Pelo Mundo

Nossa crise social não é mais somente sobre desigualdade, é sobre vida ou morte

De saúde precária ao alcoolismo ao suicídio, as conexões entre privação e redução da expectativa de vida estão ficando evidentes

19/03/2020 15:17

''Eu não gosto da etiqueta 'deixada para trás'... mas há grandes áreas do país onde enfermidades e doenças se tornaram arraigadas na cultura'' (Anthony Devlin/Getty Images)

Créditos da foto: ''Eu não gosto da etiqueta 'deixada para trás'... mas há grandes áreas do país onde enfermidades e doenças se tornaram arraigadas na cultura'' (Anthony Devlin/Getty Images)

 

Aparentemente, é uma história familiar. “Ao final, muito do otimismo do século 20 havia se esvaído. Cidades e municípios ... que costumavam produzir aço, vidro, móveis ou sapatos, e que são lembrados com carinho pelas pessoas em seus 70 anos como tendo sido ótimos lugares para crescer, foram eviscerados, suas fábricas e lojas fechadas.”

As palavras foram retiradas do novo livro incrível dos acadêmicos Anne Case e Angus Deaton. À primeira vista, essa passagem talvez sugira uma daquelas responsabilidades que se encontram por trás do crescimento populacional. Mas ao invés de enquadrar a condição que conhecemos agora como “deixada para trás” como uma questão de preferências políticas, o intitulado Mortes por Desespero e o Futuro do Capitalismo vê essa condição como em termos de vícios, doenças e crescentes taxas de mortalidade entre estadunidenses nas idades de 45 a 54, que o livro relaciona a “suicídios, overdoses e doenças no fígado pelo alcoolismo”.

Entre os anos de 2014 e 2017, esse fatores contribuíram para o primeiro declínio na expectativa de vida média dos estadunidenses desde que os registros começaram em 1933.

Obviamente, isso não nega a existência de desigualdades mais profundas e de longo-prazo. Como os autores colocam: “brancos sem um diploma não são o grupo mais pobre nos EUA; é bem menos provável que sejam mais pobres do que os afroamericanos”. Permanece o caso de que os afroamericanos tendem a morrer mais cedo que os norte-americanos brancos. Evidentemente, “mortes por desespero” são um problema para as pessoas de cor também (hispânicos são muito mais pobres em média do que brancos não hispânicos, mas também possuem taxas de mortalidade mais baixas).

Mas a mudança crucial do último quarto de século é clara. Nas partes mais brancas do mapa demográfico, houve um processo sinistro – a desindustrialização, salários estagnados e falências familiares fizeram seu trabalho em comunidades que, um dia, já tiveram algo de segurança e estabilidade. Em uma economia que está cada vez mais dividida entre ganhadores e perdedores, se o fator determinante do sucesso ou do fracasso é um diploma de ensino superior, milhões ficarão de fora invevitavelmente. “Não é a cultura negra, não é a cultura branca trabalhadora”, disse Case recentemente. “Realmente achamos que se você surra alguém o suficiente, por um bom tempo, coisas ruins acontecem à ele.”

De acordo com Case e Deaton, grandes partes de sua história são unicamente estadunidenses e associadas às deficiências infinitas da medicina privada e do impacto da epidemia de opióides. Em uma entrevista recente no Reino Unido, Case reconheceu que algo também está acontecendo na Grã-Bretanha, mesmo em um nível de “crise silenciosa”. Mas ao ler seu livro e projetar suas descobertas em partes do Reino Unido onde realizei reportagens nos últimos 10 anos, isso não me pareceu ser verdade. Há uma história similar a ser contada sobre esse país, com suas especificidades britânicas: é parcialmente por causa dos tipos de mortes por desespero que cresceram dramaticamente nos EUA, mas também sobre a bagunça que gira em torno delas.

No ano passado, ao lançar um relatório de 5 anos sobre a desigualdade britânica, presidido por Deaton (que possui cidadania britânica e estadunidense), O Instituto de Estudos Fiscais reconheceu que, na Inglaterra, mortes por desespero estereotípicas cresceram entre pessoas de meia idade. Taxas de morte por alcoolismo no Reino Unido aumentaram em 13% desde 2001. Pessoas que vivem em áreas carentes têm seis vezes mais chances de morrer por doenças no fígado relacionadas ao álcool, em relação às pessoas que vivem em locais mais ricos. Na Escócia, há uma crise ignorada acerca das mortes relacionadas as drogas, que seguiram uma tendência crescente por vinte anos, e agora significa que o país tem a maior taxa per-capita de mortes por drogas na Europa. Houve um grande crescimento no uso de benzodiazepínicos sem prescrição, o “valium de rua”. Na última conta, dois terços das mortes por drogas do país foram de pessoas de idade entre 35 e 54.

Eu não gosto do rótulo “deixado para trás”, ou da imagem que pretende pintar de locais desamparados com nada além de pobreza e anomia. Mas exitem, sem sombra de dúvidas, grandes áreas do país onde a doença e a enfermidade – ambas físicas e mentais – se tornaram enraizadas na cultura, e uma década de cortes e negligência contínua tornou tudo pior. É um história que já ouvi muitas vezes, uma profecia: tendo perdido seus empregos, operários siderúrgicos, estivadores e mineiradores eram rotineiramente inscritos no benefício de incapacidade e, com o tempo, o que era conhecido coloquialmente como “estar [com o benefício] como doente” se tornou não somente o modo como as pessoas foram removidas do mercado de trabalho, mas também algo que percorreu as seguintes décadas.

Agora, enquanto as partes mais arruinadas das nossas cidades continuaram a ser sinônimos de pobreza e desigualdade, locais menos urbanos estão cheios de lambretas de mobilidade, longas filas no químico local e de ideias de que o conforto da sedação química pode estar à um telefonema de distância.

As estatísticas relevantes somente salientam a questão. Há 10 dias atrás o Instituto de Igualdade Salutar na Universidade College Londres publicou a última pesquisa do Prof Michael Marmot e incitou uma gama de novas histórias. Para salientar paralelos entre os EUA e o Reino Unido, o relatório de Marmot apontou que o crescimento na expectativa de vida média paralisou em 2010, e que entre as mulheres nas áreas mais pobres da Inglaterra, o número caiu entre 2010 e 2018. O trabalho de Marmot mostra as conexões evidentes entre privação e morte precoce, e o fato de que o tempo que as pessoas gastam com a saúde precária subiu ao redor da Inglaterra desde 2010.

No direito politico, as respostas supostamente estão nas ideias de Boris Johnson sobre “nivelamento”, o que, até agora, parece representar uma subestimação grosseira das dificuldades que muitos lugares enfrentam, sem mencionar o papel que os governos conservadores têm tido em sua situação atual difícil. Entre elementos da esquerda liberal, enquanto isso, as coisas parecem conflituosas. Problemas sociais são, com muita frequência, entendidos somente no abstrato, como questões de brechas estatísticas, ou como nossa velha amiga a divisão norte-sul. Na Inglaterra, como nos EUA, há outro problema: a noção de que, aos olhos de alguns, a associação de grandes partes do país ao apoio populista de direita é completamente inaceitável.

Em meio à nossa política polarizada, é válido lembrar que a face mais representativa dessas pessoas e lugares não é um racista, descoberto por um time de pesquisadores de televisão e apresentado ao público como porta-voz autêntico. É provável que fosse alguém mais quieto, com conhecimento dos horizontes que se encolhem e das perspectivas que somem, e que olhasse para um futuro de dependência, mortes precoes e doenças, com incerteza. Essa, me parece, é a crise social do nosso tempo.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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