Pelo Mundo

New York Post é um idiota útil de Putin

 

15/10/2020 15:40

(Susan Walsh/AP)

Créditos da foto: (Susan Walsh/AP)

 

Um laptop recentemente descoberto, o FBI, um punhado de emails, outubro, uma eleição presidencial - esse conjunto soa familiar. Especialmente quando você adiciona uma campanha russa de desinformação. Na quarta-feira (14), o New York Post divulgou o que saudou com entusiasmo como uma bomba: um dono de loja de consertos de computador não identificado, em Delaware, estava de posse de um laptop que continha e-mails de Hunter Biden (e supostamente uma fita de sexo), o disco rígido e o computador foram apreendidos por o FBI, o dono da loja em algum momento passou uma cópia do disco rígido para Rudy Giuliani, e um dos e-mails sugeria que Hunter, que atuou no conselho da empresa ucraniana de energia Burisma, pode, em 2015, ter apresentado um funcionário da empresa a seu pai, o vice-presidente Joe Biden. A história descreve isso como um grande escândalo, e Giuliani tuitou: "muito mais ainda está por vir."

Mas o ponto-chave do artigo é baseado em informações falsas que Giuliani vem divulgando há muito tempo - e que parecem estar ligadas a uma operação de desinformação russa que o Post negligenciou em seu artigo. Ou seja, o artigo do Post, baseado em uma calúnia não comprovada, está em sincronia com o esforço contínuo de Moscou para influenciar a eleição de 2020, para ajudar o presidente Donald Trump a manter o poder. (O FBI e outros componentes da comunidade de inteligência dos EUA declararam que Vladimir Putin está mais uma vez atacando o sistema político dos EUA para impulsionar Trump.) E esta história representa um desafio para a mídia norte-americana: como relatar uma campanha orquestrada para afetar a eleição que conta com desinformação, material lascivo e sensacionalista e reavivamento de denúncias já desmascaradas.

A má-fé que anima a história do Post é demonstrada por sua aceitação aberta - na primeira frase - de uma narrativa comprovadamente falsa e por sua falha em relatar a associação de Giuliani com um agente de inteligência russo que o Departamento do Tesouro acusou de interferir nas eleições de 2020.

O artigo começa: "Hunter Biden apresentou seu pai, o então vice-presidente Joe Biden, a um alto executivo de uma empresa de energia ucraniana menos de um ano antes de Biden pai pressionar funcionários do governo na Ucrânia a demitir um promotor que estava investigando a empresa, de acordo com e-mails obtidos pelo jornal The Post." A alegação de que Biden forçou a demissão de um promotor ucraniano para proteger a Burisma tem sido a peça central do longo esforço de Giuliani, insuflado pela Fox (em nome de seu cliente Donald Trump) para desenterrar sujeiras de Biden na ex-república soviética.

Biden em 2016 pressionou pela demissão deste promotor, Viktor Shokin, mas não há indícios de que isso tenha sido feito para ajudar a Burisma. Na verdade, há uma porção de de evidências de que Shokin foi demitido por causa de sua própria corrupção. Não havia qualquer investigação ativa sobre a Burisma no momento de sua demissão. (A ausência de tal investigação foi mesmo citada na época como um sinal da má conduta de Shokin) E como foi amplamente documentado, o esforço de Biden para que Shokin fosse demitido era parte de um esforço internacional para pressionar o governo da Ucrânia a se limpar para receber ajuda financeira. (Vários senadores republicanos também pediram a remoção de Shokin.) No entanto, Trump e outros alegaram falsamente que Biden odiosamente queimou Shokin para encobrir supostos delitos da Burisma.

Repetir essa acusação infundada é um ato de propaganda do Post. O e-mail que o tabloide considera uma grande notícia sugere que, em 2015, Hunter apresentou um membro do conselho da Burisma a seu pai. O jornal dá a entender que isso estava de alguma forma relacionado com o pedido de demissão, por Biden, de Shokin no ano seguinte. Se não havia nada adverso em Biden pressionar o governo ucraniano para substituir Shokin, certamente não há nada necessariamente escandaloso em Biden ter se encontrado com o membro do conselho. Além disso, o e-mail de 2015 para Hunter - que simplesmente diz, “obrigado por me convidar para DC e dar a oportunidade de conhecer seu pai” - não revela nada sobre qualquer conversa que o membro do conselho possa ter tido com o vice-presidente. Nem mesmo está confirmado que esta reunião ocorreu. (A campanha de Biden emitiu um comunicado dizendo que revisou a programação de Joe Biden e nenhuma reunião "jamais aconteceu".)

