturriaga como chefe da defesa nacional, após uma declaração em rede nacional de televisão no dia anterior que provocou enorme repúdio popular e panelaços nas ruas de todo o país, especialmente nas proximidades de estações de metrô, e inclusive em bairros de Santiago considerados de classe média alta, como Providencia e Ñuñoa. Alguns também protestaram com cartazes, lembrando que o mega empresário Piñera é conhecido como um dos maiores sonegadores de impostos do país: um dos cartazes mais difundidos nas redes sociais diz “Piñera evadiu 388 milhões de pesos (valor levantado por apenas um dos processos que enfrenta na Justiça), e você apenas 830 (o novo preço das passagens)”.
 
A medida de Piñera de acionar os militares é inédita no país desde o retorno da democracia, e também o cenário é inédito, com carros blindados do Exército espalhados pela cidade de Santiago desde as primeiras horas do sábado. Após o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), nenhum presidente chileno eleito democraticamente jamais acionou os militares para tarefas de segurança interna.
 
Além disso, o governo também anunciou que apresentará à Justiça seus argumentos para aplicar a Lei de Segurança do Estado contra manifestantes que forem capturados saltando as catracas ou tentando entrar nos ônibus pelas portas de trás. A medida também provocou repúdio também no âmbito político, diversos deputados e senadores opositores se expressaram sua postura contrária nos meios de comunicação locais e através das redes sociais.
 
O Estado de exceção decretado em Santiago é válido por 15 dias, e o presidente poderá estendê-lo por mais 15 dias, se considerar necessário.
 
O começo desse conflito se deu quando o governo estabeleceu um novo aumento no preço do transporte público em Santiago. Nos últimos 12 anos, o preço das passagens em Santiago saltou de 420 pesos chilenos (0,6 dólares da época) aos atuais 830 pesos (1,15 dólares). Apesar da automática insatisfação popular gerada já desde o anúncio, a ministra dos Transportes, Gloria Hutt, descartou qualquer possibilidade de revisar o aumento, alimentando o descontentamento popular.
 
Na segunda-feira (21/10), o Congresso chileno deverá debater a lei que efetivará a política de aumentos impulsada por Piñera, que a partir do reajuste de preços na capital, deverá produzir uma onda de aumentos nas tarifas em todo o resto do país.
 
*Com informações do El Desconcierto e do Página/12

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