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Nova Grécia de Tsipras provoca onda antiausteridade na Irlanda

A vitória do Syriza na Grécia deu um impulso extra aos partidos da oposição, principalmente ao Sinn Féin, que há meses acumula novos apoiantes.

03/02/2015 00:00

Gerry Adams, Presidente do Sinn Féin, e Alexis Tsipras, líder do Syriza e atual primeiro-ministro da Grécia

Créditos da foto: Gerry Adams, Presidente do Sinn Féin, e Alexis Tsipras, líder do Syriza e atual primeiro-ministro da Grécia

A economia irlandesa cresce e o desemprego desce, mas a chegada ao poder de um governo de esquerda radical na Grécia reavivou o debate sobre os sacrifícios provocados pela austeridade e pelos cortes.
A vitória do Syriza na Grécia deu um impulso extra aos partidos da oposição, entre eles o partido de esquerda Sinn Féin, que há meses acumula novos apoiantes.

"Esta carga insustentável de dívida que se impôs ao nosso povo é a principal causa da nossa miséria económica", disse o líder do Sinn Féin, Gerry Adams, no Parlamento após as transcendentais eleições na Grécia.

"Não é só um problema irlandês. É um problema europeu. Necessitamos de uma solução europeia", disse Adams, que defende uma conferência europeia sobre a dívida como sugeriu o novo primeiro-ministro grego Alexis Tsipras. A Irlanda estima que o seu crescimento em 2014 foi de 4,7%, será de 3,9% em 2015, e que o desemprego cairá para os 9,8% este ano.

O país já não está a contrair novos empréstimos junto da UE e do FMI, todavia está envolvido nos reembolsos dos anteriores, e o Sinn Féin quer uma renegociação, em particular, dos 64 mil milhões de euros injetados nos bancos desde 2008.

Governo insiste que não é a Grécia

Apesar de algumas semelhanças, o governo irlandês insiste que não é a Grécia, e exibe os dados macroeconômicos positivos. "A especulação na comunicação social e a especulação política vão à frente do Governo grego", disse Simon Harris, secretário de Estado das Finanças.

"Não sabemos exatamente o que é que o governo grego vai pedir", disse.

Harris também assinalou que a Irlanda já reestruturou as dívidas do seu resgate em quatro ocasiões para reembolsar antes, cortar nas taxas de juro e estender os prazos de pagamento.

Esta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que a recuperação da Irlanda vive um "bom começo", mas são necessários esforços para pôr "a dívida pública num ritmo descendente".
"As perspetivas a médio prazo da Irlanda são positivas, mas o estancamento da zona euro cria inconvenientes", disse o FMI na sua última avaliação pós-resgate.

Novas tarifas da água e outros contratempos empurram o voto para a esquerda

A introdução de novas tarifas para a água a partir de 1 de janeiro deste ano, assim como uma série de contratempos políticos em 2014, fizeram com que os apoios dos partidos do Governo caíssem para os níveis mais baixos dos últimos meses.

O imposto da água era a última peça de um pacote de aumento de impostos e cortes na despesa no valor de 30 mil milhões de euros desde 2008 e que afetou todos os cidadãos, num país em que o desemprego atingiu os 15,1% em 2012.

Este mês, no entanto, existiu um corte modesto nos impostos, naquele que foi o primeiro Orçamento de Estado expansionista em sete anos, por seu lado os ministros vendem a ideia de recuperação económica sempre que podem.  

Porém, as eleições gregas demonstram que uns resultados considerados impossíveis "há cinco anos são agora uma possibilidade", realçou Nat O'Connor, da Tasc, uma organização de análise e estudos independente.

"Agora existe a possibilidade de um cataclismo eleitoral similar na Irlanda, mas também em Portugal e em Espanha", disse.

Na Irlanda existe a possibilidade dos partidos historicamente dominantes, Fine Gael e Fianna Fail, ficarem fora do poder pela primeira vez desde a fundação do Estado em 1922.

Negociações a serem acompanhadas de perto

Com eleições legislativas em 2016, as negociações sobre a reestruturação da dívida grega serão observadas com atenção na Irlanda.

"Se os gregos recebem algum tipo de oferta melhor por terem votado no Governo que votaram, os irlandeses farão o mesmo e dirão que essa é a verdadeira resposta aos nossos problemas", disse à AFP o comentador político Johnny Fallon.

No entanto, o economista chefe do banco KBC Bank, Austin Hughes, diz que há diferenças entre a Grécia e a Irlanda.

"A lição fundamental é que é necessário ter uma economia que gere pelo menos a promessa de aumento dos rendimentos e do emprego, e a Irlanda está, provavelmente, nessa etapa", disse.

"O desafio que o Governo enfrenta é encontrar um equilíbrio que faça sentir às pessoas que estão no caminho correto, por que as suas expetativas não estão claras sobre o que a economia pode razoavelmente proporcionar-lhes", disse Hughes. 


Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net




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