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Novas infecções por COVID disparam nos EUA, enquanto Trump foca na eleição

 

30/06/2020 12:23

O presidente Donald Trump fala aos convidados durante uma visita ao estaleiro Fincantieri Marinette Marine em 25 de junho de 2020, em Marinette, Wisconsin. (Scott Olson/Getty Images)

Créditos da foto: O presidente Donald Trump fala aos convidados durante uma visita ao estaleiro Fincantieri Marinette Marine em 25 de junho de 2020, em Marinette, Wisconsin. (Scott Olson/Getty Images)

 

A Covid-19 está disparando nos Estados Unidos, mas a única coisa com a qual esse presidente parece se importar é com a lenta deterioração de suas perspectivas eleitorais.

"Donald Trump sabe que está perdendo", informou o site Politico no domingo. Os conselheiros da campanha "pediram que ele parasse as demonstrações públicas de autopiedade", relata The Washington Post. "Eleitores republicanos contra Trump esperam ter um orçamento de US$ 10 milhões para focar nos eleitores on-line", relata a NBC News. "O PRESIDENTE TRUMP PODE PERDER ESTA ELEIÇÃO" apontou a legenda de abertura do programa de quinta-feira à noite de Tucker Carlson na Fox News.

Trump não é o único que se sente desanimado com seu futuro político. "Pela primeira vez, os agentes do Partido Republicano aumentam a possibilidade de @realDonaldTrump desistir da corrida se o número de suas pesquisas não se recuperarem", tuitou no domingo o correspondente da Fox Business Network, Charles Gasparino. “No fim de semana, conversei com uma amostra dos principais envolvidos; um deles descreveu a psique atual de Trump como ‘frágil’".

Você disse frágil? Pobre rapaz. O que realmente precisamos falar é sobre o estado frágil desta nação após a calamitosa resposta de Trump à Covid-19.

No domingo, os Estados Unidos registraram mais de 40.000 novas infecções em meio a essa disparada recorde, com o total nacional agora ultrapassando 2,5 milhões. O número de mortos ultrapassou 125.000 almas, número que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) diz que, quase certamente, está abaixo do número real

O condado de Harris, no Texas, região densamente povoada onde mora a maior parte dos habitantes de Houston, agora está tendo mais de 1.000 novos casos da Covid-19 por dia. O Texas Medical Center, um vasto conjunto de instalações médicas no centro de Houston, atingiu sua capacidade base de suas UTIs sob a onda de novos casos, e essa onda não está próxima do ponto mais alto. As cirurgias eletivas foram restritas às novas vagas de leitos hospitalares, e o NGR Stadium - casa do Houston Texans da NFL - está sendo preparado para receber pacientes com Covid que ultrapassem a capacidade dos hospitais.

“As instituições do [Texas Medical Center] - que juntas constituem o maior complexo médico do mundo - informaram quinta-feira que sua capacidade básica de terapia intensiva atingiu 100% pela primeira vez durante a pandemia”, relata o Houston Chronicle, “e estava a caminho de exceder uma 'capacidade insustentável de surto' de leitos de terapia intensiva até 6 de julho”.

De sexta a domingo, a Flórida enfrentou mais de 8.000 novos casos por dia. Houve 9.585 no sábado e 8.530 no domingo. A idade média dos recém-infectados com Covid agora é de 36 anos. Assim como Houston, os hospitais de algumas partes da Flórida mais afetados por essa longa continuação da primeira onda da pandemia estão atingindo sua capacidade máxima. "As autoridades fizeram pouco até agora para interromper as interações públicas", relata The New York Times.

Texas e Flórida lideraram o caminho, sob o comando de Trump, de “Reabrir Agora” várias semanas atrás, e agora eles, junto com o Arizona, se tornaram os mais novos epicentros da Covid. Trump venceu todos os três desses estados chamados ‘Sun Belt" ("Cinturão do Sol”) em 2016, e se ele perder algum deles em novembro, suas chances de vencer a reeleição derreterão e borbulharão como manteiga em uma frigideira quente.

A reação de Trump a esta última iteração da pandemia de coronavírus? No domingo, ele fez com que o vice-presidente Mike Pence aparecesse em uma megaigreja de Dallas, ao lado do inútil governador republicano do Texas, Greg Abbott, o desconcertante secretário da Habitação Ben Carson e o sempre terrível senador do Texas, John Cornyn.

Milhares de devotos sem máscara lotaram o campus da megaigreja de seis quarteirões para apreciar o canto, sem máscaras, de um coral de 100 pessoas. Na sexta-feira, Abbott freou a reabertura de seu estado, mas isentou as igrejas das novas ordens. Em todo o país, as igrejas tornaram-se epicentros de novos surtos de Covid, mas Trump - desconfiado de que poderia alienar um dos últimos grupos eleitores leais que restou - até agora se recusou a reduzir as reuniões em massa nas casas de culto.

Por sua própria conta, Trump continua a fazer barulho por suas audiências na Fox News como um antídoto para os números sombrios das pesquisas que se aglomeram em torno de sua campanha. No sábado, ele retuitou um vídeo de um fascista em um carrinho de golfe na Flórida cantando "poder branco!" Na quinta-feira, ele fez uma “encontro com cidadãos” com Sean Hannity que não teve perguntas sobre o aumento dos casos da Covid, nem sobre o número nacional de mortos por Covid, ou os números desastrosos das pesquisas ou o assassinato policial de George Floyd. A pergunta mais difícil que ele recebeu foi: "Qual você acha que é a sua maior conquista?"

Eu também teria dificuldade em responder a isso.

Fox e Hannity, é claro, permanecem o espaço seguro de Trump durante essa calamidade em curso. Isso também matou pessoas. “Aqueles que confiaram na Fox ou, digamos, na personalidade do rádio Rush Limbaugh, passaram a acreditar que a vitamina C era um remédio possível, que o governo chinês criou o vírus em um laboratório e que as agências de saúde do governo estavam exagerando os perigos na esperança de prejudicar Trump politicamente”, diz uma matéria do Washington Post sobre uma pesquisa de audiência na pandemia realizada pela Harvard Kennedy School.

"O país não está ‘reabrindo’ porque a pandemia está terminada ou porque cientistas e profissionais médicos dizem que é seguro", escrevi em 21 de maio, na véspera do feriado do Memorial Day que está na raiz desse surto de Covid. "Estamos ‘reabrindo’ porque nesses Estados Unidos, as pessoas sempre chegam num segundo lugar muito atrás do lucro."

É bastante claro que, para esse presidente, a saúde e a sobrevivência do povo também ficam num segundo lugar distante em relação à eleição.

As perspectivas de reeleição de Trump parecem frágeis no momento, mas só teremos certeza disso se realmente tivermos uma eleição. Nossa democracia, como a Covid demonstrou, também é bastante frágil.

*Publicado originalmente em 'Truthout' | Tradução de César Locatelli

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