Pelo Mundo

Na França, a esquerda rejuvenesce em uma nova derrota de Emmanuel Macron

 

29/06/2020 14:25

 

 

O segundo turno das eleições municipais francesa, neste domingo, confirmou o “tsunami ecologista” anunciado pelas pesquisas, e o declínio do partido “macronista”, em uma jornada marcada por abstenção recorde e importantes medidas de segurança por causa da pandemia do novo coronavírus.

A onda ecológica foi a principal notícia do dia, juntamente com a vitória da extrema-direita na cidade de Perpignan, sua primeira conquista de peso desde 1995. A alta abstenção – apenas 41% das pessoas votaram – e a união multicolorida também marcam o rumo que a política francesa parece tomar.

Este segundo turno estava programado originalmente para acontecer no dia 22 de março, mas foi adiado seis dias antes, em 16 de março, quando o presidente Emmanuel Macron estabeleceu as medidas de isolamento, que duraram até 11 de maio. Depois, se agendou esta nova data.

Também ficará marcada na História a criatividade com a qual os verdes e a esquerda conseguiram construir alianças vencedoras nesta campanha.

Ambientalistas e movimentos sociais forjaram coalizões com outras correntes da esquerda francesa durante a pandemia, e moldaram assim a aposta mais vencedora neste segundo turno de eleições municipais. O EELV (sigla em francês do partido “Ecologistas da Europa – Os Verdes”) e aceitou competir junto com novos aliados, principalmente socialistas e comunistas.

Este é um momento político decisivo para a França e para todo o continente europeu, e um exemplo para aqueles que não acreditam em pactos entre dois ou três setores historicamente distanciados. As vitórias ecologistas são espetaculares considerando o número de cidades, a importância demográfica que elas têm e a maneira pela qual, após décadas e décadas de gestões conservadoras, ou de idas e voltas entre administrações de esquerda e direita, agora teremos uma quantidade importante de municípios sob autoridade verde.

A eleição também deixou evidente um certo tédio da população com respeito a uma classe política que parece não ir a lugar algum, e que há muitos anos não é capaz de gerar projetos nacionais para o eleitorado, ou seja, para o povo

Além das vitórias nas urnas, as alianças com os ecologistas permitiram que a esquerda pudesse garantir vitórias que em algum momento pareciam distantes.

Os Verdes estarão nos governos das três principais cidades da França, depois de terem vencido no segundo turno: em Marselha, onde interromperam 24 anos, um quarto de século de governos conservadores, e em Lyon, que era grande esperança do “macronismo”, conseguiram vitórias históricas.

Enquanto isso, na capital Paris, serão aliados da socialista Anne Hidalgo, que conseguiu sua reeleição com uma votação confortável. Além disso, conquistaram Bordeaux e Estrasburgo, e ficaram a 227 votos de tirar Lille das mãos da histórica líder socialista Martine Aubry.

Apenas dois quintos da população foram às urnas nestas eleições realizadas três meses depois do adiamento da data original, devido ao avanço da covid-19. O primeiro turno aconteceu em 15 de março, e teve participação um pouco melhor: 45% do eleitorado habilitado a votar. Um mês e meio depois que o país iniciou a flexibilização das regras de isolamento, o governo realizou a votação novamente. Contudo, apesar da melhoria da situação na saúde, os cidadãos parecem não ter perdido o medo do contágio, isso sem contar a ausência, na prática, de maiores esforços de propaganda eleitoral.

Declínio do “macronismo”?

O partido governista LRM (sigla francesa para “República em Marcha”) se mostrou frágil, dividido e com poucas ideias, e por isso teve um resultado pífio. Apenas o primeiro-ministro Edouard Philippe se salvou, na cidade onde ele era candidato, Le Havre, onde ganhou com 58,83% dos votos. Com exceção dos partidários de Emmanuel Macron, todos têm motivos para cantar vitória: os Verdes, a extrema-direita, a esquerda e até o setor da direita ligado ao partido Republicanos, que conseguiu manter quase todas as suas prefeituras.

A baixa participação não esconde o fato de o partido do presidente mostrar uma enorme limitação territorial e acrescenta uma segunda derrota eleitoral, sem o seu líder como figura de campanha – depois de ter sido vencido nas eleições europeias de 2019 pela extrema-direita.

Com esta derrota, o cenário leva Macron à necessidade de anunciar, nos próximos dias, uma ampla revisão de seu governo, que lhe permitirá chegar às eleições presidenciais de 2022 em uma posição melhor.

