Pelo Mundo

Na Índia, uma pandemia de preconceito e repressão

O surto do coronavírus permitiu a proliferação do sentimento anti-muçulmano e do autoritarismo

22/04/2020 18:01

Policiais em patrulha durante o bloqueio do coronavírus em Mumbai, na Índia, na semana passada. (Divank Solanki/EPA, via Shutterstock)

Créditos da foto: Policiais em patrulha durante o bloqueio do coronavírus em Mumbai, na Índia, na semana passada. (Divank Solanki/EPA, via Shutterstock)

 
Nova Déli — Por décadas, a Índia abraçou muitos dos ideais que são os pilares de uma democracia liberal. Mas desde a eleição do primeiro ministro Narendra Modi e seu Partido Bharatiya Janata fundamentalista em 2014, viemos experienciando uma erosão do estado de direito e dos direitos políticos e civis e o desencadeamento de uma onda de intolerância contra minorias religiosas.

Infelizmente, boa parte da imprensa indiana tem se mostrado conivente com o ataque à democracia e aos valores seculares conduzido pelo partido, ora ao promover ativamente a narrativa de Modi e seu partido, ora ao se auto-censurar para evitar punições.

Ainda existem jornalistas que mantêm sua integridade e trabalham para sustentar os ideais democráticos da Constituição Indiana. Para esses jornalistas independentes, serem perseguidos pela polícia por falarem contra o establishment vigente já se tornou um rito de passagem.

Como editor e fundador do The Wire, um portal de notícias online independente, já tive minhas desavenças com a lei, principalmente na forma de reclamações difamatórias. Em dado momento, encaramos 14 casos de difamação, todos levianos, buscando danos totalizando 1.3 bilhões de dólares. Os casos foram apresentados por pessoas que ou são parte do establishment vigente ou são consideradas próximas a ele. Desde então, sete casos foram anulados.

Há algumas semanas, o assédio teve uma reviravolta obscura.

Em 1 de abril, fui acusado pela polícia em Ayodhya, no estado nortenho de Uttar Pradesh, de cometer diversos crimes sérios: usar um computador para imitar alguém e transmitir material obsceno; desobedecer instruções de um oficial público; espalhar pânico sobre um desastre eminente; e espalhar rumores com intenção de causar um levante. Alguns desses crimes carregam consigo sentenças de três anos de prisão.

As reclamações policiais, embora vagamente desenvolvidas, deixaram evidente que o governo estava bravo com um artigo do The Wire de 31 de março sobre infecções do coronavírus na sede de uma organização religiosa muçulmana em Déli, o Tablighi Jamaat.

O artigo observou que líderes religiosos e grupos na Índia acordaram tardiamente para os perigos do coronavírus. O ministro chefe de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, que é um sacerdote e um aliado proeminente de Modi, havia participado de uma reunião religiosa em Ayodhya com dezenas de pessoas em 25 de março – o primeiro dia da quarentena nacional para conter a disseminação do vírus.

O Sr. Adityanath havia tuitado um vídeo de si mesmo cercado por outros sacerdotes, oficiais e jornalistas. Muitos dos presentes usavam máscaras, mas a reunião era uma violação explícita ao conselho do governo sobre distanciamento social. O artigo atribuiu erroneamente uma fala ao Sr. Adityanath. As palavras foram proferidas por outro sacerdote de Ayodhya. Publicamos uma correção clara e ágil.

Mencionamos o Sr. Adityanath em nossa reportagem porque as infecções no Tablighi Jamaat estavam sendo exploradas pelo establishment islamofóbico para gerar hostilidade contra muçulmanos. Estávamos lembrando nossos leitores de que nenhuma religião detém o monopólio de seguidores ignorantes. Esse, eu acredito, é o verdadeiro crime que os fundamentalistas hindus que comandam a Índia e Uttar Pradesh pensam que cometemos.

O establishment está muito mais confortável com a campanha de propagandas contra muçulmanos iniciada imediatamente por um setor da imprensa indiana, vilificando membros do Tablighi Jamaat, mirando em mesquitas e seminários. Isso rapidamente se transformou em uma campanha viciosas nas redes com vídeos falsos carregando hashtags como #CoronaJihad.

Previsivelmente, o ódio online chegou ao mundo real. Temos relatos de Uttar Pradesh e outras partes da Índia de vigilantes atacando muçulmanos e reforçando um boicote aos vendedores muçulmanos. Dois bebês morreram após hospitais supostamente se negarem a tratar suas mães. Um hospital do câncer anunciou que não iria admitir pacientes muçulmanos a não ser que apresentassem resultado negativo para o coronavírus.

Nada disso estimulou o governo indiano ou as autoridades estaduais a aplicarem firmemente o estado de direito. Ao invés, em meio à quarentena, policiais foram enviados de Ayodhya para a minha casa em Nova Déli, a quilômetros de distância, para me convocar a responder sobre as acusações.

A data que escolheram para a minha aparição acabou coincidindo com a quarentena, então eles sabiam que eu nunca conseguiria passar pelas fronteiras estaduais. Eles também sabiam que eu não conseguiria me aproximar do tribunal por causa da quarentena, potencialmente me sujeitando ao encarceramento por não comparecimento.

Felizmente, os apelos da sociedade civil por causa dessa intimidação forçaram a polícia a recuar. 36 horas antes do prazo, fui informado que eu poderia enviar uma declaração via email, o que eu fiz.

A bola está agora do lado do governo de Uttar Pradesh. Mas tendo em vista a intolerância geral do Partido em relação a críticas, eu não espero que os oficiais de lá recuem somente por causa de uma emergência de saúde pública.

Ao redor da Índia, a pandemia e a quarentena forneceram uma ocasião para um passe livre aos impulsos autoritários. Mesmo com o Supremo Tribunal da Índia alertando para as autoridades esvaziarem as prisões por causa do coronavírus, o ativista de direitos humanos Gautam Navlakha e Anand Teltumbde, intelectual e professor, foram levados sob custódia na semana passada por uma lei antiterrorista draconiana com as mais inconsistentes das evidências.

Infelizmente, o Supremo Tribunal não escolheu intervir nem no caso deles e nem em uma gama de casos relacionados com direitos humanos. A quarentena, que Modi anunciou em 24 de março, rendeu centenas de milhares de trabalhadores imigrantes sem emprego, comida e abrigo, os forçando a empenhar uma jornada a pé para suas vilas.

Um caso de interesse público foi apresentado no Supremo Tribunal da Índia buscando por apoio para esses trabalhadores aflitos.

A polícia está mirando em jornalistas e até cidadãos que estão usando as redes sociais para relatos e comentários que mostrem o governo de forma ruim. Na quarta passada, no estado de Gujarat, um advogado respeitado foi incriminado com discurso de ódio por um tuíte sarcástico. A maioria desses casos não resulta em nada, mas a polícia indiana sabe que o processo é a punição.

Uma quarentena nacional é precisamente o período no qual jornalistas em uma democracia precisam estar livres para escrever e reportar sem se preocupar com uma visita à meia noite. Somente fazendo o nosso trabalho podemos garantir que não somente cidadãos comuns saiam dessa pandemia vivos, como também sua democracia sobreviva.

*Publicado originalmente em 'The New York times' | Tradução de Isabela Palhares



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