Pelo Mundo

Murdoch nega responsabilidade, crise aproxima-se de Cameron

20/07/2011 00:00

Esquerda.net

O dono da News Corporation viu nas últimas semanas arrasados os sonhos de expansão no negócio televisivo inglês, bem como o lendário tablóide News of the World, por causa das escutas ilegais. Presente em Londres para testemunhar no parlamento, Murdoch recusou qualquer responsabilidade nos crimes que diariamente eram feitos no jornal. O magnata dos media disse que nunca soube de nada e que os culpados são "as pessoas que contratei e em quem confiei, e talvez então as pessoas que eles contrataram e confiaram". Sobre as ligações políticas com o novo governo, Murdoch confessou ter dado os parabéns a Cameron pela vitória eleitoral já em Downing Street, acrescentando que lhe pediram "se por favor podia entrar pela porta traseira".

O filho do magnata e também administrador do grupo, James Murdoch, também negou ter tido conhecimento das escutas ilegais e pediu desculpa a todos os afetados pelos crimes da empresa. Segundo o Guardian, foi mesmo obrigado a admitir que a empresa ainda paga o salário de Glenn Mulcaire, um dos detetives privados já condenados no primeiro escândalo das escutas. Aos deputados, disse estar surpreso e chocado ao saber que os pagamentos continuavam, tendo negado que tal servisse para comprar o silêncio do detetive condenado. Também Rebekah Brooks, a responsável do grupo pelo News of the World, alinhou pela versão dos administradores e negou qualquer responsabilidade nos pagamentos a detetives privados.

Outro depoimento do dia foi o do antigo procurador Ken Macdonald, que trabalha para a News International e a quem uma firma de advogados da empresa mostrou os emails entre editores. "Demorei três a cinco minutos" a decidir que o material tinha de ser entregue à polícia, disse Macdonald, lembrando que foi esse o conselho que deu em junho passado, numa reunião presidida por Murdoch com a direção do grupo, e que todos lhe pareceram "chocados" com as revelações.

Mas a bomba política desta terça-feira rebentou noutra comissão, com as declarações de Paul Stephenson e John Yates. Ambos os ex-chefes policiais disseram à comissão parlamentar inglesa de assuntos internos que em setembro do ano passado – quando a notícia das escutas do News of the World regressou através da investigação do New York Times – a Scotland Yard quis informar o primeiro-ministro sobre o contexto da investigação. Mas Ed Llewellyn, o chefe de gabinete de Cameron, deixou claro que esse tema não interessava. A troca de emails entre Llewellyn e John Yates, o nº 2 da policia, foi agora revelada pelo Guardian: "Sobre os outros assuntos que mereceram a sua atenção esta semana, partindo do princípio que estamos a pensar na mesma coisa, certamente que compreenderá que queremos estar em posição de sermos inteiramente claros, para o nosso e vosso bem, de que não tivemos nenhum contacto convosco sobre esse assunto", respondeu o chefe de gabinete ao pedido de Yates para abordar o tema das escutas no dia em que o New York Times publicou a notícia.

Paul Stephenson e John Yates são os dois altos responsáveis da polícia inglesa que se demitiram na semana passada, após ser conhecida a contratação dum antigo editor do News of the World, Neil Wallis, para consultor da polícia. Wallis tinha sido braço direito de Andy Coulson - o ex-diretor de comunicação do primeiro-ministro - no jornal e sabia de tudo sobre as escutas ilegais. Coulson e Wallis foram presos nas últimas semanas.

A relação entre políticos, policiais e jornalistas está criando um ambiente de preocupação social e a comissão que ouviu os dois ex-responsáveis policiais soube também que 10 dos 45 membros do poderoso gabinete de imprensa da Scotland Yard já pertenceram aos quadros da News International.

Um dos advogados que segue o escândalo desde o início é Mark Lewis, que revelou aos deputados ter sido alvo de ameaças de processos judiciais por parte dos advogados de John Yates. Os comentários de Lewis sobre as escutas não agradaram ao adjunto do chefe da polícia inglesa e "os custos do processo foram pagos pela polícia, pelo contribuinte", acusou Lewis na comissão parlamentar. Também o ex-comandante Stephenson foi confrontado pela comissão pelo fato de ter reunido com editores do Guardian em 2009 com o objectivo de demovê-los de continuarem a publicar a investigação sobre as escutas. Respondeu que não tinha lido as notícias em causa e confiara na apreciação de Yates. "Devemos hoje estar gratos" por o jornal ter continuado a investigação, disse agora Stephenson aos deputados, na que deve ter sido a sua última aparição pública envergando a farda policial.

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