Pelo Mundo

O Cinco e o Onze de Setembro nos EUA

07/09/2011 00:00

Cena do Marco Zero em Nova York / Flávio Aguiar

Créditos da foto: Cena do Marco Zero em Nova York / Flávio Aguiar
No dia 5 de setembro celebrou-se o Dia do Trabalho nos EUA, país-pai do 1º de Maio e o único em que não se comemora a festividade. Dia 11 de Setembro (apelidado Nine/Eleven nos EUA) celebra-se o aniversário de dez anos do ataque terrorista às Tôrres Gêmeas do World Trade Center.

A semana norte-americana está dominada pelo pêndulo entre essas duas comemorações, ambas signos de duas tragédias da história recente do país.

A primeira tragédia é a do emprego e do trabalho. Ao contrário da tradição norte-americana, para o bem e para o mal, de usar catástrofes e guerras como alavanca de empregos e da economia, o governo de George Bush II usou-as para desalavancar empregos e a economia, embora anunciasse o contrário. O 9/11 (na ordem em que os norte-americanos dizem as datas, primeiro o mês, depois o dia) serviu para dar uma guinada poderosa na política externa dos EUA, e, ao mesmo tempo, aprofundar a linha neoliberal de cortar impostos para os ricos e grandes corporações, e a ajuda e os investimentos para os mais pobres. A tragédia de 9/11 ajudou a preparar o terreno para a tragédia do furacão Katrina, em New Orleans, em agosto/setembro de 2005.

A guinada no plano externo transformou a política de prevenção contra o terrorismo em guerra direta, provocando, sucessivamente, tragédias como a invasão (e atolamento) do Afeganistão, a guerra (e atolamento) do Iraque, a admissão aberta da tortura como método de interrogatório, o uso da prisão de Guantânamo para isso, e mais recentemente o assassinato (ao invés do julgamento) de Bin Laden. Além disso, a nova situação internacional engendrou, pelo menos, a aproximação dos governos dos EUA, Grã-Bretanha e França com o regime de Muammar Gadaffi na Líbia e sua derrubada aérea concluída no mês passado. Tudo isso representou um gasto trilionário para os cofres norte-americanos, além de um custo pesado em sua credibilidade externa, o que não foi compensado por inversões nem custeio através do aumento de impostos internamente. O custo em vidas (o mais importante) e em desordem jurídica também foi altíssimo. O resultado foi o mergulho dos Estados Unidos numa recessão crônica que ajudaram, com os desmandos da banda financeira, a levar sua economia à prostração em 2007/2008 e a sua população a níveis de pobreza e exclusão semelhantes ao da Crise de 1929. Essa desaguou no New Deal liderado por Roosevelt. A presente crise desaguou aonde?

De momento, num dos maiores confrontos da política norte-americana, agora em torno da segunda série de tragédias cujo nome genérico é recessão, pobreza e desespero, e cujo nome particular é o enfrentamento cada vez mais “sangrento” entre os líderes republicanos no Congresso, os pré-candidatos desse partido, e o presidente Barack Obama, um confronto que lembra, mutatis mutandis, o confronto entre a oposição e mídia de um lado, e o ex-presidente Lula do outro, ao fim do seu primeiro mandato.

Na quinta-feira (8), Obama deve fazer um pronunciamento perante o Congresso. Isso já trouxe novo clima de confronto. Numa decisão inédita na história norte-americana, o presidente da Casa, o republicano John Boehner, negou a imprescindível permissão para que o presidente falasse no dia requisitado, 7 de setembro. Alegou razões técnicas e de segurança, transferindo a fala presidencial para o dia 8, quinta-feira. Na verdade, esse novo gesto de desprezo da parte de Boehner (que seguidamente não atende os telefonemas do presidente nem retorna depois) visou inverter uma situação dramática para os pré-candidatos do seu partido. Estes têm um debate televisionado nesta quarta-feira à noite. Se Obama falasse no Congresso, esse debate se daria à luz de sua fala, o que complicaria a situação dos candidatos, atualmente se engalfinhando entre si para saber que é o mais reacionário do que se preocupando em atacar o presidente democrata. Boehner quis então que a fala do presidente se desse à luz do debate do dia anterior.

Mas em certa medida a ordem dos fatores não altera pelo menos um dos produtos. Sabe-se que, seja lá o que Obama propuser, os republicanos irão sabotar a proposta, mesmo que digam, a princípio, o contrário. Para eles interessa a recessão norte-americana; é o único argumento que pode levá-los a derrotar Obama em 2012, na falta de líderes mais de porte que enfrentam.

Por seu lado, o que se espera, de acordo com vários comentaristas, é que o presidente, numa manobra para contornar a oposição republicana no Congresso, decida anunciar o incremento da economia através da extensão de isenções fiscais para empregadores e empregados, além de mais ajuda federal aos estados, inclusive aqueles que, governados por republicanos, vêm cortando na carne dos pobres investimentos sociais, seguros-desemprego, despedindo professores e monitores de creches públicas, etc. Em contrapartida, os republicanos provavelmente exigirão que essas isenções sejam acompanhadas por mais cortes equivalentes nas despesas públicas federais, e assim a queda de braço continuará.

Depois do discurso do presidente, haverá uma pausa para a comemoração do 11 de Setembro. Em agosto, quando passei por lá, o espaço das Torres Gêmeas estava transformado num gigantesco canteiro de obras. Uma nova torre está sendo construída, por milhares de trabalhadores em ritmo febril. Até o domingo 11, apenas o Memorial, uma espécie de fonte permanente, estará concluído, e deverá ser inaugurado, no entanto.
Restam algumas sombras neste universo. Mais de mil corpos não foram recuperados dos destroços. Onde estão? Sob os escombros? No canteiro onde grande parte do entulho foi levada e enterrada? É uma interrogação que ficará sem resposta.

Numa outra ponta, mais sinistra ainda, restos do aço das Torres Gêmeas foram empregados na construção de um navio de guerra, o USS New York, recentemente lançado ao mar na mesma Louisina do furacão Katrina: uma imagem também do estilo de resposta que os Estados Unidos deram a essas tragédias e crises recentes.


Conteúdo Relacionado