Pelo Mundo

Neoliberais já sonham com a volta ao poder na Argentina

26/06/2007 00:00

http://publicidadpolitica.com.ar/2003baf/2003ba054.jpg

Créditos da foto: http://publicidadpolitica.com.ar/2003baf/2003ba054.jpg
A vitória do candidato conservador, Mauricio Macri, de 48 anos, na eleição para a prefeitura de Buenos Aires, representou uma pesada derrota para o presidente da Argentina, Nestor Kirchner, e animou as forças políticas de orientação neoliberal, que já falam em retornar para a Casa Rosada nas eleições presidenciais de 28 de outubro. A vitória do magnata e presidente do clube de futebol Boca Juniors foi ampla e indiscutível. Macri foi eleito prefeito de Buenos Aires com 60,96% dos votos no segundo turno contra o candidato apoiado por Kirchner, o atual ministro da Educação, Daniel Filmus, que teve 39,04% dos votos. O presidente sofreu ainda uma segunda derrota, na província de Tierra del Fuego, na Patagônia, onde o atual governador, Hugo Cóccaro, peronista e aliado de Kirchner, foi derrotado pela opositora Fabiana Rios, da Alternativa para uma República Igualitária (ARI).

Mas foi mesmo a vitória de Macri em Buenos Aires que animou os setores mais conservadores do país que pretende derrotar Kirchner em outubro próximo. Logo após a eleição de domingo, o economista Ricardo López Murphy, neoliberal convicto, formado na Escola de Chicago, que fundou em 2003, junto com Macri, a aliança de direita Proposta Republicana (PRO), lançou-se à presidência da República, dizendo esperar o apoio do prefeito da capital. Murphy parece apostar que a reação do eleitorado de Buenos Aires em relação à candidatura de Macri possa beneficiá-lo também, em outubro. Durante a campanha eleitoral, a propaganda de Daniel Filmus associou o milionário às políticas neoliberais que dominaram a Argentina na década passada, levando o país a mais grave crise de sua história. Não funcionou. Macri usou o discurso da esperança contra o medo, beneficiando-se de sua grande popularidade como presidente do Boca Juniors que, alguns dias antes da eleição, havia conquistado a Taça Libertadores da América.

As pesquisas ainda apontam Kirchner como favorito para vencer as eleições presidenciais, mas ele ainda não anunciou se concorrerá à reeleição. Há a possibilidade de que ele apóie sua esposa, a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner. No lado da oposição, quem também está postulando a candidatura presidencial é o ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, cujo nome conta com o apoio de peronistas dissidentes e dos partidários da União Cívica Radical (UCR). Mais à esquerda, mas também contra Kirchner, aparece Elisa Carrió, da ARI, que ganhou fôlego com a vitória na Patagônia, território do atual presidente. Kirchner tem ao seu favor uma imagem positiva junto à maioria da população e a recuperação econômica do país, após a grave crise que deixou milhões de argentinos sem emprego.

O passado de Macri
Macri, por sua vez, já é forte candidato às eleições presidenciais de 2011. Na disputa deste ano, atuara como fiel da balança na hora de definir a candidatura conservadora. Já conseguiu um feito. Ele é primeiro representante de uma força política de direita que vence uma eleição em Buenos Aires. Mas a maioria do eleitorado de Buenos Aires não associou o nome de Macri à crise que levou milhares de argentinos às ruas, há quatro anos. O grupo econômico que pertence à família de Macri cresceu e se fortaleceu durante a última ditadura militar (1976-1983) e, nos anos 90, com o processo de privatizações conduzido pelo governo de Carlos Menem. Aliados do ex-presidente, aliás, apoiaram Macri na disputa em Buenos Aires. Na campanha, o presidente do Boca Juniors rejeitou essas associações, usando o velho discurso de que é preciso olhar para o futuro. “Chega de agressões, chega de fantasmas do passado, chega de ressentimentos daqui para frente”, repetiu durante o debate eleitoral.

Um dia depois da vitória de Macri, Kirchner partiu para a ofensiva e criticou a atuação de setores da imprensa no processo eleitoral. “Alguns jornalistas querem que eu perca de qualquer maneira. Parece que eu não posso fazer nada. Quando quero ir a um lugar e falar, e há eleições, dizem que não porque essa eleição e local. E, se não vou, dizem que é nacional e que o presidente perdeu”, desabafou o presidente durante um ato na sede do governo. A avaliação praticamente unânime da imprensa argentina foi nesta direção. “Dupla queda de Kirchner”, disse o jornal La Nación em sua manchete. Já o Clarín, jornal de maior tiragem na Argentina, apontou uma “clara vitória da oposição” na eleição de domingo. E o Página 12 destacou o fato de a direita ter conseguido estabelecer uma “cabeça de praia” no coração político do país.

O saldo político da eleição em Buenos Aires foi paradoxal: a cidade que viveu uma grande rebelião popular contra os políticos que afundaram o país em uma crise sem precedentes acabou elegendo como prefeito justamente um representante dos setores políticos e econômicos que gestaram essa crise. Animados com esse resultado, lideranças conservadoras já falam do “início do fim do populismo” na Argentina e, em seguida, na América do Sul.



Conteúdo Relacionado