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Nicarágua. Carlos Mejía Godoy vai para o exílio devido à perseguição do regime de Ortega

A história parece se repetir na Nicarágua, quarenta anos depois. Carlos Mejía Godoy, o mítico cantor da Revolução Popular de 1979, e criador da universal Missa Campesina Nicaraguense, viu-se obrigado a se exilar em San José de Costa Rica, a raiz de seu compromisso militante com o povo, que se traduziu em uma nova safra de canções inspiradas na insurreição cívica que vive o país contra a ditadura de Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo

06/08/2018 12:39

 

 
A história parece se repetir na Nicarágua, quarenta anos depois. Carlos Mejía Godoy, o mítico cantor da Revolução Popular de 1979, e criador da universal Missa Campesina Nicaraguense, viu-se obrigado a se exilar em San José de Costa Rica, a raiz de seu compromisso militante com o povo, que se traduziu em uma nova safra de canções inspiradas na insurreição cívica que vive o país contra a ditadura de Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo.

A reportagem é de Israel González Espinoza, publicada por Religión Digital, 04-08-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.

Mejía Godoy declarou ao jornal La Prensa que foi alertado de que sua vida corria perigo, após iniciar um turbilhão de canções alusivas aos protestos populares contra o regime orteguista.

Carlos Mejía Godoy nos protestos contra Daniel Ortega. Foto: Religión Digital

"Tive que sair da Nicarágua, porque minha vida estava em risco", afirmou o autor de "Son tus perjúmenes, mujer", ao jornalista Arnulfo Agüero.

Carlos Mejía Godoy garantiu que voltará à Nicarágua quando existirem as condições que ele considerar melhores para sua segurança, e também assinalou que utilizará sua arte para fazer ouvir a voz do povo da Nicarágua, algo que já fez na Espanha da transição, durante seu exílio, em 1977.

"Tive que sair sem avisar a ninguém, de forma urgente da Nicarágua. Fui recomendado que abandonasse o país o quanto antes. Permaneci na Nicarágua o tempo que pude, mas saí em exílio porque considero que minha voz fora da Nicarágua também é importante", enfatizou o compositor de "Clodomiro, el ñajo".

Carlos Mejía Godoy nos protestos contra Daniel Ortega. Foto: Religión Digital

Mejía Godoy pediu a Ortega para parar com a repressão contra o povo

Cabe destacar que Mejía Godoy, em julho, precisamente antes da comemoração partidária organizada pelo regime para celebrar o 39º aniversário da queda da ditadura de Anastasio Somoza Debayle, escreveu uma forte carta aberta a Daniel Ortega, intitulada "Daniel: pare já esta barbárie", na qual obrigava o ex-líder de esquerda a parar com a repressão contra o povo, que clama por uma efetiva democratização do país.

"Daniel: completei 75 anos de idade. E cinquenta (meio século) de cantar a realidade de meu povo. Dou-te uma má notícia. Nunca irei me aposentar, porque, como sabes, OS PÁSSAROS NÃO SE APOSENTAM. Por isso aqui estou, mais entregue do que nunca, à causa da liberdade, da justiça e da decência, como dizia SANDINO, de Niquinohomo, o “legítimo”, não aquele que vocês desfiguraram à sua imagem e semelhança", começava a carta do compositor de "El canto de los pájaros".

Na referida carta aberta - que foi lida ao vivo durante a transmissão do programa Esta Semana [U3] da rede Nicavisión, canal 12, em horário nobre -, Carlos Mejía acusava Ortega de exercer "um cinismo sórdido" e de executar um genocídio sistemático contra os nicaraguenses desde o dia 19 de abril.

"Em nome deste DEUS, que te enche a boca e a alma. Em nome deste DEUS, que está vendo este holocausto, pare de matar. Já, Daniel. Pare de matar", implorava na televisão nacional o cantor e compositor por excelência da Nicarágua.

As ameaças contra Mejía Godoy não demoraram a chegar, e inclusive atingiram os filhos do artista, aos quais ele também escreveu uma carta aberta, em que lhes pedia perdão por assumir uma postura beligerante diante da crise nicaraguense, e os afetava em sua vida privada.

"Apelo para que denunciem os ataques daqueles que se escondem no anonimato para lançar, covardemente, podridão e lixo contra vocês, pois esses ataques são tão criminosos como os que se perpetuam com armas físicas letais. Diz o Papa Francisco, que tão terrorista quanto quem instala uma bomba, é o que lança uma calúnia contra o próximo", expressou Mejía Godoy na carta aberta a seus filhos.

Carlos Mejía Godoy nos protestos contra Daniel Ortega. Foto: Religión Digital

Elogio ao trabalho da igreja nicaraguense

Na sequência da brutal repressão desatada pelo regime de Ortega, Carlos Mejía Godoy compôs diversas canções para honrar a memória dos jovens universitários que lideraram a luta do povo nicaraguense, exigindo democracia para seu país.

"Los héroes de abril", "Las madres de abril", "Soy Álvarito Conrado" e "Monimbó, siempre con vos", são algumas das canções mais recentes que Mejía Godoy compôs em consequência dos protestos iniciados em 18 de abril.

Após a agressão que sofreram os bispos Leopoldo Brenes e Silvio José Báez, junto ao Núncio Apostólico Waldemar Stanislaw Sommertag, na Basílica de San Sebastián de Diriamba no último dia 9 de julho, por parte de multidões e paramilitares do regime orteguista, Mejía dedicou a eles uma canção onde elogia "sua forte valentia" e que espera que "nunca o bando" possa lhes causar algum dano.

Os temas acima mencionados aparecem no novo material discográfico de Mejía Godoy, intitulado "Los Héroes de Abril".

Cabe destacar que antes de partir ao exílio na Costa Rica, o cantor e compositor entregou um exemplar do novo CD ao Monsenhor Silvio José Báez, com a seguinte dedicatória: "Para meu querido e admirado Monsenhor Báez. Com carinho e respeito deste modesto trovador".

Monsenhor Báez respondeu ao presente com a seguinte publicação, através de seu perfil no Facebook: "Agradeço ao meu querido amigo Carlos Mejia Godoy que hoje gentilmente me presenteou com seu recente CD “Héroes de Abril”. Obrigado, Carlos, compartilho contigo o orgulho de ser nicaraguense e o sonho de uma nova Nicarágua!".
 




Publicado originalmente no IHU On-Line

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