O Post não fornece nenhuma informação conectando esta troca de e-mail e o caso Shokin. Mas o jornal de Rupert Murdoch está usando esse único e-mail para ressuscitar o escândalo ucraniano que Giuliani vem tentando desencavar há mais de um ano. (Esta cruzada incluiu a tentativa de arrecadar US$ 10 milhões para fazer um documentário que seria lançado antes da eleição.) E não nos esqueçamos que foi a busca de Giuliani e Trump por mazelas ucranianas que levou ao impeachment de Trump.

A inteligência russa, do mesmo modo, tem tentado disseminar desinformações relacionadas à Ucrânia para conspurcar Biden. Essa foi uma constatação do recente relatório do Comitê de Inteligência do Senado, apoiado pelos republicanos, sobre a intervenção russa nas eleições dos EUA. A operação russa se sobrepôs ao esforço de Giuliani. Mas o Post deixou este fato inconveniente fora de sua história.

No mês passado, o Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções financeiras a um parlamentar ucraniano chamado Andriy Derkach — filho de um ex-funcionário da KGB — e o qualificou como "um agente russo ativo por mais de uma década" e declarou que ele era um de um grupo de "atores de interferência eleitoral ligado à Rússia". O Tesouro disse que Derkach manteve "estreitas conexões com os Serviços de Inteligência russos" e "se envolveu direta ou indiretamente, patrocinou, escondeu ou foi cúmplice na interferência estrangeira na tentativa de minar as próximas eleições presidenciais dos EUA em 2020". O próprio secretário do Tesouro de Trump, Steve Mnuchin, declarou: "Derkach e outros agentes russos empregam manipulação e fraude para tentar influenciar eleições nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo". Anteriormente, o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional disse ao Congresso que Derkach estava "espalhando alegações sobre corrupção" como parte do esforço do Kremlin para minar a campanha de Biden. E trabalhou com Guliani para fazer isso.

Giuliani tem um papel de protagonista na história do Post. O dono da loja de reparos de computador de Delaware deu uma cópia do disco rígido do laptop para Giuliani (algum tempo depois de dezembro passado), e no último fim de semana Giuliani compartilhou uma cópia com o Post. (No final de setembro, o ex-conselheiro de Trump e recentemente indiciado Steve Bannon informou ao jornal sobre a existência do disco rígido.) Como parte de sua campanha de difamação de Biden, Giuliani no final do ano passado viajou para a Ucrânia e se reuniu com Derkach e outros ucranianos que têm impulsionado a história falsa de Shokin.

Neste verão, Giuliani disse ao Washington Post que manteve contato com Derkach após sua viagem, chamando o ucraniano de "muito útil". Ele disse que ele e Derkach falaram sobre a Ucrânia muitas vezes, de acordo com o Post. Enquanto isso, a partir de maio, Derkach deu entrevistas coletivas em Kiev e tocou secretamente fitas gravadas de Biden falando por telefone com o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko. Derkach afirmou que as gravações apoiavam as alegações de Trump e Giuliani sobre Biden. No entanto, as fitas não revelavam nenhum delito. Isso pareceu ser um golpe de desinformação, e os ucranianos críticos da Rússia especularam que as fitas se originaram da inteligência russa.

Nada disso está na história do Post. No penúltimo parágrafo, o jornal cita um advogado de Hunter Biden acusando Giuliani de "confiar abertamente em atores ligados à inteligência russa". Mas a conexão de Giuliani com Derkach não é mencionada no artigo. Nem o nome de Derkach aparece em qualquer lugar da matéria. O veículo de Murdoch ignora a informação elementar - e crucial - de que a Rússia está montando uma operação de guerra de informação para a eleição de 2020 com objetivo de prejudicar Biden e que esta conspiração inclui os esforços de Derkach para contaminar Biden. Deixar de fora a ligação documentada entre Giuliani e um agente russo envolvido em um esquema de desinformação é uma grave negligência jornalística.

