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Não espere que Biden faça um alarde sobre as metas grandiosas dos seus planos de resgate - ele é simplesmente o Sr. Conserto

Ele é simplesmente o Sr. Conserto

07/04/2021 10:43

Joe Biden fala em Columbus, Ohio, durante um evento para apregoar o American Rescue Plan Act de US $ 1,9 trilhão (Leah Millis/Reuters)

Créditos da foto: Joe Biden fala em Columbus, Ohio, durante um evento para apregoar o American Rescue Plan Act de US $ 1,9 trilhão (Leah Millis/Reuters)

 
Com Trump, toda semana era semana da infraestrutura, mas nada foi finalizado. Seu sucessor está evitando a grande venda. É a política do mais esperto.

Joe Biden está embarcando na maior iniciativa governamental em mais de meio século, “diferente de tudo o que vimos ou fizemos desde que construímos o sistema interestadual de vias expressas e desde a corrida espacial décadas atrás”, ele diz.

Mas quando vemos os detalhes, parecem tão chatos quanto conserto de encanamentos.

“Com o Plano de Empregos Americanos, 100% das linhas de serviço e canalizações de chumbo da nossa nação serão substituídas – para que todas as crianças nos EUA possam abrir a torneira ou fonte e beber água potável”, tuitou o presidente.

Você consegue imaginar Donald Trump tuitando sobre consertar canalizações de chumbo?

Biden está animado para reconstruir a “infraestrutura” dos EUA, uma palavra que ele usa constantemente embora possa ser o termo mais estúpido em toda a política pública.

A antiga regra não escrita era que se o presidente quer fazer algo muito grande, ele tem que justificá-lo como algo crítico para a defesa nacional ou convocar a consciência da nação.

A Lei Nacional de Rodovias de Defesa e Interestaduais de Dwight Eisenhower foi feita para “permitir evacuação rápida de áreas de interesse” em caso de um ataque nuclear para transportar munições rapidamente de uma cidade para a outra. É claro, nos anos subsequentes se provou indispensável para o crescimento econômico dos EUA.

O grande investimento estadunidense em educação superior no final dos anos 50 foi impulsionado pelo satélite soviético Sputnik. O propósito oficial da Lei Nacional de Defesa da Educação foi “garantir mão-de-obra treinada de qualidade e quantidade suficientes para alcançar as necessidades da defesa nacional dos EUA”.

John F. Kennedy lançou a corrida para a lua em 1962 para que o espaço “não fosse governado por uma bandeira hostil de conquista”.

Dois anos depois, a “guerra incondicional contra a pobreza” de Lyndon Johnson se baseou na consciência dos EUA em choque com o assassinato de Kennedy.

Mas Biden não está incitando a nação contra uma potência estrangeira, está baseando seus planos em apelos alardeados pela grandeza nacional ou pelo moralismo público.

“Eu fui eleito para resolver problemas”, ele disse, simplesmente. Ele é o Sr. Conserto.

O primeiro desses problemas foi uma pandemia que matou centenas de milhares de estadunidenses – Biden carrega um cartão em seu bolso com o número exato – e que está causando dificuldades econômicas.

Em resposta, o Congresso aprovou o Plano de Resgate de Biden de 1.9 trilhões – as partes mais importantes não são os cheques de 1.400 dólares sendo enviados para milhões de estadunidense, mas sim os cheques de 3.600 por criança para famílias de baixa-renda, o que vai cortar a pobreza infantil pela metade.

Agora com seu Plano de Empregos Americanos de 2 trilhões de dólares, que não apenas financia rodovias e pontes, mas também muitas coisas que a nação negligenciou por anos: escolas, moradias acessíveis, acesso à banda larga, pesquisa básica, energia renovável e a transição para uma economia sem combustíveis fósseis.

Porque Biden não está alardeando essas iniciativas pelo que elas de fato são – grandes investimentos públicos no meio ambiente, para os trabalhadores e os pobres – ao invés de tratar como meros cheques de auxílio e reparos em rodovias? Por que não agitar os EUA com uma visão do que a nação pode ser se ela justamente troca uma economia fraudulenta por um crescimento genuíno de baixo para cima?

Mesmo os títulos oficiais de suas iniciativas – Plano de Resgate, Plano de Empregos e o eminente Plano Família – são anestésicos.

A razão é que Biden quer que os estadunidenses confiem que ele está cuidando dos maiores problemas, mas não quer criar muito agito. O país já está tão dividido e raivoso que qualquer agito é capaz de gerar mais raiva.

Fale demais sobre combater a mudança climática e perca todos cujas sobrevivências dependem dos combustíveis fósseis ou os que não consideram a mudança climática como uma ameaça existencial. Foque em reduzir a pobreza infantil pela metade e perca todos que pensam que a assistência causa dependência. Fale demais sobre tecnologias críticas e perca todos os que pensam que o governo não deveria escolher vencedores.

Cheques de auxílio e reparos em rodovias podem ser chatos, mas são altamente populares. 61% dos estadunidenses apoiam o Plano de Resgate Americano, incluindo 59% dos Republicanos. Mais de 80% apoiam o aumento do financiamento para construção de vias expressas, reparos de pontes e acessos ampliados à banda larga.

Biden fez tudo de modo tão suave que os Republicanos do Congresso e seus apoiadores comerciais não têm nada para criticar exceto sua proposta de pagar pelos reparos com um aumento de impostos das corporações, o que a maioria dos estadunidenses apoia.

Essa é a política esperta. Biden está embarcando em um enorme e atrasado reparo nos pilares físicos e humanos da nação enquanto tenta manter a maior parte de um país amargamente dividido com ele. Pode não ser visto como um trabalho glamuroso, mas quando se está com lama até o joelho é difícil reclamar com o encanador.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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