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Nicarágua: Governo manda o povo para a rua na Páscoa, porque a covid-19 é o ''ébola dos ricos''

Não há ordens de confinamento ou de isolamento social, os médicos não podem usar máscaras para não assustar os doentes e nas ruas andam nazarenos e virgens. O que quer o Governo de Ortega e de Murillo em tempo de pandemia?

10/04/2020 17:11

Um dia normal numa rua de Manágua na quarta-feira (Jorge Torres/EPA)

Créditos da foto: Um dia normal numa rua de Manágua na quarta-feira (Jorge Torres/EPA)

 

O bispo de Matagalpa, a maior cidade do Norte da Nicarágua, cancelou as celebrações da Páscoa e quis usar os recursos da sua diocese para criar seis centros de prevenção da covid-19. A meio da semana, o Governo proibiu-o de os abrir e a vice-presidente, Rosario Murillo, acusou o bispo de estar a “fazer teatro” e considerou os planos de monsenhor Rolando Álvarez “efeminados e decadentes”.

Os planos do bispo chocavam de frente com a política que a equipa do Presidente Daniel Ortega traçou para gerir a pandemia do coronavírus, que já infectou 1,6 milhões de pessoas em todo o mundo e matou 97.200. Para o Governo de Manágua, a covid-19 é “o ébola dos ricos”, a que a Nicarágua está praticamente imune porque o país tem “um excelente sistema de saúde”, como disseram responsáveis políticos citados pela edição para a América Latina do El País.

Não foi declarado estado de emergência, não foi feito apelo ao isolamento ou ao distanciamento social, não foi decretado o fecho das actividades não essenciais. E, na semana passada, Rosario Murillo, que parece estar a dirigir o país no lugar de Ortega, o Presidente de 74 anos não é visto em público desde 12 de Março, mandou o povo para a rua toda esta semana, festejar a Páscoa ainda com mais afinco do que noutros anos.

“Aumentar e desenvolver” as actividades da Páscoa, foi a ordem de Murillo a todos os municípios, que avançaram com as procissões, as festas de rua, os festivais aquáticos e os jogos desportivos com que o Governo quer assinalar também a chegada do Verão. Ao programa de actividades foi chamado “Verão 2020: Nicarágua, toda doce, com amor”.

“A nossa Nicarágua, de amor, de paz, toda doce, esta Nicarágua que percorremos quando visitamos a nossa família, esses municípios com tanta cultura local, com tanto sentido, valores de família e comunidade, um tesouro, um património que guardamos zelosamente”, disse a vice-presidente ao anunciar a iniciativa. E a semana santa, esclareceu o porta-voz do Governo, devia ser vivida com “festas, competições” e outras actividades “apropriadas à época”.

Entre os planos para o "Verão 2020” e a Páscoa, a covid-19 espalhou-se pelo mundo. Mas aos médicos nicaraguenses o Governo deu ordem para não usarem máscaras ou luvas, para não assustarem os doentes, relata a Univision.

Qual é a estratégia?

Ninguém sabe exactamente qual é a estratégia do Governo para a pandemia. Mas há um plano nacional, a que foi dado o nome de “Amor em tempos de covid-19”, que se concretizou com a realização de uma marcha patriótica e a iniciativa “Visitas a casa”, em que técnicos visitaram os cidadãos para lhes explicar o que é a doença.

Segundo a Univision, as visitas a casa resultaram também na activação dos comités partidários nos bairros – a Frente Sandinista de Ortega, de esquerda socialista na sua origem, está no poder no país –, e há relatos de pessoas agredidas nos bairros por usarem máscaras.

Ainda assim, diz o El País, muitos cidadãos optaram pelo isolamento voluntário, as escolas particulares foram fechadas (as públicas fecharam para as férias da Páscoa, mas antes houve advertências de que podia haver expulsões se alunos ou professores faltassem), algumas empresas pararam e a Igreja Católica acabou com as missas presenciais para evitar o contágio, cancelando as celebrações pascais, o que não foi bem visto por muitos autarcas.

Quando a diocese de Granada (Sul) cancelou as actividades da semana santa, a Frente Sandinista local acusou a Igreja Católica de estar a privar a população das festividades “que são uma forma de fortalecer a fé para todos regressarem a casa cheios de paz e tranquilidade”.

Dando seguimento à ordem do Governo, as autarquias avançaram com os programas de festas. E, relata o El País, actores e populares vestidos de nazarenos, de soldados romanos e de virgens dolorosas saíram para a rua em muitas localidades, mesmo em Granada, e vão voltar a sair durante o fim-de-semana, nas actividades organizadas pelo Instituto Nicaraguense do Turismo, para “reposicionar” o país como destino de férias neste momento em que o mundo está parado e confinado.

Poucos arriscam perceber esta espécie de negacionismo do regime de Ortega e Rosario Murillo. Há quem explique que se trata de uma forma de evitar uma aceleração na derrocada económica do país, que entrou em recessão há dois anos, período em que se adensou a repressão já implantada devido à vaga de protestos. O regime trata de evitar um novo pico na crise e uma nova onda de protestos, quando as eleições se aproximam – há presidenciais em 2022.

Do lado do Governo, apenas uma pessoa deu uma explicação para a ausência de medidas de prevenção da propagação da covid-19, Martha Reyes, a nova ministra da Saúde desde o dia 1 de Abril, que disse que é preciso apoiar a economia.

Dúvidas sobre os números

Dos organismos regionais, só um reagiu à falta de medidas para travar a pandemia na Nicarágua. A Organização Pan-Americana de Saúde afirmou-se “preocupada” com a atitude de Manágua. “Preocupa-nos as aglomerações, a falta de distanciamento social e a falta de rastreio” disse a directora, Carissa Etienne, citada pela agência EFE.

As autoridades da Nicarágua dizem que há sete casos no país (todos importados, garante, o que sugere que não há contágio local) e que houve apenas um óbito, números baixos de que alguns duvidam, sobretudo porque três casos notificados por Cuba tiveram origem na Nicarágua.

O epidemiologista Leonel Argüello, um dos fundadores do Ministério da Saúde da Nicarágua, que também falou à EFE, é um dos que duvida dos números. “O que chama a atenção é haver mais casos nos outros países da região do que aqui. E que quando tínhamos cinco doentes, a taxa de mortalidade foi de 20%, o que é altíssima quando comparada com a Guatemala que tinha uma taxa de mortalidade de 1%”, explicou.

“O que mais me preocupa é não haver um programa forte de prevenção, que não se esteja a alertar as pessoas”, concluiu Argüello.

O bispo de Matagalpa tratou de se proteger num país onde o Governo e a Igreja Católica são inimigos: “Quero deixar claro perante o povo que nós, como diocese, quisemos trabalhar pela saúde do povo e não nos foi permitido”.

*Publicado originalmente em 'Público'

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