Pelo Mundo

Noite de casamento para Obrador e sua Morena

Os investigadores Antonio Ibarra e Pablo Yankelevich ajudam a entender que novidades há no sistema político mexicano com AMLO e seu movimento, como lidarão com a corrupção, os narcos e a violência, além do papel da história e as futuras relações do país com os Estados Unidos de Donald Trump

11/07/2018 10:07

 

 
Andrés Manuel López Obrador, também conhecido como AMLO (a sigla do seu nome completo), está no melhor momento de um político. É o presidente eleito do México, desfruta de uma vitória bem fresquinha e ainda não paga os custos de governar. A lua-de-mel até agora vem sendo perfeita. Cada dia, um novo elogio de um antigo adversário. Se continuar assim, poderá vivenciar um futuro como o imaginado por Chavela Vargas: “que todas as noites sejam noites de casamento”.

Em seu caso também há outra vantagem, que é o fato de a vitória ter sido retumbante. “O fato de que 70% do eleitorado votou, e que 53% dessas pessoas tenham votado por AMLO é algo bastante impactante”, diz o mexicano Antonio Ibarra, em um café de Buenos Aires. Ibarra é professor titular de História Econômica em seu país, e veio à Argentina em busca de arquivos, para uma investigação sobre os consulados espanhóis da colônia.

Se há um mexicano na Argentina, deve haver algum argentino no México. Em perfeita simetria, o historiador argentino Pablo Yankelevich, professor do Centro de Estudos Históricos do Colégio do México, me fala, em conversa telefônica, de outro fator crucial: “pela primeira vez, as eleições foram organizadas todas juntas, as federais e nove das estaduais, com seus congressos locais, prefeituras e conselhos municipais. E os eleitores votaram por tudo, por AMLO e toda a sua lista. Assim, do norte ao sul do país, o que era anti-AMLO se pintou de AMLO dos pés à cabeça”.

Para Ibarra e Yankelevich, AMLO interpretou bem o processo de crise dos partidos tradicionais, e deu um grande passo à sua recente vitória ao fundar o Movimento de Regeneração Nacional, o triunfante Morena, o mesmo nome da virgem morena de Guadalupe, que reúne milhões de devotos todos os dias 12 de dezembro. AMLO transformou o Morena em partido político para concorrer à Presidência, mas não quis tirar dele o caráter de movimento. “O sucesso do Morena é o de ter construído uma base territorial fincada em demandas locais, movimentos reivindicatórios e um tecido de lealdades tradicionais, aproveitando o grande capital político de Obrador, que é a confiança que muitos setores têm nele”, diz Ibarra.

As eleições de 1º de julho foram a evidência da crise dos partidos. O PRI (Partido Revolucionário Institucional), que governou até 2000 sem interrupções, durante 70 anos, voltou ao poder em 2012 com Enrique Peña Nieto, até que “colapsou internamente, perdeu a territorialidade e se isolou de sua base social, se dedicando a reproduzir uma tecnocracia sofisticada, mas incapaz politicamente, ou seja, cortou suas veias”, segundo Ibarra. Com relação ao PAN, (Partido da Ação Nacional), dos ex-presidentes Vicente Fox (2000-2006) e Felipe Calderón (2006-2012), de tendência democrata-cristã, “perdeu seu patrimônio de eleitor social e conservador, religioso e anti-PRI”. O bipartidarismo PRI-PAN, que tomou forma em 1988, com o presidente neoliberal Carlos Salinas de Gortari, finalmente começou a ruir. As eleições terminaram deste ano terminaram, portanto, com um ciclo de nada menos que 30 anos.

“O triunfo foi tão arrasador que é como se o peronismo perdesse em regiões historicamente suas na Argentina, como em La Matanza”, analisa Yankelevich. E o incrível é que foi assim mesmo. Sua “Matanza” simbólica, embora menor – já que tem apenas 100 mil, e não mais de um milhão, como a referência argentina – se chama Atlacomulco. É um município do Estado de México. Berço de dirigentes do PRI, somente uma vez a região conseguiu fazer com que o mais votado em sua zona eleitoral fosse eleito presidente – que foi o que aconteceu com Peña Nieto. “Agora, pela primeira vez na história, Atlacomulco elegeu um presidente do Morena”.

