Pelo Mundo

Não vamos pagar a conta da luz!

Seria ilegal fazer uma campanha para não pagar a luz? Se não fizemos nada, será por medo de que Patricia Bullrich, a ministra de Segurança, feche as lojas que coloquem na vitrine um cartaz como aqueles de Mendoza nos Anos 60?

10/04/2019 11:52

 

 
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 Este texto faz parte do especial "Argentina em Crise"
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O mal-estar com as tarifas de serviços básicos (água, luz, gás) aumentadas diversas vezes por Mauricio Macri é notório. Aparece em todas as pesquisas e está em destaque em todos os protestos. Foi uma das bandeiras da mobilização do dia 4 de abril em todas as praças do país. O mistério se dá porque o mal-estar não se transforma em protesto organizado. Em iniciativa coletiva. Por exemplo, em um movimento para não pagar aas contas de luz.

No passado, houve um caso de revolta popular contra as tarifas altas. O lema era simples: “não pague a luz”. As pessoas escreviam isso sobre os pequenos cartazes colados nas vitrines das lojas de toda a cidade de Mendoza, e representou um dos momentos mais luminosos do chamado “Mendozazo”, o Revolta de Mendoza.

Essas revoltas populares em cidades do interior argentino começaram com o “Cordobazo”, em maio de 1969, que logo comemorará 50 anos.

O grande fator de irritação que provocou o “Mendozazo”, ocorrido entre 4 e 7 de abril de 1972 – portanto, há 47 anos, foi um aumento de 300% nas tarifas de eletricidade da província.

Contra aquele aumento brutal, marcharam os professores e os sindicatos da Confederação Geral do Trabalho (CGT). Também participaram alguns pequenos e médios agricultores. Houve repressão, com mortos e feridos.

A agência de notícias da Universidade de Cuyo recordou que Leonardo Torino e Analía Profera filmaram um documentário a respeito, chamado “Mendozazo”. Também citou o testemunho de Juan Moyano, eletricista que foi um dos milhares de manifestantes reunidos no centro da capital provincial. Ele contou que “a crise era total, a produção não tinha preço, e os agropecuários estavam desesperados. Nas marchas, o povo atirava uvas, porque a fruta não podia ser vendida”. Qualquer semelhança com os “verdurazos” deste ano (quando pequenos agricultores e feirantes começaram a doar produtos que não conseguiam vender, e o fizeram em protesto pela situação econômica, em frente ao Congresso) não é mera coincidência.

Em 1972, o presidente era o general Alejandro Agustín Lanusse, líder do último mandato da autodenominada Revolução Argentina. O período começou em 1966 com Juan Carlos Onganía, e foi seguido por Roberto Marcelo Levingston. Esse ciclo militar terminaria em 25 de maio de 1973.

Em uma ditadura não há válvula de escapa, nem instituições que canalizem as demandas sociais. Será essa a explicação de por que um aumento de 300% gerou a decisão coletiva de não pagar a luz naquela época, e que hoje, em democracia, com um aumento de 2000% se somamos desde 2015, não há nada parecido?

As centrais sindicais estão organizando uma greve, que acontecerá no final deste mês, ou em maio. Até mesmo os dirigentes mais moderados sustentam que é preciso realizar mais protestos, mesmo que não haja greve. As organizações que defendem as pequenas empresas, como CGERA (Confederação Geral Empresarial da República Argentina), participam cada vez mais das reuniões e manifestações nas ruas. São permanentes as queixas dos usuários, sejam eles empresários, comerciantes ou simplesmente as pessoas que precisam racionar o uso dos serviços de água, luz e gás em seus lares. “Elas denunciam o ataque simultâneo de todos os serviços contra os seus bolsos”, resume o prefeito da cidade de San Martín, Gabriel Katopodis. A discussão que o governo adora, sobre se era necessário ou não atualizar tarifas, já não vale nada. A polêmica hoje é se um açougue ou um bar pode pagar a luz, o gás e a água, além dos impostos, e ainda assim sobreviver, considerando que também há queda no consumo.

Seria ilegal fazer uma campanha para não pagar a luz? Se não fizemos nada, será por medo de que Patricia Bullrich, a ministra de Segurança, feche as lojas que coloquem na vitrine um cartaz como aqueles de Mendoza nos Anos 60? Os será que simplesmente ninguém teve essa ideia ainda?

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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