Pelo Mundo

Nós criamos o antropoceno, e o antropoceno está contra atacando

Tendo em vista a recente litania de desastres - da pandemia do coronavírus ao incêndio mais mortal dos EUA - está claro que existem forças que não podem ser domesticadas

07/05/2020 10:28

Os incêndios florestais mostram, de maneira semelhante, como nossa reformulação do mundo natural teve consequências desastrosas (Pixabay/CC)

Créditos da foto: Os incêndios florestais mostram, de maneira semelhante, como nossa reformulação do mundo natural teve consequências desastrosas (Pixabay/CC)

 

Cerca de 12.000 anos atrás, a domesticação humana do mundo natural começou em paralelo com a cultivação intencional de plantas selvagens e animais. Acelere para hoje e nosso domínio sobre o planeta parece completo, enquanto 7.8 bilhões de nós se multiplicam ao longo da superfície e nosso alcance se estende do mar profundo, que está sendo minado, aos céus, onde estamos, de acordo com Donald Trump, enviando uma força espacial.

Ainda assim, tem se mostrado evidente, tendo em vista a recente litania de desastres – da pandemia do coronavírus ao incêndio mais mortal dos EUA – que existem forças que não podem ser domesticadas. De fato, nossa interferência no mundo natural está fazendo com que essas forças se tornem tragédias. Criamos o antropoceno, e o antropoceno está contra atacando.

A Covid-19 parece ter surgido em um mercado de frutos do mar e animais selvagens em Wuhan, mesmo assim, alguns cientistas argumentam que sua verdadeira origem está na perturbação dos ecossistemas. Testes genéticos indicam que o vírus provavelmente veio de morcegos, e, em algum momento, pode ter sido transmitido por meio de uma espécie intermediária como o pangolim, o animal mais traficado no mundo. Mesmo os pangolins não estando listados, oficialmente, como comercializados no mercado, foram certamente os hospedeiros de outros animais selvagens como filhotes de lobos, crocodilos e civetas.

“Animais selvagens carregam seus próprios vírus”, disse David Quammen, autor de “Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic”, ao Yale Environment 360. “Quando vamos à uma floresta tropical com sua grande diversidade, e começamos a cortar árvores, e capturar animais, ou matar animais por comida” – ou enviá-los a mercados onde são misturados com animais de fazenda ou humanos – “então oferecemos à esses vírus a oportunidade de se tornarem nossos vírus, de pularem em nós e encontrarem um novo hospedeiro, um hospedeiro muito mais abundante”.

O risco da disseminação de doenças de animais para humanos é, de fato, maior quando os animais em questão estão em risco de extinção devido ao tráfico e à destruição dos seus habitats, de acordo com um estudo recente. A crise climática e o crescimento da população humana são “amplificadores de doenças”, de acordo com a OMS.

Similarmente, os incêndios mostram como nossa reformulação do mundo natural teve consequências desastrosas. Em nosso novo livro “Fire in Paradise”, que é baseado em nossa reportagem extensiva para o Guardian, documentamos a destruição de uma cidade inteira na Califórnia em 2018 por um incêndio de severidade sem precedentes nos tempos modernos. Ceifando 85 vidas, é o incêndio mais mortal que o estado já viu.

Os incêndios são nativos do oeste dos EUA da mesma maneira que as monções e furacões são nativos de outros lugares. Ainda assim, um século de esforços para evitá-los e proteger vidas humanas e propriedades na Califórnia, deixaram as florestas e planícies do estado densas com vegetação inflamável que, se fosse o contrário, queimariam em uma intensidade semi regular e baixa. Para piorar, o aquecimento global está tornando mais secos os locais selvagens da Califórnia.

Os residentes de Paradise sabiam da espada que estava sobre suas cabeças. A cidade tinha um plano de evacuação e um sistema robotizado de alerta de emergência. No verão de 2018, um enorme e horrorizante tornado em chamas devastou uma área próxima. “Não é uma questão de se”, disse Iris Natividad, residente de longa data. “É uma questão de quando.”

Mesmo assim, ninguém imaginava o quão feia estaria aquela manhã do início de novembro, quando uma fagulha de uma torre de transmissão da PG&E inflamou os arbustos ao seu redor, em dado momento consumindo, em um minuto, a vegetação equivalente a 400 campos de futebol americano em sua corrida em direção à Paradise. As chamas mais quentes que um crematório derreteram carros e incendiaram milhares de casas. O incêndio encurralou as pessoas na cidade e pegou muitos de surpresa.

Paradise sofreu uma devastação total, e as imagens de bairros reduzidos a pilhas de cinzas chocaram o mundo.

Nós dizíamos que esse era o novo normal – exceto que na realidade “seria um erro achar que a região alcançou alguma semelhança com uma planície estável”, escreveram três cientistas de incêndios para o Guardian alguns meses após o incêndio em Paradise. Sabemos que continuarão havendo grandes incêndios. Também sabemos que haverá mais surtos, como consequência do clima extremo, da destruição da biodiversidade, instabilidade política e perímetros maiores para mosquitos e carrapatos.

Mesmo assim, uma lição otimista da tragédia do coronavírus é que podemos agir. Vamos acatar os pedidos de ficar em casa e vamos condenar a economia no processo, se isso significa salvar vidas. E faremos isso do dia para a noite.

Em nosso planeta parcialmente domesticado e parcialmente selvagem, na era geológica que carrega nosso nome, aprendemos que, de fato, possuímos a força de vontade para prevenir outra pandemia, e outro Paradise.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

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