Pelo Mundo

Murdoch: As desculpas britânicas de Cameron no Parlamento

21/07/2011 00:00

Marcelo Justo - Página/12

O primeiro ministro David Cameron pediu desculpas à Câmara dos Comuns por ter contratado como chefe de imprensa a Andy Coulson, personagem chave do escândalo das escutas telefônicas que mantem o Reino Unido em um clima de suspense. Em um debate parlamentar de emergência, um dia após o depoimento de Ruppet Murdcoh, seu filho James, e a ex-editora de News of the World, Rebeka Brooks, e dos ex-chefes da Scotland Yard comparecerem à Câmara, o primeiro-ministro reconheceu que a nomeação de Coulson tinha sido um erro. “Lamento a fúria causada por esta decisão. Se pudesse voltar atrás, não o contrataria. Mas a realidade é que tomamos as decisões no tempo presente, sem a vantagem de saber o que vai ocorrer”, indicou Cameron.

Seguindo o velho ditado de que não há melhor defesa do que um bom ataque, o primeiro ministro lembrou à Câmara que todos os partidos políticos cortejaram o grupo Murdcoh e ampliou os termos de referência da comissão independente encabeçada pelo juiz Lord Brian Levenson, que investigará o escândalo. A comissão, que contará com um prestigiado corpo assessor, analisará o caso das escutas em particular, mas se debruçará também sobre o marco regulatório necessário para meios de comunicação tradicionais e redes sociais em sua relação com políticos e a polícia. Camerón destacou que o governo da coalizão era o primeiro a propor uma investigação ampla sobre o tema e acusou os trabalhistas de apelarem a “teorias conspirativas” para obter dividendos políticos.

A tática, executada com histrionismo de homem firme e sincero, não eliminou os problemas de fundo. O trabalhista Dennis Skinner perguntou a Cameron se, durante seus números encontros com diversos representantes de News International desde que é primeiro ministro, abordou o tema da aquisição, proposta pelo grupo Murdoch, da totalidade do pacote acionário da BSkyB. “Em nenhum momento tive uma conversa que não fosse apropriada”, limitou-se a dizer Cameron. Com diferentes entonações retóricas, três deputados trabalhistas fizeram a mesma pergunta e obtiveram a mesma resposta evasiva.

Segundo revelou Downing Street na semana passada, o primeiro ministro se encontrou 16 vezes com membros do grupo Murdoch desde que assumiu seu cargo em maio do ano passado. Em suas três primeiras semanas no cargo teve cinco reuniões com dirigentes da News International, subsidiária britânica da News Corp., a companhia mãe do grupo. Pouco depois desses encontros, em meados de junho, Ruppert Murdcoh lançou sua primeira proposta para a aquisição de todo o pacote acionário. Andy Coulson ainda era o chefe de imprensa de Cameron.

O tema Coulson e o de seu número dois no jornal dominical, Neil Wallis, são outros bumerangues que perseguiram o primeiro ministro durante muito tempo. O jornal The Guardian e o seu próprio vice-primeiro-ministro Nick Clegg não tinham lhe informado que havia fortes suspeitas de que Coulson havia ordenado as escutas telefônicas quando era diretor do News of the World? “Venho de uma velha tradição que considera que alguém é inocente até que se prove o contrário”, respondeu o primeiro ministro para justificar a nomeação de Coulson como chefe de imprensa.

O tema de Wallis esquentou na última semana quando se descobriu que a polícia metropolitana havia o contratado como assessor midiático provocando uma dura crítica de Cameron que terminou com a carreira dos dois mais altos cargos da Scotland Yard. Na terça-feira à tarde, o Partido Conservador foi obrigado a reconhecer que Neil Wallis, detido pelo caso das escutas, havia colaborado com Coulson na campanha eleitoral. “O Partido Conservador não o contratou nem houve nenhum pagamento. Wallis ajudou Andy Coulson por sua conta”, disse Cameron.

O vínculo do primeiro ministro com seu chefe de polícia, Ed Llewellyn também ficou exposto. Os dois são amigos desde a universidade e Llewellyn foi nomeado em seu posto com um salário de cerca de 200 mil dólares por ano. Antes das eleições, Llewellyn recebeu uma mensagem do Guardian assinalando que Coulsou havia contratado um detetive privado com ficha policial para suas investigações. Segundo a versão oficial, Llewellyn não passou a mensagem para Cameron. Esta semana, o agora subcomissário geral da Scotland Yard, John Yates, disse ao Parlamento que Llewellyn havia sugerido que a polícia não tocasse no tema das escutas em uma reunião sobre assuntos de segurança que teve com o primeiro ministro no ano passado. “Fiz o que devia fazer porque não era correto que alguma informação me fosse dada. Não podia fazer nenhuma insinuação de que queríamos influir na investigação”, assinalou Cameron. Se algo está claro, é que o escândalo segue de vento em popa.

Tradução: Katarina Peixoto

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