Pelo Mundo

Não ao pinkwashing israelense

 

20/11/2020 17:01

(Kurt Bauschardt)

Créditos da foto: (Kurt Bauschardt)

 
Na próxima semana, de 23 a 27 de novembro, acontece em ambiente virtual o Fórum de Turismo LGBT do Brasil. Entre os patrocinadores, o Ministério do Turismo de Israel no Brasil, que realizará workshop no dia 24. Uma excelente oportunidade ao pinkwashing. O termo significa "lavar de rosa", no caso, a imagem de Israel.

Trata-se, como ensina a campanha BDS (boicote, desinvestimento e sanções), de propaganda oficial sionista, que cinicamente explora a justa causa LGBT para encobrir seus crimes contra a humanidade.

"Essa lavagem, em linha com o mito autoproclamado de 'única democracia do Oriente Médio', retrata o país como um 'paraíso LGBT'. Ela também tem a vantagem de reafirmar um imaginário orientalista, no qual todas as sociedades árabes e/ou muçulmanas seriam retrógradas e tirânicas. Apesar do apartheid e da ocupação colonial promovidos por Israel, o pinkwashing permite ao país promover-se como um porto seguro LGBT em meio à barbárie, um bastião de valores liberais ocidentais num ‘oceano de tirania’”, explica Gabriel Semerene em artigo publicado na Revista Geni intitulado “Israel lava mais rosa”.

Além da representação orientalista, Semerene explica que “a ocupação colonial da Palestina e o apartheid implantado pelo Estado de Israel afetam igualmente pessoas LGBT palestinas, que não são um grupo social à parte. Têm familiares, amigos e parceiros discriminados, encarcerados e assassinados por Israel, e são elas mesmas visadas pela ocupação”.

Discurso x realidade

Esse é exatamente o argumento usado por Carolina Dias, relações públicas do Ministério do Turismo de Israel no Brasil, em entrevista ao Brasilturis Jornal sobre a participação e importância do Fórum: “A única democracia da região recebe a diversidade de braços abertos, especialmente em Tel-Aviv, considerada a capital gay do Oriente Médio. A cidade promove anualmente a sua Parada do Orgulho, com investimento do poder público e participação maciça de toda a população. Tel-Aviv é energia pura e, durante a Pride, é muito bonito ver as famílias nas ruas celebrando a diversidade.”

E vai mais longe, em declaração que só pode ser entendida como um escárnio: “Participamos de todas as edições do Fórum porque acreditamos que o treinamento é o caminho para termos uma sociedade mais igualitária, com respeito aos direitos humanos e à liberdade de cada um.”

Dias distorce a realidade. Omite a LGBTfobia em Israel e o racismo contra os palestinos – os 1,8 milhão remanescentes em 1948 após a Nakba (catástrofe) com a criação do Estado sionista em 15 de maio daquele ano estão submetidos a 60 leis discriminatórias.

O apartheid é institucionalizado. Os milhões que vivem na Cisjordânia, Palestina ocupada em 1967, são obrigados a conviver com checkpoints e um muro da segregação que já alcança 700km de comprimento e nove metros de altura, além de milhares de colonos sionistas violentos, prisões políticas, ordens de demolição e expulsão de casas, usurpação de cada vez mais terras férteis e da água. Em Gaza, encontram-se num verdadeiro cárcere a céu aberto, sob cerco israelense criminoso há 13 anos, que impede a entrada inclusive de insumos básicos à sobrevivência, e bombardeios frequentes. Direitos humanos e liberdade são algo muito distante de sua realidade.

Mesmo entre israelenses, essa representação de “paraíso gay” não passa de falácia, como revela artigo publicado no Middle East Monitor em julho de 2019. Segundo o texto, baseado em informação da agência de notícias Reuters, o então ministro da Educação de Israel Rafael ‘Rafi’ Peretz, membro do Knesset [Parlamento sionista], causou mal-estar num governo que prima pelo pinkwashing, ao expressar apoio à chamada "terapia de conversão gay”.

