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O Chile sangra pelos olhos de Gustavo Gatica

Gustavo Gatica perdeu a visão nos dois olhos atingidos pelas balas de repressão. Já existem 300 pessoas afetadas por trauma ocular no país, um evento sem paralelo em todo o mundo. Gatica se tornou o símbolo da luta contra o autoritarismo. Do hospital, ele enviou sua mensagem: ''eu entreguei meus olhos para que as pessoas despertassem''

01/12/2019 14:15

Gatica se tornou um símbolo da luta contra a repressão

Créditos da foto: Gatica se tornou um símbolo da luta contra a repressão

 
Após o anúncio da Clínica Santa Maria de que o jovem Gustavo Gatica havia perdido permanentemente a visão dos dois olhos, após 17 dias de hospitalização, a capital chilena respondeu com um enorme panelaço em sua homenagem. No dia 8 de novembro, o estudante de psicologia de 21 anos estava fotografando as manifestações na Praça Itália, centro da capital chilena, quando foi atingido nos olhos por balas de borracha que os Carabineros (polícia militarizada) têm o hábito de usar para dispersar os manifestantes no Chile.

A seriedade de seu caso, que os chilenos acompanharam de perto, fez dele um símbolo dos abusos sistemáticos da polícia no país durante as últimas seis semanas, desde o início das manifestações sociais com a marcha de um milhão de pessoas, no dia 25 de outubro.

“As pessoas tiveram que tirá-lo da praça usando escudos, porque os Carabineros continuavam atirando. Gustavo não é o único afetado, temos médicos, estudantes e até observadores de direitos humanos feridos pela polícia”, diz Enrique Gatica, seu irmão mais velho. “O protocolo dos policiais indica que se deve atirar para o chão. Meu irmão tem 1,80, achamos impossível que seja uma bala desviada ou um erro. Sabemos que existe uma política de intimidação de manifestantes por meio do terror”, comenta.

Gustavo Gatica é filho e irmão de professores, está em seu terceiro ano de psicologia na Universidade do Humanismo Cristão, em Santiago. É ativista pelos direitos dos animais e, até o momento do ataque, participou de um programa de assistência social com crianças na comuna de Peñalolén, em Santiago. Naquele dia, ele procurou se reunir novamente com um amigo da faculdade que havia se perdido na multidão perto da Praça Itália, que agora se chama Praça da Dignidade. Ele havia comprado uma câmera há um mês e com ela gravou as marchas. Não nenhum tipo de provocação da parte dele.



Sua história, juntamente com as das quase 300 pessoas afetadas hoje por trauma ocular durante os protestos, são testemunhos-chave que contradizem a versão oficial do governo sobre os excessos policiais como eventos isolados.

Isso foi corroborado na semana passada pelo relatório da Anistia Internacional, que denunciou a intenção das forças de segurança de “ferir aqueles que se manifestam, para desencorajar os protestos, chegando até ao extremo de usar tortura e violência sexual contra manifestantes”. Já a organização Human Rights Watch denunciou “graves violações aos direitos humanos”, e recomendou ao governo que fizesse reformas profundas em suas instituições policiais.

Semanas atrás, chilenas e chilenos começaram a ir às ruas de Santiago com os olhos vendados, em solidariedade às vítimas que perderam os olhos nos protestos. Segundo a Sociedade Chilena de Oftalmologia, há pelo menos 294 casos relatados até agora de pessoas com trauma ocular grave, muitos deles com perda total de um dos olhos, uma emergência de saúde sem precedentes no Chile e no mundo, e que sugere que a polícia está violando os protocolos, disparando balas e bombas de gás lacrimogêneo diretamente no rosto dos manifestantes. As espingardas usadas na repressão foram proibidas na semana passada, depois de um estudo da Universidade do Chile constatar que as balas não são compostas de borracha, mas que contêm metais de alta dureza, incluindo chumbo. Apesar disso, houve outros 10 casos registrados desde então.

“Nós transmitimos o apoio e a solidariedade que as pessoas enviam para Gustavo todos os dias. Algo que o ajuda a lidar com esse momento é a consciência de que ele estava lutando por causas que considera justas”, disse Enrique Gatica, horas antes da alta de Gustavo. Somente após uma segunda cirurgia, os médicos conseguiram extrair os materiais em seus olhos. Também disseram que esta não será a última intervenção.

Durante os 17 dias que Gatica esteve hospitalizado, as portas da clínica estiveram cobertas de cartazes, flores e fotografias em seu apoio. “Buscaremos justiça como família, contra todos os responsáveis. Queremos saber quem puxou o gatilho, mas também quem são os responsáveis políticos. Claramente, não estamos falando de um funcionário que obedeceu uma ordem. Os números provam que isso tem sido sistemático”, diz o irmão mais velho. O advogado da família, o ex-promotor Carlos Gajardo, apresentou uma queixa por ferimentos graves, na qual pediu para testemunhos do ministro do Interior, Gonzalo Blumel, e do diretor-geral da polícia, Mario Rozas.



Durante sua primeira tarde no hospital, Gustavo Gatica – que está sendo protegido por parentes e amigos, e não fala com a mídia – enviou através da mãe uma mensagem que comoveu os chilenos. Rapidamente, se tornou um viral nas mídias sociais, e até o nome de canção de um músico local. A mensagem é, no entanto, profundamente injusta: “entreguei meus olhos para que as pessoas despertassem”.

*Publicado originalmente em Página/12 | Tradução de Victor Farinelli

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