Pelo Mundo

Não insulte os gorilas comparando-os com Donald Trump

Os gorilas precisam de toda a ajuda que precisarem no momento e serem associados com os piores exemplos de ser humano não é bom para sua imagem.

18/10/2016 18:08

R A HILL ARPS

Créditos da foto: R A HILL ARPS


Eu já estava me sentindo mal pelos gorilas antes do Kumbuka do zoológico de Londres apostar sem êxito pela sua liberdade. Seus aprisionamentos em zoológicos já é algo ruim o suficiente, mas essa semana eu comecei a me sentir afrontado em seus nomes pelo modo que os gorilas estão sendo usados casualmente para justificar o comportamento humano agressivo, e masculino.


No programa Today de quinta-feira, Bruno Monteyne, um analista de investimento do Sanford C. Bernstein, descreveu o impasse entre a Unilever e a Tesco como “dois gorilas em nome da indústria”. Muito pior foi a defesa de Nigel Farage da performance de Donald Trump contra Hillary Clinton como sendo “um grande gorila rondando o palco”. Isso foi no dia depois de ele ter desculpado Trump por dizer “pegue-as pela vagina” sendo o típico “macho alfa” e “o tipo de coisa que homem faz”.


A escapada de Kumbuka do zoológico de Londres, na quinta à noite, em uma primeira impressão, parece justificar o uso do gorila como a imagem de uma criatura agressiva e perigosa preocupada em reafirmar dominância. Aparentemente, Kumbuka tinha uma reputação de “protetor” de sua família, e nessa ocasião ele bateu agressivamente no vidro, antes de escapar pela área dos cuidadores atrás de seu cativeiro.


Mas uma compreensão melhor do comportamento do gorila não indica tais projeções. Mesmo que os gorilas macho, na selva, exibam um comportamento agressivo e possam até matar bebês gorilas, mais frequentemente quando em grupos, o que às vezes conta com muitos machos, eles são gentis e sociáveis.


Primatologistas como Dian Fossey observaram que como qualquer primata, incluindo nós mesmos, os gorilas respondem agressivamente ao stress e à ameaça mas são em maioria pacíficos. Não existem momentos gravados de comportamento “macho alfa” pegando nos genitais ou batendo no peito. Na realidade, toda a ideia do “macho alfa” na natureza – primeiro popularizada por Rudolph Schenkel em seu estudo dos lobos – há tempos vem sendo descreditada. Não existe.


Realizar comparações entre homens agressivos e gorilas é altamente problemático. É antropomorfismo que projeta certas características humanas que quer “naturalizar” ao animais, nesse caso, comportamento masculino sexual de predador ou dominância empresarial e agressão.


Mirar nos gorilas não é algo novo. “Gorila” foi, e ainda é ocasionalmente, usado em seu meio mais século 19, como um insulto querendo indicar estupidez bestial. Agora, no entanto, as projeções de Farage são típicas. “Gorila” é usado como atalho para comportamento masculino agressivo e dominante como a entrada da Wiki deixa clara: “'Gorila de 800lb' é uma expressão em inglês americano usada para uma pessoa ou organização tão poderosa que pode agir sem se preocupar com direitos dos outros ou com a lei”.



É o tamanho de gorilas macho maduros (na realidade, o peso mais certeiro seria 400lb, não 800lb) e a existência de um macho dominante em grupos, que permitiram certa agressividade masculina projetada nos gorilas.


Mas nossa compreensão de seu comportamento também foi distorcida pelos programas de história natural com suas preocupações de “macho alfa” - e ainda mais pela existência dos zoos. Em cativeiros e grupos familiares pequenos, é fácil formar uma impressão de um macho grande dominando sua pequena família.


Zoos também são ambientes altamente estressantes, tornando a agressão uma possibilidade muito real. É relatado que visitantes estavam batendo nas janelas do cativeiro de Kumbuka antes de ele escapar. Quando os cuidadores decidiram atirar em Harambe ainda esse ano no zoo de Cincinnati, os visitantes estavam gritando para o gorila enquanto estava ao lado do menino que resolveu entrar em sua jaula. Há opiniões diferentes sobre se o gorila teria machucado o menino, mas a agressão é certamente uma resposta bem-documentada para o medo e o stress.


Na selva, a dominância masculina é menos surpreendente aos primatologistas; ao invés, eles testemunham comportamento complexo no qual a interação entre mães, e a atenção aos pequenos é tão importante quanto para a coesão dos grupos. O Parque Animal Selvagem Howletts em Kent tem cativeiros maiores e maiores grupos de animais. Ainda é um cativeiro mas permite que vejamos o comportamento do gorila onde a atenção materna e a cooperação de grupo é tão essencial para a natureza do gorila quanto o comportamento dominador de alguns gorilas macho.


Existe, em suma, bases igualmente fortes para chamar uma mãe atenciosa de gorila. Mas isso não satisfaria Farage, que procura não somente naturalizar mas também perdoar certos tipos de comportamento humano, fazendo parecer que tratar mulheres com desprezo é algo eterno e imutável. Os gorilas precisam de toda a ajuda que precisarem no momento e serem associados com os piores exemplos de ser humano não é bom para sua imagem.



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