Pelo Mundo

Nova escalada de repressão agrava crise política no Egito

18/12/2011 00:00

Página/12



Os enfrentamentos entre manifestantes que exigem a renúncia do governo provisório que assumiu após a queda de Hosni Mubarak são os mais graves ocorridos neste período de um mês que já dura o acampamento pacífico na Praça Tahrir. Médicos e ativistas políticos disseram que há 498 feridos, por golpes, inalação de gases lacrimogêneos e disparos de balas de borracha. Com as vítimas deste domingo, o número de mortos nesta nova escalada de violência chegou a 42.

A maioria dos feridos sofreu fraturas nas extremidades de braços e pernas e ferimentos por golpes de paus, pedras e pedaços de vidros lançados por agentes desde terraços do edifício do Parlamento na ria Qasr El-Aini, principal cenário da repressão, a poucos metros da praça Tahrir. Por meio de uma nota divulgada por um recém criado conselho assessor, o Conselho Superior das Forças Armadas negou qualquer intenção de desalojar os ativistas que estão há quase um mês acampados em frente à sede do governo e atribuiu a violência ao suposto ataque de manifestantes contra um policial que cuidava do trânsito.

Nos arredores, homens com trajes civis lançavam pedras e garrafas incendiárias contra as forças de segurança. Além disso, segundo os testemunhos, houve um incêndio no Ministério dos Transportes, situado na região, assim como em outros edifícios.

O primeiro ministro Kamal el Ganzuri indicou que 18 pessoas foram feridas a bala, mas assegurou que nem a polícia nem o exército abriram fogo. Ele acusou “elementos infiltrados” que “não querem o bem do Egito”, sem dar maiores detalhes. “Os que estão na praça Tahrir não são os jovens da revolução”, afirmou, referindo-se à revolta que acabou com o regime de Mubarak em fevereiro. “Não é uma revolução, mas sim uma contrarrevolução”, sentenciou.

Neste contexto, onze dos trinta membros de um conselho consultivo estabelecido pelo exército para dialogar com as forças políticas apresentaram sua renúncia em protesto pela repressão. “Havíamos feito algumas recomendações na sexta-feira, mas fomos surpreendidos ao ver que não foram seguidos e que no sábado já havia mais vítimas”, disse o presidente desse conselho, Abul Ela Madi, dirigente do partido islamista moderado Wassat.

Durante os protestos foram incendiados os fundos da Academia Científica do Egito, uma das maiores bibliotecas do país. “O fogo neste ilustre edifício significa que grande parte da história do Egito se foi”, disse o diretor dessa instituição, Mohamed ao Shernubi. O edifício se encontra junto à sede do Conselho de Ministros, cenário de enfrentamentos e repressão que logo se estenderam até a praça Tahrir.

Os enfrentamentos começaram sexta pela manhã, entre as forças de segurança e os manifestantes que desde o final de novembro estão acampados na sede do governo para protestar contra a Junta Militar e pela decisão que esta tomou de nomear um primeiro ministro, Kamal el Ganzuri, que já foi chefe de governo de Mubarak.

Tradução: Katarina Peixoto

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