Corrupção

O PRD (Partido da Revolução Democrática), fundado em 1989 como uma dissidência de esquerda do PRI, já vinha perdendo seus principais dirigentes, entre eles o próprio AMLO e Cuauhtémoc Cárdenas, o filho do histórico presidente nacionalista Lázaro Cárdenas (1934-1940), e se mostrou ainda mais sem identidade quando assinou o Pacto pelo México, em 2012, com o PRI e o PAN.

Para Obrador não havia dúvidas: “este é um pacto contra o México, a preparação de um grande assalto para reformar a Constituição e entregar dos lucros do petróleo”, e citou uma frase do milionário John D. Rockefeller: “o melhor negócio do mundo é o petróleo, e o segundo melhor negócio é o petróleo mal administrado”. Para AMLO, o Pacto pelo México não se tratava de “uma colonização mental, e sim da alienação do país de seus recursos naturais, movida pela cobiça”.

O atual presidente eleito também sustentou a ideia de que a corrupção nos gastos operacionais da indústria petroleira gera um superfaturamento de 60% – aumentando o custo de produção de quatro a dez dólares por barril. O projeto do PAN e do PRD era manter esse superfaturamento e avançar sobre o resto do lucro.

“Quando o México deixou de refinar gasolina, o governo tomou a decisão de transferir aos cidadãos o custo da corrupção dentro da estatal petroleira Pemex”, diz Ibarra, que entrelaça, desta forma, os problemas da corrução e da política energética do país.

Segundo Ibarra, “López Obrador promete recuperar o crescimento, distribuir e combater a corrupção através do exemplo, eliminando o superfaturamento que afetam os investimentos diretos e as licitações viciadas, e abrindo a concorrência para os provedores de médio porte, que antes estavam excluídos”. Enquanto isso, “já anunciou gestos simbólicos a respeito do serviço público em geral, como a redução dos salários e dos gastos dos funcionários e do próprio presidente”. Yankelevich complementa com a informação de que AMLO assegurou que não necessita da guarda presidencial do Exército e nem de outra residência além da sua casa. No seu discurso da vitória, ele disse: “a escada deve ser varrida de cima par baixo”.

“A corrupção feroz dos governadores do norte, em Estados como Chihuahua, terminou inclinando a votação a favor de Obrador”, interpreta Yankelevich. “Se juntaram elementos como a indignação com a corrução, a falta de soluções para o problema da violência, a intensa atividade do narcotráfico – muito mais intensa no norte do país, devido à rota aos Estados Unidos – e o aumento dos combustíveis”. A corrupção é um mal importante, “mas a `matação´ é tremenda”, diz tão mexicanamente Yankelevich, falando de um país onde as cifras de assassinados nos últimos anos alcançam as centenas de milhares. “E a pobreza também: são 45 milhões, mais de uma Argentina, em um país de 130 milhões de habitantes”. Desses 45 milhões, “ao menos 15 vivem na pobreza extrema”, informa Ibarra.

Chanceler Ebrard

E Donald Trump? Os dois historiadores concordam a respeito do capital político de AMLO como um diferencial ainda maior em comparação à “atitude indigna” de Peña Nieto, que aceitou todas as humilhações possíveis de seu colega norte-americano, e que a relação com os Estados Unidos poderia ter um ponto comum surgido do realismo. Obrador quer ser o presidente de um país onde os mexicanos não emigrem. Trump quer fazer dos Estados Unidos um país com menos imigrantes. O Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, por sua sigla em inglês) e demais acordos entre os dois países podem ou não ser revisados, mas nada mudará em curto prazo o nó de duas economias enlaçadas em termos produtivos e financeiros – o que inclui as remessas enviadas ao México pelos migrantes que vivem nos Estados Unidos.

Yankelevich dá grande importância ao anúncio de que o ex-prefeito da Cidade do México (2006-2012) Marcelo Ebrard será o próximo chanceler. “É um político hábil, que já trabalhou no gabinete de AMLO quando este foi prefeito da mesma cidade capital (2000-2012) e sua boa formação o tornam capaz de ler e atuar com inteligência sobre as relações com os Estados Unidos, com o resto de América Latina e com os demais conflitos mundiais”.