O tema segue em pauta no congresso israelense. Este, após ampla pressão e protestos, aprovou em primeira votação – um ano após a declaração de Peretz –, projeto de lei que proíbe a absurda “terapia”, amplamente condenada por profissionais da saúde mundo afora. Detalhe: a disputa no Knesset não foi tranquila, pelo contrário, houve muita controvérsia. Segundo publicado no Times of Israel, moção liderada pela “oposição” ao governo foi aprovada por 42 legisladores, sob o voto contrário de 36 deles.

Na matéria, o jornal sionista informa: “Embora desencorajada pelo Ministério da Saúde, a prática permanece legal em Israel e ainda é aceita em alguns círculos conservadores e ortodoxos. A legislação proposta apenas proíbe os psicoterapeutas de realizar a terapia de conversão, não os rabinos de continuarem a efetuá-la.” As consequências são gravíssimas e podem levar ao suicídio.

Em debate no Knesset, revelado em reportagem do The Jerusalem Post publicada no último dia 2 de novembro, uma garota de apenas 13 anos relata que a terapia a que foi submetida envolvia ouvir que era preferível que morresse, além de ordens para que se ferisse e dormisse com amigos. Para que a prática seja considerada ilegal, são necessárias ainda mais duas votações no Parlamento israelense.

Enquanto isso, a violência contra a comunidade LGBT cresceu, conforme matéria de fevereiro deste ano no mesmo jornal, 36% em 2019 – em média um caso a cada quatro horas.

Sem “porta rosa”

Em documento intitulado “Por trás da propaganda – Pinkwashing como violência colonial”, a organização palestina queer alQaws denuncia o que será apresentado no Fórum de Turismo: “Guias de viagens israelenses e vídeos promocionais anunciam as praias de Tel-Aviv como um destino para gays – e escondem a realidade de que os turistas estão dançando sobre as ruínas de aldeias palestinas em que houve limpeza étnica. A inclusão de oficiais gays no exército de ocupação israelense é usada como prova de visão liberal, mas para os palestinos a sexualidade do soldado em um posto de controle faz pouca diferença. Todos empunham as mesmas armas, usam as mesmas botas e mantêm o mesmo regime colonial.”

A alQaws continua: “Quando defensores de Israel mencionam palestinos queer, é apenas para pintar um retrato da vitimização individual que reforça um binário entre o atraso palestino e o progressismo israelense. Essas representações sugerem que a sociedade palestina sofre de homofobia patológica e que nenhuma voz dissidente poderia sobreviver por muito tempo dentro dela. Pinkwashing diz aos palestinos queer que a libertação pessoal (e nunca coletiva) só pode ser encontrada escapando de suas comunidades e correndo para os braços de seu colonizador.”

A organização é categórica: “O mito difundido de palestinos encontrando ‘refúgio gay’ nas cidades israelenses vai contra as políticas reais do estado colonial, que tem como premissa a exclusão e destruição dos palestinos – queers, trans ou outros. A fantasia humanitária israelense se desfaz assim que a situação colonial é levada em consideração. Não há ‘porta rosa’ no muro do apartheid.”

E denuncia que sob esse mito de “salvador”, o estado sionista, por meio do pinkwashing, busca silenciar “incansavelmente” a presença do que denomina “um adversário formidável”: um movimento queer palestino que mescla “intransigentemente” a luta contra a colonização e opressão.

Para os palestinos, não há qualquer porto seguro no estado racista, sejam LGBTs ou não. É o que perceberam mais de 150 cineastas internacionais que atenderam ao chamado do BDS e recusaram-se a participar do TLV Fest, o festival de cinema LGBT patrocinado pelo Estado de Israel. Ao invés de se deixarem usar pelo apartheid, à noite de abertura do TLV Fest, em 12 de novembro, participaram de atividade online com queers palestinos em que abordaram o assunto.

Seguindo seu exemplo, denunciar o pinkwashing, agora no Fórum de Turismo LGBT no Brasil, bem como apoiar as organizações que lutam contra a opressão e colonização são bandeiras a serem levantadas pela solidariedade internacional, na luta por justiça. Para que a Palestina seja livre. Do rio ao mar.

Soraya Misleh, jornalista, escritora, autora do livro "Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina", integra a Frente em Defesa do Povo Palestino.



Conteúdo Relacionado