Pelo Mundo

Na Espanha, as direitas não passaram

As urnas sepultaram o bipartidismo e a possibilidade de um governo reacionário. Abre-se um período de negociações

29/04/2019 17:53

 

 
A Espanha de Lorca e Machado respira aliviada. As urnas sepultaram ontem a possibilidade de um governo reacionário, condicionado por una extrema direita em ascensão, que havia propiciado uma novidade política na Andaluzia (a região mais povoada do país), em dezembro do ano passado, e que ameaçava agora com conquistar a Espanha em seu conjunto.

Para se chegar a este resultado de 28 de abril, foi necessária uma mobilização eleitoral com poucos precedentes na história: mais de 75% de participação dos votantes e a concentração majoritária do voto progressista nos candidatos do PSOE. As eleições deste domingo confirmaram novamente a tese que sustenta que uma alta participação eleitoral na Espanha beneficia invariavelmente a esquerda.

O sistema parlamentar espanhol e sua lei eleitoral castigam a dispersão do voto. A direita, dividida em três opções – os conservadores do Partido Popular (PP), os liberais do partido Cidadãos e os extremistas do Vox –, teve um total de 42,81% das preferências, e conseguiu com isso 147 congressistas. Por sua parte, a esquerda, com o Partido Socialista Unido da Espanha (PSOE) e o Podemos, reuniu pouco mais de 43%, o que significou 165 cadeiras legislativas, ficando a apenas 11 dos 176 que dariam a maioria absoluta, a qual permitiria eleger o presidente na primeira votação, e também um governo sem turbulências. Os partidos nacionalistas e regionais serão a chave para a composição de governo, como quase sempre acontece, mas qualquer possibilidade que não passe pela reeleição do socialista Pedro Sánchez para os próximos quatro anos está descartada.

O secretário-geral do PSOE foi o grande vencedor da noite. Após chegar ao governo em 1º de junho do ano passado graças a uma moção de censura contra o então mandatário Mariano Rajoy (PP), que foi aprovada depois que a corrupção estrutural no PP ficou evidente em uma sentença judicial, Sánchez soube capitalizar nas urnas o forte perfil social que marcaram sua gestão durante estes dez meses, nos quais impulsou medidas como o aumento do salário mínimo a 900 euros, a ampliação das licenças de paternidade e a queda do IVA (imposto sobre valor agregado) que se aplica ao pão, aprovada no último Conselho de Ministros apenas 48 horas antes das eleições.

A mobilização eleitoral que deu a vitória ao PSOE foi a maior desde 2004. Contudo, o fenômeno não se explica tanto no perfil social do governo de Sánchez, e mais no temor que despertou na Espanha progressista a possível ascensão da extrema direita do Vox e a mimetização desse discurso ultrarreacionário por parte de Pablo Casado, o jovem conservador que assumiu a direção do PP após a queda de Mariano Rajoy.

Alimentada pelos conflitos territoriais como o da Catalunha, que provoca os sentimentos nacionalistas e exacerba os ânimos da Espanha mais conservadora, os extremistas do Vox conseguiram seu espaço legislativo com um discurso radical e sem complexos, que além de propor uma resposta autoritária ao desafio catalão coloca sobre a mesa outras questões, como o enfrentamento ao movimento feminista e a defesa de tradições questionadas, como a caça e as touradas.

O Partido Popular, longe de se distanciar dessa extrema direita e manter a linha dos partidos conservadores europeus, decidiu assumir esse mesmo discurso, uma estratégia que se mostrou catastrófica, já que terminou enterrando seus interesses. A legenda perdeu mais da metade das suas vagas, no que foi o pior resultado de sua história.

Assim, o Vox conseguiu entrar com força no Congresso, ao eleger 24 deputados, apesar de que esse número é muito menor que as expectativas atribuídas a partido pelas pesquisas recentes e pelo resultado na Andaluzia.

Entre as forças da direita, o maior beneficiado foi o partido Cidadãos, uma formação que se reivindica como liberal, embora também ofereça uma solução drástica diante do independentismo catalão, e que saltou nestas eleições de 32 a 57 deputados.

O Podemos, por sua parte, paga caro pela crise interna que se iniciou com a saída de seus estrategistas mais brilhantes, cansados do personalismo de Pablo Iglesias, mas pode jogar um papel relevante no novo cenário, apesar de cair de 71 a 42 em sua representação. Tudo dependerá de se Sánchez preferirá a esquerda na hora de conseguir os apoios que faltam, ou se prefere a direita, como já tentou fazer há quatro anos, quando assinou um pacto que não prosperou, com o líder de Cidadãos, Albert Rivera. A soma entre o PSOE e Cidadão seria suficiente para não necessitar nenhum outro apoio. Na noite de domingo, entretanto, os simpatizantes socialistas gritavam claramente, na frente da sede madrilenha do PSOE: “não passarão” e “com Rivera não”.

Os partidos nacionalistas, tanto os bascos quanto os catalães, também se beneficiaram do temor à extrema direita. Alguns resultados foram espetaculares. A Esquerda Republicana da Catalunha (separatistas de esquerda), cujo principal líder, Oriol Junquera, está preso há um e processado por sua defesa da causa independentista, foi a força mais votada e estará no Congresso com 15 deputados. Seu respaldo pode ser fundamental se Sánchez decide fazer um pacto com a esquerda. Nesta comunidade, a representação do Partido Popular caiu de seis deputados a apenas um. Só irá ao Congresso a marquesa Cayetana Álvarez de Toledo, nascida em Madrid, educada na Argentina e emparentada com a tradicional família Peralta Ramos.

No País Basco também houve uma forte ascensão das forças nacionalistas, tanto conservadoras como as de esquerdas. Lá, o PP perdeu os dois representantes que tinha.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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