Não é nenhuma surpresa que os ‘Murdochitas’ se envolvessem em tais reportagens ao estilo Trump. O artigo foi coescrito por Emma-Jo Morris, uma ex-produtora de segmentos da Fox News para o apresentador Sean Hannity e ex-funcionária de comunicação da Conservative Political Action Conference. Um outro artigo do Post afirma que Hunter Biden tentou explorar a visita de seu pai à Ucrânia, mas um memorando escrito por Hunter, que a história cita, mostra Hunter dizendo a seu parceiro de negócios que "o que [Biden] vai dizer e fazer está fora de nossas mãos" e que eles deveriam “moderar as expectativas” sobre a visita - o que anula a alegação de que Biden usou seu escritório para ajudar ou proteger seu filho. Nesse memorando, Hunter também afirma que seus associados ucranianos "precisam saber, em termos claros, que não vamos e não podemos intervir diretamente com os formuladores de políticas domésticas"— em outras palavras, ele não usará sua influência com o pai. A história do Post não relata isso.

O Post, a Fox e a campanha de Trump tentarão transformar essa desinformação e qualquer outra coisa que possa estar naquele laptop em uma ‘Surpresa de Outubro’. A grande questão é como o resto da mídia vai lidar com isso, especialmente se Giuliani ou outros continuarem vazando outros materiais (que podem ou não ser legítimos) deste computador. Os repórteres de outros meios de comunicação repetirão os erros de 2016 e se concentrarão obsessivamente nessas pistas, sem examinar a fonte ou investigar a operação que os colocou em ação? Eles irão, deliberadamente ou não, ajudar em um estratagema óbvio para gerar manchetes que sugerem que há um novo escândalo sobre alegações antigas (e já contestadas)? Eles vão cair nessa?

Na manhã de quarta-feira, a repórter do New York Times, Maggie Haberman tuitou a história do Post e sua manchete referindo-se a um "e-mail comprometedor". Posteriormente, ela postou tuítes que revelavam uma visão mais cética da história. Para seu crédito, Chris Megerian, correspondente da Casa Branca para o Los Angeles Times, rapidamente apontou: "a história não diz que as alegações de corrupção ucraniana foram impulsionadas pela Rússia para minar Joe Biden, de acordo com funcionários da inteligência dos EUA. Também não menciona que Rudy Giuliani trabalhou com um legislador ucraniano identificado como um agente russo." O executivo do Facebook Andy Stone observou que o gigante das mídias sociais limitaria a distribuição do artigo do Post em sua plataforma.

O resto da mídia lidará com essa história com responsabilidade? Thomas Rid, especialista em ciber e desinformação na Johns Hopkins School of Advanced International Studies, tuitou um tópico pedindo cautela. "Isso aqui é um comportamento altamente suspeito", observou. "Especialmente quando visto no contexto de uma campanha política. Criativo, anônimo, gerador de credibilidade, um tanto plausível. Exatamente como um profissional traria à tona desinformação e potencialmente falsificação." Ele observou que "os e-mails revelados são compartilhados como arquivos de imagem, não em um formato de arquivo que conteria informações de cabeçalho e metadados. Isso torna mais difícil a tarefa de analisar e verificar os arquivos." E Rid emitiu um aviso: "aos jornalistas que estão avaliando escrever sobre essa história tóxica: não o façam — a menos que você possa verificar independentemente mais detalhes. E mesmo que você possa verificar algo, reconheça antecipadamente a possibilidade de desinformação, especialmente no contexto de 2016. Não fazê-lo é má prática.

Em 2016, a Rússia atacou uma eleição norte-americana e cumpriu sua missão de eleger Trump — em parte porque grande parte da mídia, ao longo de outubro daquele ano, se concentrou nos e-mails relacionados a Hillary Clinton hackeados e vazados pela operação secreta de Putin sem prestar muita atenção ao próprio ataque do Kremlin. Em 2020, Moscou, de acordo com os principais funcionários de inteligência do governo Trump, está nisso novamente. Assim, alegações ou histórias que possam estar ligadas ou criadas pela operação secreta em curso da Rússia devem ser examinadas cuidadosamente antes de serem relatadas ou amplificadas. Os jornalistas devem resistir a se tornarem servos na última guerra de Putin contra os Estados Unidos. Especialmente agora que o New York Post forneceu a todos os repórteres um tutorial maravilhoso sobre como ser um idiota útil para a Rússia.

*Publicado originalmente em 'Mother Jones' | Tradução de César Locatelli

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