“Os neoliberais tentaram construir sobre Obrador a lenda uma figura ditatorial, estatista, desapropriadora. Alguns patrões chegaram a fazer campanhas internas em suas empresas para pedir aos empregados que votassem contra esse diabo chamado AMLO, em alguns casos sob ameaça de demissão”, conta Yankelevich. “Mas o triunfo arrasador fez com que alguns desses patrões hoje falem bem do presidente eleito, e que o problema é que demoraram para entender os matizes e as tácticas de um líder popular que não defendeu o rompimento das relações com os Estados Unidos”.

História mexicana

Tanto Ibarra como Yankelevich dão grande importância à estratégia morenista, e do próprio AMLO, de se apresentar como a encarnação da quarta grande transformação política da história mexicana. Na narrativa de López Obrador, a primeira transformação foi a própria Guerra da Independência (1810-1821). A segunda foi o período de Benito Juárez e sua reforma (1855-1863), e a Revolução Mexicana (1910-1920) foi a terceira.

“AMLO quer ser parte de uma linhagem de presidentes patriotas e de tradição social liberal”, diz Ibarra, e completa: “a identificação fundamental está na austeridade, na legalidade de Juárez e na vocação democrata de Francisco Madero”.

“A potência do discurso historiográfico oficial mexicano é tanta que oito anos de nem mesmo os doze anos do PAN no poder puderam modifica-lo”, recorda Yankelevich. “Até Calderón teve que festejar o centenário da Revolução Mexicana, em 2010, mesmo sendo de um partido que esteve contra ela. E o resgate Obrador faz do legado de Madero não é casual, já que foi o líder que combateu Porfirio Díaz, que foi vítima de fraude, preso, e que já fora da prisão se levantou novamente contra Porfirio, conseguiu que se realizassem eleições e as venceu”.

“O respeito ao direito alheio é a paz” é uma frase que López Obrador repete com frequência, e que pertence a Juárez. Na campanha, AMLO a usou para falar das relações que pretende ter com Trump, e também com respeito à Venezuela. “Se nós não nos intrometemos nos problemas de ninguém, não queremos que se metam nos nossos”, seria a tradução diplomática. O que significa que Nicolás Maduro poderá contar com a saída do México do grupo dos mais hostis da região contra o seu governo.

A presença de Ebrard tem também um significado interno. Para vencer, o Morena se aliou a duas outras forças políticas e conformou a coalizão Juntos Faremos História. São elas o PT (Partido do Trabalho) e a agrupação Encontro Social, que tem um grande peso dentro da comunidade evangélica. Embora se diga respeitoso do laicismo mexicano, o Encontro Social se opõe ao matrimônio igualitário e ao aborto libre, dois avanços já vigentes na capital mexicana governada por Cuauhtémoc, AMLO e Ebrard, e que agora será governada pela prefeita eleita Claudia Sheinbaum, que foi secretária de Meio Ambiente de López Obrador e diminuiu a contaminação na cidade em cinco anos.

A mudança no sistema político poderia incluir outros dois elementos.

Um deles é que pela primeira vez poderá haver reeleição para deputados (que têm um período de três anos) e de senadores (com um período de seis). “Um legislador está autorizado a mudar de partido na primeira metade do seu mandato (ou seja, antes de ano e meio para os deputados e antes dos três anos para os senadores”, explica Yankelevich. “Se o nível de apoio de Andrés Manuel se mantém como agora, poderia haver uma migração massiva para o Morena, o que ampliaria ainda mais a maioria que já ganhou”.

O segundo elemento surge de uma promessa de AMLO destacada por Ibarra. “Disse que no terceiro ano, quando chegue à metade do seu mandato, convocará um referendo que será revogatório. E que, no caso dos cargos regionais o fará com um ano e meio de mandato. Assim, ele obriga a si mesmo a uma gestão dinâmica e que busca a construção de uma nova classe política nos níveis regionais. Não é um objetivo menos importante, já que são nos governos regionais que estão os principais nexos com o narcotráfico. Renovando-os, será más fácil isolar os narcos”.



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