Pelo Mundo

No parlamento, Murdoch se esquiva das escutas ilegais

19/07/2011 00:00

The Guardian

Créditos da foto: The Guardian
Como se faltasse algum ingrediente para que a história dos grampos ilegais praticados dentro das redações dos jornais do grupo de Rupert Murdoch virasse uma crise tão grandiosa quanto uma manchete de tabloide exagerada, o caso acaba de ganhar um cadáver.

Um dia antes de Rupert Murdoch e seu filho serem ouvidos no Parlamento britânico sobre o caso, Sean Hoare, um ex-funcionário do jornal do clã foi encontrado morto em sua casa em Watford, a noroeste de Londres. Ex-repórter do The Sun e do News of The World, Hoare foi o primeiro jornalista a afirmar que Andy Coulson - ex-editor do News of The World e conselheiro político do primeiro ministro conservador David Cameron - sabia da prática de invasão das mensagens de correio de voz no jornal. [1]

Hoare apareceu em uma reportagem do The New York Times de setembro do ano passado acusando Coulson, seu editor, de incentivar as escutas ilegais. O jornal descreve-o como tendo sido um amigo próximo do ex-conselheiro de David Cameron. “Os dois homens primeiro trabalharam juntos no The Sun, onde, diz Hoare, ele reproduziu fitas com gravações de mensagens grampeadas para Coulson. No News of the World, Hoare disse ter continuado a informar Coulson de suas buscas. Coulson 'ativamente me encorajou a fazê-lo', disse Hoare”, publicou o jornal norte-americano. [2]

Na semana passada, Hoare voltou a falar para o jornal norte-americano, dessa vez para afirmar que era possível pagar a polícia para rastrear o sinal de telefones celulares de pessoas que estivessem na pauta do jornal e descobrir os seus paradeiros em tempo real. [3]

A polícia britânica considera a morte de Hoare “inexplicada, porém não acredita ser suspeita”.

Enquanto médicos forenses trabalham para esclarecer as circunstâncias da morte de Hoare, na tarde desta terça-feira, Murdoch vivia o seu “dia de maior humildade”. Declaração que ganha força na medida em que vem da boca de um homem que acaba de ser forçado por pressão de anunciantes a fechar as portas do seu mais bem sucedido semanário e que passou os últimos dias publicando anúncios de página inteira em jornais concorrentes com pedidos públicos de desculpas.

Convocado a testemunhar sobre o caso na comissão parlamentar de Cultura, Imprensa e Esportes do Parlamento britânico, Murdoch foi alvo de um ativista que tentou acertar-lhe uma torta no rosto quase ao final da tarde.

Antes do incidente interromper o questionamento, Murdoch argumentou que o News of The World representava “apenas 1%” de seus negócios e que ele não pode ser responsabilizado pelo que foi impresso no jornal e sim “as pessoas em quem confiei e talvez as pessoas em quem eles confiaram”. Ele disse também estar focado em seus negócios nos EUA e por isso “talvez não tenha enxergado” o que acontecia em seus jornais do outro lado do oceano e que conversava com os editores “muito raramente”.

James Murdoch, filho de Rupert, disse que a empresa não conseguiu manter “os padrões a que eles aspiram” e que estava “determinado a arrumar as coisas e garantir que não se repitam”. “Eu gostaria de dizer o quanto eu lamento e quanto queremos nos desculpar particularmente com as vítimas das interceptações ilegais de correio de voz e aos seus familiares”, disse James.

Sobre as relações com políticos, Rupert Murdoch reconheceu seu apoio aos conservadores nas últimas eleições e disse ter sido “convidado para uma xícara de chá” pelo novo primeiro-ministro, a quem visitou, usando a porta dos fundos, para não chamar a atenção dos fotógrafos. Prática repetida quando encontrou-se com o antigo primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, a quem ele visitou muitas vezes.

Murdoch ainda reconheceu o apoio de seus jornais ao governo conservador de Thatcher nos anos 1980. “Estivemos apoiando o governo Thatcher e o [governo] conservador que se seguiu e nos cansamos e passamos a apoiar o Partido Trabalhista” [à época de Tony Blair].

O último caso a levar uma comissão do parlamento britânico a convocar alguém a depor aconteceu em 1992.

Em viagem a África, o primeiro-ministro David Cameron se viu obrigado a encurtar o programa e voltar a Londres para cuidar da crise. “Eu não subestimo os problemas”, disse Cameron, em Lagos, na Nigéria, antes de retornar para a Europa. “Parte da imprensa cometeu atos horríveis e ilegais, a polícia tem questões sérias a responder sobre corrupção e falhas na investigação, políticos têm estado perto demais de proprietários da mídia.” [4]

[1] sean-hoare]http://www.guardian.co.uk/media/2011/jul/18/news-of-the-world-sean-hoare

[2] http://www.nytimes.com/2010/09/05/magazine/05hacking-t.html

[3] http://www.guardian.co.uk/media/2011/jul/12/news-of-the-world-pinging

[4] http://www.independent.co.uk/news/uk/politics/cameron-flies-home-to-address-hacking-crisis-2316128.html



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