O único motivo de comemoração no “macronismo” foi a vitória do primeiro-ministro Édouard Philippe em Le Havre, que assume uma dimensão particular em meio a rumores de que ele deixará o governo nos próximos dias.

Macron e seu partido estavam sofrendo uma queda nos níveis de popularidade desde antes da pandemia, em parte devido à reforma brutal do sistema previdenciário – uma continuação das políticas econômicas neoliberais que têm sido aplicadas na França desde as presidências do conservador Nicolas Sarkozy e do socialista François Hollande – e à insurgência social liderada pelo movimento dos coletes amarelos.

Se supõe que Macron esteja preparando uma ampla reforma do Executivo para lhe dar uma virada mais social e ecológica com a qual ele pretende enfrentar os dois anos que restam no Palácio do Eliseu. Uma nova cara na administração, mas que não poderá contar com Philippe, uma figura nova da direita, e que muitas vezes garantiu que não está disposto a negar suas convicções.

O restante de seus candidatos foi varrido em cidades importantes, incluindo Lyon, onde defendiam o legado de Gérard Collomb, mas que, em meio a divisões internas, acabaram sucumbindo à onda ecologista.

A terceira cidade do país foi um dos símbolos do avanço dos verdes, que um ano depois de ter surpreendido nas eleições europeias – na qual apareceram terceiro lugar, superando alguns partidos históricos e demonstrando que vivem uma dinâmica ascendente.

Uma frente de esquerda?

Apesar da abstenção esmagadora, as eleições distribuíram seu prêmio a cada partido, foram indiferentes ao projeto presidencial e, mais uma vez, comprovaram a viabilidade da filosofia do diálogo entre movimentos que compartilham ideias similares com respeito a princípios de preservação da natureza, igualdade e justiça sociais.

Aqueles que zombaram daqueles meninos “utópicos” que cuidam das plantas e promovem a bicicleta terão que rever sua compreensão da realidade. As inúmeras pontes que os verdes e os esquerdistas estavam construindo levaram a uma das maiores vitórias verde-vermelho-rosa da história eleitoral do país. O poderoso dogma liberal de crescimento agora enfrenta um novo concorrente: o crescimento verde.

Yannick Jadot, líder político, eurodeputado e a face mais visível dos verdes, falou sobre a aliança entre ecologistas e a esquerda: “o interessante das cidades que elegeram a nossa opção é que elas deram esse voto em favor da ecologia e da solidariedade”. Jadot também acha que seu partido deve liderar uma eventual frente de esquerda para as eleições presidenciais de 2022.

Os ambientalistas sozinhos não têm força para chegar ao poder, e a esquerda sozinha tampouco. Ambos são necessários um para o outro, e também requerem o apoio dos movimentos da sociedade civil (decisivos para as vitórias deste domingo). Juntos, eles constituem uma proposta política robusta, que está apenas começando a dar seus primeiros passos. Hoje, há um ligeiro vestígio daquele mundo impreciso do amanhã.

Os socialistas ficaram satisfeitos com a vitória de Hidalgo na capital, embora a hispano-francesa tenham arrancado o punho e a rosa, símbolos do seu partido, dos materiais de campanha, o que era uma das condições para a aliança com os ecologistas. No caminho para a reeleição, Hidalgo varreu dois ex-ministros, a conservadora Rachida Dati e a “macronista” Agnès Buzyn.

Além disso, também conservaram as prefeituras de Nantes e de Lille. Neste segundo caso, a histórica Martine Aubry ganhou por um pelo, e teve que esperar até o último minuto da apuração, que esteve prestes a cair diante do crescimento ecologista. No entanto, em Toulouse, os socialistas foram sim derrotados pelos Verdes.

Os conservadores, enquanto isso, contam estas batalhas através de suas derrotas, embora continuem sendo o partido com maior presença territorial - seu único consolo é esse, ainda são os que controlam mais municípios, apesar de muitas derrotas, uma pequena recompensa para um partido que perdeu cidades como Marselha, Bordeaux e Estrasburgo.

Uma bagagem ruim para enfrentar o futuro, principalmente porque a extrema-direita cresceu mais uma vez, com a vitória de Louis Aliot em Perpignan, que lhes dará uma vitrine e abrirá uma rachadura no muro que, até agora, os mantém afastados do poder a nível nacional.

Isabella Arria é jornalista chilena residente na Europa e analista associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


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